nov 032018
 
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O ano é 1985. “Live Aid”. Shows ao vivo acontecendo simultaneamente em vários países diferentes. E qual é o único show que durou pouco mais de vinte minutos, em que se lembra perfeitamente? Certamente é o show do “Queen”. Indo neste caminho e partindo da premissa da eternização dessa passagem meteórica, “Bohemian Rhapsody” já pode ser considerado um clássico.

O filme conta a trajetória de Freddie Mercury e sua banda desde o início das primeiras incursões no meio musical até o final apoteótico no templo de Wembley. Com uma direção já conhecida e segura de Bryan Singer (X-Men) conseguimos facilmente encontrar o frontman em Ramy Malek (ator já conhecido e premiado pelo seriado “Mr. Robot”). Ainda que não tenha sido o primeiro ator escolhido para interpretar o vocalista da banda, o ator está simplesmente genial e certamente será lembrado pelos trejeitos estudados e perfeitamente coreografados para alcançar uma performance parecida com o ícone da música pop. Não será nenhuma surpresa se for agraciado com a estatueta.

Baseado em relatos verídicos “Bohemian Rhapsody” busca a essência musical na formação do “Queen” até seu apogeu e término com a descoberta da doença que liquidaria com a vida de Freddie. O filme trata de ser o mais verossímil possível, detalhando fatos da vida íntima de Freddie, sua solidão e insatisfação com o ser que sempre esteve preso dentro de si. E que com a banda ele conseguia fazer aparecer. Como em “O Médico e o Monstro”, se transformava quando em conjunto com sua família musical. Fora dela? Orgias e abuso de álcool e drogas acompanhado de pessoas as quais apenas interagiam falsamente atrás de alguma vantagem. Nota-se que em raros momentos o ator está sozinho ou sem interação com outros personagens, fato que acaba por ratificar os depoimentos colhidos.

Não se incomode com pessoas batucando nas cadeiras ou ainda batendo com os pés de forma espontânea no chão, tentando por exemplo seguir as batidas de “We Will Rock You”. É praticamente impossível não interagir tanto com o filme, quanto com a banda.

Um daqueles compromissos obrigatórios para quem gosta um pouquinho que seja de boa música.

nov 032018
 
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Visceral é a palavra que descreve bem “Nasce Uma Estrela”.

Apesar de ser um remake, o filme estrelado por Bradley Cooper e Lady Gaga avassala corações e os mais sensíveis neste “quase” drama musical. Ainda que olhos estivessem atentos e bocas ficassem tortas antes da estréia, nas primeiras cenas temos crédito o suficiente para entender que teremos um filme inesquecível sentimentalmente.

O famoso cantor e músico Jackson Maine (Cooper) encontra sem querer uma parceira para sua longa e sólida carreira, tanto musical quanto de vida. Sua nova musa Ally (Gaga) entende que essa é sua chance de sair do anonimato. Juntos a trilha do casal é problemática uma vez que ele possue sérios problemas com o álcool e que acabam comprometendo tanto carreiras, quanto vidas.

Logo nas primeiras cenas temos Ally com uma interpretação própria de “La Vie En Rose” da diva Edith Piaf em uma boate burlesca. Há dúvidas quanto a sua versão do clássico, mas não há dúvidas quanto ao talento de Lady Gaga como cantora. Sua versão atriz é boa, mas não verossímil e deixa escapar que é esforçada, mas não performática o suficiente para um papel tão intenso. A primeira opção para o papel seria de Beyoncé, que não conseguiu assumir o papel em prol de outros compromissos.

Em contrapartida Bradley Cooper é a cara da verdade. Um papel duro e com uma amargura profunda e sofrida que se consegue sentir nos primeiros momentos e também na voz embargada do ator (que canta todas as músicas). Nas vésperas da estréia do filme o ator falou publicamente de sua drogadição e alcoolismo anos atrás, vivenciando novamente a experiência e que o personagem acabara por se tornar seu alter ego.

