jun 202022
 
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A ultima produção da Netflix infelizmente vem ao encontro da grande maioria de outras já lançadas. Raso, contando com um elenco de apoio e também com um fraquíssimo roteiro, ”Spiderhead” (que nem o nome faz jus) é a bola da vez.

Em algum tempo não muito longe daqui, determinados condenados pela lei poderão servir como cobaias em novos experimentos científicos, porém