A magia funciona não como um casal, mas sim quando entram em cena para colocarem seus prodígios frente aos microfones e ao público. Prepare-se para um oceano de lágrimas e a emotividade a flor da pele. Gaga e Cooper arrancam sorrisos e um choro compulsivo de forma tão fácil quanto quanto se dedilha um teclado escrevendo este texto.

Não há como não sem se emocionar.
E vale cada olhar marejado.

 

 

out 212018
 
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O filme “First Reformed” ou traduzido no Brasil para “No Coração da Escuridão” é uma grande e bela incógnita. Nos colocada em forma de película, a dubiedade do mundo atual e suas questões mais simples levando a acreditar que o mais complexo pode ser entendido mas que ao mesmo tempo não conseguem trazer respostas imediatas. Ou consegue? Sim. Ficamos entre a fé nos homens e nas entidades religiosas, da cultura da não agressão aos atentados sangrentos e bem elaborados, entre crer e subverter, duvidar e se entregar aos vários dogmas da sociedade.

Ex-capelão e militar (Ethan Hawke), tenta ministrar o luto pela morte do filho e silenciosamente questiona a fé em de todas suas crenças e coloca em xeque sua relação as novas situações apresentadas e os fiéis que o cercam. Atormentado e em dúvida quanto a seus próprios demônios (incluindo uma separação recente) ainda passa pela provocação de um casal de jovens que estão próximos de ter um bebê e que não tem certeza se seu filho terá um lugar no mundo.

Entre os grandes cineastas de sua geração, Paul Schraeder é especialista em questões sociais e em colocar em perigo a ética e a própria credibilidade do público. Conhecido por ter escrito os roteiros clássicos de “Taxi Driver”, “A Última Tentação de Cristo” e “Touro indomável” faz sempre dos diálogos a maior expressão de suas obras. Instigantes e inusitados, as conversações e embates ideológicos deixam o público inquieto. Aqui não é diferente, porém com a câmera na mão ele consegue extrair ainda mais de seus personagens mostrando a amargura da perda, a consciência da dúvida e a certeza de uma parcialidade que, ao mesmo tempo redentora, não pode ser mostrada a olhos vistos para não ser julgado. A questão religiosa e moral é frequentemente colocada em discussão levando a exaustão e a um final derradeiro para os protagonistas.

Em tempos de intolerância política e redes sociais, acaba se tornando um filme de necessária reflexão.

jun 122018
 
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A primeira coisa que chama atenção neste filme sem dúvidas é a foto de Jim Carrey estampada na capa como uma isca perfeita aos desavisados. O ator ficou marcado por suas excelentes atuações em comédias e filmes pastelão, porém nunca quis ser rotulado desta forma, tentando por diversas vezes quebrar este paradigma interpretando dramas e agora um thriller de suspense. No caso de “Dark Crimes” ele consegue. De novo.

O policial Tadek (Carrey) investiga o assassinato de um empresário. Para surpresa de todos, o caso é comentado letra por letra em um livro escrito por Kozlow, renomado escritor. De acordo com o andamento das investigações mais informações vão surgindo fazendo com que a trama se torne mais sombria.

Gravado na Cracóvia (Polônia) o filme tem um tom acinzentado e sombrio demonstrando que direção de arte fez seu trabalho de forma correta ilustrando as atitudes de seus personagens. Porém somente este quesito funciona bem. Com uma trama bastante interessante, o roteiro consegue estragar a ideia inicial de um romance “noir” em que os confusos diálogos entre os personagens não parecem reais. Os personagens não possuem início nem meio, uma vez que entram e saem da tela com tanta facilidade que se tornam coadjuvantes da paisagem e da tentativa de uma boa direção.A direção que por sua vez começa bem montando um cenário que lembra muito as cenas de “8 Milímetros” de Joel Schumacher. Vai se esgueirando deixando referências de vários diretores, em especial nas cenas mais arrastadas em que Tarkovski é nitidamente citado. Mas em certos momentos parece que tudo é esquecido e voltamos a um espelho tacanho de filmes feitos por obrigação, como quem tivesse que entregar um trabalho a contra-gosto e deixa o espectador (que iniciou com a mente fervendo) com uma imagem morna e sem vontade. Tudo se deve também ao reflexo dos erros de (pós) produção e na demora de dois anos no lançamento da obra, que deveria ter chegado às telas em 2016.

Por incrível que possa parecer o grande destaque de “Dark Crimes” é justamente a atuação de Jim Carrey que se mostra firme e seguro conseguindo passar ao público seu esforço e capacidade. Uma pena que desta vez tenha sido engolido pelos erros de outros setores, que acabam por comprometer todo o contexto por mais interessante que possa parecer.

 

abr 212018
 
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Quando leio na sinopse do filme: “série original Netflix”, ainda faço cara feia. Apesar de o canal de streaming já ter produzido boas séries e com relativo sucesso de público como “House Of Cards” e “Orange Is The New Black“, a impressão é de que sempre falta algo para completar a película. Já na linha de documentários não há questionamentos. Mas neste caso específico, o filme “Órbita 9” não escapa destes incompletos e quase competentes, ainda que traga questões importantes e presentes hoje para nosso futuro como ética, biomedicina e clonagem humana.

Helena (Clara Lago) está confinada em uma nave espacial aguardando a chegada de uma missão de sobrevivência em outro possível planeta colonizável, desde que nasceu. Ela ainda não sabe, mas faz parte de um teste científico. Tudo muda em sua vida quando a ventilação de seu ambiente deve ser consertada por um engenheiro visitante de outra estação: surge uma atração inevitável. Mas essa repentina paixão pode colocar em risco o experimento e redefinir o destino das pesquisas. E até da humanidade.

A ideia é extremamente vantajosa e de uma ótima premissa para diversos assuntos e temas, infelizmente mal aproveitados. A quantidade de lacunas e pontas soltas em todo o filme (do início a fim) chegam a desanimar já nas primeiras cenas onde a atriz principal se apresenta ao público como uma mulher de vinte anos sem experiências “terrenas”: apenas informações dadas por vídeo pelos seus pais biológicos e por uma voz robótica fazem sua vida interna. Em um espaço reduzido e com informações limitadas, a personagem é esperta demais para o nosso mundo fazendo com que caia a cortina de um ser em cativeiro completo.

Mais adiante entra em sua vida o engenheiro Alex Kubic (clara alusão ao criador de “2001: Uma Odisseia no Espaço“), onde em questão de horas se apaixonam e trazem a tona um sentimento de ambos os lados talvez nunca percebidos. O que também acaba causando estranheza ao público uma vez que toda a “nave” está vigiada e somente aqueles momentos é imperceptível aos sensores. Dentre outros tantos detalhes que vão ficando para trás, que a obra acaba ficando chata e fora do âmbito que poderia. Personagens mais trabalhados e uma direção de atores ausente acabam fazendo uma grande diferença.

Também a questão de ética é bastante presente no filme: uma vez que se fala em existência da humanidade, o foco fica extremamente paralisado em seus protagonistas como se fossem os únicos que importassem para o restante do universo. No final esta individualidade acaba sendo o calcanhar de Aquiles de toda a produção. Pois se a sua órbita é a de número nove, somente o destino dela redefine a de todas as outras?

Ao menos agora já sabemos que a Espanha/Colômbia sabem fazr filmes de ficção.

Se pudéssemos o combinar com o drama já produzido, seria espetacular.

fev 222018
 
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Em tempos em que a tolerância e a resiliência são palavras de ordem para a convivência social e em comunidade, “Três Anúncios Para Um Crime” vem como uma patrola esmagando conceitos e dando liberdade àqueles que nada tem mais a perder neste mundo. Aos bons de coração e inertes ao mundo que os rodeia, o filme é o espelho de uma sociedade torta e que se enverga ao considerado mundano e consciente de que alguma coisa deve ser feita.

A história nos apresenta a Mildred Hayes, uma senhora extremamente ferida pelo estupro e assassinato brutal de sua filha. Descontente com as atitudes completamente relapsas da polícia na busca de um culpado, ela então decide tomar uma atitude extremamente inédita em se tratando da cidade pequena onde mora: aluga três outdoors em uma estrada próxima a sua casa. A repercussão é imediata tanto na cidade quanto nas redondezas, atraindo inclusive veículos de comunicação de outras localidades próximas. Porém as consequências acabam atingindo outras pessoas, incluindo o Delegado Bill Willoughby, responsável direto pela investigação.

Dizem que não há dor maior na vida de um ser humano do que a perda de um filho. Pois Frances McDormand consegue traduzir e mostrar nas telas durante todo o filme a angústia e força armazenada na personagem principal. Com um humor negro indefectível, sem ser agressivo e impactando a cada diálogo ela segue abalroando aqueles que seguem frente ao seu caminho: mas tudo tem um custo.A atriz consegue oscilar da comédia ao drama quando contracena com Peter Dinklage (o Tyrion Lannister de “Game of Thrones), por exemplo.

Outro contraponto da história é o delegado interpretado por Woody Harrelson que se vê em uma sinuca quando os anúncios são expostos. Ciente de um câncer que o consome rapidamente ele tenta resolver as situações a sua maneira. Dócil com as filhas e esposa, e feroz quando dentro de um uniforme o ator consegue dosar o peso do personagem sem ficar tão estereotipado ao ponto de o público não conseguir definir se o ama ou odeia. Um papel para poucos.

A grande surpresa em termos de elenco é a atuação de Sam Rockwell: um nojento policial com trejeitos abobados e violentamente brutal quando contrariado. O personagem cresce a cada cena tornando-se fundamental na trama até o final. O crescimento do ator não é de hoje, como já reconhecido em outros filmes e tendendo a buscar um revés mais dramático valorizando seus papéis anteriores.

A trinca de atores é o plano chave do diretor Martin McDonagh para fazer uma história que parece morna, aquecer a ponto de fervilhar a emotividade do público. O elenco suporta o peso sem maiores problemas fazendo o hilário e o singelo parecerem confortáveis dentro de um roteiro simples e inteligível. A capacidade de atuação dos três é tão forte que foram indicados ao Oscar 2018. É difícil levarem todos pois concorrem com outros monstros consagrados do cinema. Mas não é impossível.

Talvez vocês possa esperar muito mais de um concorrente ao Oscar com tantos talentos a disposição, ou uma direção mais contundente. Porém talvez a ideia seja justamente criar um ambiente de crítica tão corrosiva ao ponto de tentarmos entender o filme dentro de nossos próprios conceitos. Afinal qual atitude tomar diante da reação explosiva e consequente? A dor é mais suportável que a perda? E para quem não tem mais o que perder, quanto custa? Talvez uma obra que se torna tão necessária em nosso país frente a quantidade de ombros dados ao que vemos diariamente em nosso cotidiano.

fev 052018
 
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Quando se fala em Guillermo Del Toro, uma das primeiras lembranças que se tem é do seu premiado “O Labirinto do Fauno” onde uma menina tem missões a cumprir em busca de uma felicidade imortal – tarefas estas dadas por um ser mitológico. Não muito longe disso, o diretor traz mais uma de suas pérolas as telas do cinema com “A Forma da Água“, onde não somente seus filmes amadurecem como também os personagens e as intrigas se tornam pouco mais complexas do que as vistas anteriormente. Além de serem mais sutis, permanecem densas e tão pesadas quanto se pode suportar.

A nova obra nos traz Elisa (Sally Hawkins): uma zeladora/faxineira sem voz, que trabalha em um laboratório onde um homem anfíbio que foi descoberto pelos militares americanos e que está sendo mantido em cativeiro para pesquisas. Ela então se apaixona pelo estranho ser e monta um plano para ajudá-lo a escapar das garras tiranas de Strickland (Michael Shannon) que é responsável por ele até então. Tudo isto com a ajuda de seu vizinho e também de sua colega de trabalho (Octavia Spencer).

Apesar dos últimos filmes não terem sido tão abrangedores quanto o primeiro, Del Toro consegue trazer novamente seus elementos fantásticos e fazer de “A Forma da Água” uma divertida e tocante aventura, por vezes infantil, mágica e em certos momentos até erótica. Em épocas de estruturas politicamente corretas, metáforas e eufemismos baratos tentando ajudar roteiros, aqui as figuras de linguagem ficam de lado e são colocadas em seus devidos lugares com sexo (quase) explícito, masturbação soft, sangue, garras, violência e tiros. Mas nada disso se apresenta sem sentido ou casualmente. Tudo normalmente se encaixa como sempre em seu realismo absurdo e inteligível.

Em todo o filme também é clara a intenção de retratar as minorias em suas formas mais simples e diretas, desde os insultos que sofrem as personagens femininas: seja por suas condições de classe operária, seja pelo simples fato de serem mulheres. As estruturas dos atores foram bem trabalhadas e em cada um dos personagens é factível a extração de um conteúdo a mais, seja nos militares russos da guerra fria que buscam aniquilar as descobertas inimigas, seja no colega de quarto (Richard Jenkins) que tenta se recolocar profissionalmente e ao mesmo tempo em que deve aceitar que a tecnologia bate a sua porta, e que também em meio a todos problemas de trabalho ainda busca a felicidade homossexual em tempos severos e de tolerância zero.

O ambiente submerso que vemos em a “A Forma da Água” também é cuidadoso em demasia com a direção de arte, nos deixando a vontade em saber que cada detalhe não foi esquecido. A verossimilhança com os arquétipos das épocas sugeridas também nos remetem aos seriados dos anos 70 – com um saudosismo incrível – sem deixar de ser extremamente atual. Em certos momentos pode remeter a Tim Burton em “Edward Mãos de Tesoura” nas cenas mais tétricas e tristes (uma vez que a figura aquática encontrada é humilhada e ferida pelo simples fato de ser diferente e não falar o idioma local).
Em todo o filme também é clara a intenção de retratar as minorias em suas formas mais simples e diretas, desde os insultos que sofrem as personagens femininas: seja por suas condições de classe operária, seja pelo simples fato de serem mulheres. As estruturas dos atores foram bem trabalhadas e em cada um dos personagens é factível a extração de um conteúdo a mais, seja nos militares russos da guerra fria que buscam aniquilar as descobertas inimigas, seja no colega de quarto (Richard Jenkins) que tenta se recolocar profissionalmente e ao mesmo tempo em que deve aceitar que a tecnologia bate a sua porta, e que também em meio a todos problemas de trabalho, ainda busca a felicidade afetiva em tempos severos e de tolerância zero.
O título do filme também remete diretamente a uma fala do mestre Bruce Lee, onde em vários momentos ele sempre afirma para “sermos água”: contornar as dificuldades, adaptar-se as adversidades, modificar sempre suas formas para que o ambiente o acolha de forma mais intensa e prazerosa, sem deixar de ser água. Apesar das acusações de plágio que o filme vem sofrendo (e com razão) ainda assim é um excelente entretenimento e experiência cinematográfica.
Encontre a “Forma da Água” e aproveite.

jan 302018
 
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A arte de crescer não é nada fácil. E é justamente este o tema principal de “Lady Bird”, onde uma adolescente de classe média (Saoirse Ronan) tenta se adaptar ao meio onde vive passando pelas fases e dificuldades, dúvidas e escolhas típicas da idade. Mas o pássaro prestes a bater as asas e talvez voar, tenha um pouco mais a nos dizer neste singelo filme da atriz Greta Gerwig.

Apesar de ser o primeiro filme de Greta na direção, possui traços firmes de que não fez apenas um filme de adolescentes em crise de identidade, mas também mostra que pode ter maturidade para assumir novas responsabilidades a partir daqui. Ainda que “Lady Bird” não seja auto-biográfico, muito se tem da diretora: a mãe da protagonista é uma enfermeira, tal qual a mãe da diretora também é na vida real. Em entrevistas a diretora Greta comenta que sempre teve um comportamento completamente oposto a da atriz principal e que tinha comportamentos exemplares: talvez justamente aí possam estar todos, ou a grande maioria dos paradoxos.

Além da vida adolescente de “Lady Bird” McPherson, o foco traz à tona a difícil relação com sua mãe, que revela em meio a uma das discussões que não teve uma mãe com quem pudesse dialogar francamente. Porém justamente esta é a dificuldade: tentar a aproximação com alguém tão próxima e ao mesmo tempo tão distante, tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.

Certamente “Lady Bird” bebeu em outras fontes, e de fato o espectador encontrará semelhança em outras obras. Mas com toda certeza em algum momento conseguirá se identificar (e talvez até se emocionar) com alguma passagem, e fará questão de se remeter a própria adolescência e questiona-la da mesma forma que Christine McPherson acaba por fazer. Quem nunca se arrependeu de algo, e apesar de ter voado um mundo inteiro, gostaria de voltar e fazer diferente? Talvez não melhor, mas diferente.

Definitivamente, como já falava e esbravejava o músico Belchior: “Ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais…”

set 232017
 
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Nem tudo na vida é fácil de entender. A cabeça de Darren Aronofski menos ainda. O último rebento “Mãe!” é uma chuva torrencial de informações e de metáforas tão grande e tão poético que muitos odiarão, alguns entenderão e que poucos realmente conseguirão entender o que a arte do diretor conseguiu (não) traduzir em apenas 121 minutos de filme. Não é terror, não é ação nem aventura, mas talvez um drama das próprias vidas, fragmentadas em cortes de cenas bem montadas. Em tempos de censura do MBL, “Mãe!” veio em boa hora.

A história nos apresenta um casal (Lawrence e Bardem) que se muda a pouco para uma antiga casa de campo e que vivem uma aparente pacata vida, até a chegada de um estranho casal que sem serem convidados, vem para quebrar a rotina e fazer balbúrdia e tormentos sem muito sentido para os dois.

Em uma de poucas leituras do filme, a versão de “paraíso” descrita pela protagonista (que não tem nome) é interrompido pela chegada deste então casal (Ed Harris e Michelle Pfiffer) como que para incendiar o relacionamento e apontar os defeitos que até então não existiam ou não eram notados, colocando a primeira grande estrutura do filme a ser abalada. Depois deles nada é lúcido, nada é certo e o espectador fica perdido tentando encontrar uma lógica para os acontecimentos. Não se preocupe, pois até a saída da sala de cinema esta lógica continuará desconexa. Talvez convulsionada para sempre.

Aronofsky, que também escreveu o roteiro de “Mãe!” coloca a caixola do espectador para funcionar: afinal, quem somos!? E realmente somos alguma coisa? Os personagens não possuem nomes, apenas rótulos impostos de acordo com suas vontades e atitudes por outros que não fazem a mínima ideia do que se passa com eles. Expressões de pavor de Jennifer Lawrence traduzem uma ansiedade, tremor, impotência e uma angústia e apreensão por não conseguirem se situar no espaço. E quem disse que temos algum espaço nosso ou que alguma coisa é realmente no nossa? Nem mesmo nossos corpos e mentes são nossos… somos uma transformação constante de pó, barro, virtudes, sangue e lágrimas que brota da terra e certamente será por ela consumido.

Que nossos então filhos não nasceram para serem nossos e sim do mundo. Ao nascermos apenas somos mais uma parte de algo indiscernível e de pouca compreensão como o próprio filme. O diretor tenta em cenas mais lúcidas trazer um pouco de alento a história que parece tão estapafúrdia, mas que na verdade consegue com zilhares de metáforas fazer mais adiante, e com frases que parecem soltas (só que não), fazer com que entendamos a grande experiência que ele tenta nos proporcionar.

Javier Bardem, um dos maiores atores de nossa atualidade, parece ter sido escolhido a dedo para representar um eixo central de sanidade travestida de egoísmo, que se mostra a cada cena mais entendedor do universo em que se encontra. Mas ainda assim toda sua vã sabedoria é quase nula, uma vez que não se consegue enxergar o próximo que lhe ama. Amor este que deve ser valorizado sem entender ou mesmo exigir que seja retribuído de qualquer forma. Um misto de euforia e egocentrismo que pode ser quebrado facilmente com a pronúncia de uma mera (e nada mera) paravra de três letras. Palavra que ao mesmo tempo pode ter conforto e ser o próprio inferno quando vista de outra forma: dores do parto, cuidados por uma nova vida  que não sabe cuidar de si mesmo como todos os outros animais nascidos desta mesma terra. Difícil! Quase impossível.

Mais uma vez digo que “Mãe!” é arte pura e em todos os sentidos. Ainda diante de todos estes complexos conceitos, ainda temos as explosões de blackblocks, fanatismo religioso, ganância e corrupção, vandalismo e depredação com a intenção de encontrar o novo, etc, etc, etc. A recriação do universo pelo próprio universo. A ambição do diretor é assustadora e fantasmagórica. Seu deus é o deus supremo.

Poderia ficar falando horas, talvez dias sobre as múltiplas percepções na obra de Aronofsky. E ainda assim não conseguiria nem a metade colocar/colorir tudo.

Difícil. Sim, muito difícil. Mas a beira da loucura e da perfeição de ser o que realmente é: cinema.

set 042017
 
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Certamente o legado do músico Belchior não foi apenas musical, mas também literário, e hoje cinematográfico. A letra de “Como Nossos Pais” parece ter sido transcrita de forma fiel ao filme sob forma de uma nova poesia que pode chegar a encantar.

Na obra, Rosa (Maria Ribeiro – excepcional!) é uma mulher que busca sempre e incondicionalmente a perfeição em tudo o que faz em sua vida, seja como profissional, mãe de duas meninas, esposa e amada amante. Ela possui sérios problemas de convivência com sua mãe (Clarisse Abujamra), ao mesmo tempo em que se vê responsável pelas viagens do pai. Moderna, ela se vê encurralada entre ser o que é ou ser aquilo que os outros esperam.

Os recheios de metáfora em “Como Nossos Pais” não chegam a ser tão sutis quanto as obras dos mestres Anna Muylaert e Karim Aïnouz, mas são de uma sinceridade que chega as vezes a constranger. Outra fórmula batida e que funciona muito são as ilusões de ótica propostas e a eterna dúvida de Capitu: as coisas realmente acontecem, é desejado que aconteça ou realmente existiu o fato consumado? Talvez nunca venhamos a saber.

Detalhes a parte o roteiro apesar de bem encaixado é comum a outras fórmulas de drama, mas na mão da diretora Laís Bodanzky, tudo acaba sendo bem entendido e bem transmitido. Sintonia pura.

Além de muito bem dirigido e produzido o filme ainda, além de flertar com as relações pais e filhos, atravessa como uma estaca no peito as mazelas conjugais de sempre, dando um ar atual aos grandes dilemas de relacionamento. De uma forma objetiva e ao mesmo tempo sutil as histórias do cotidiano de Rosa e Dado, transformam quem está do lado de fora da tela em quase um protagonista, pois em muitos casos é quase impossível a não identificação.

E quando o espectador consegue se identificar com a história e os personagens, existe a certeza de que houve êxito. E foi perfeito.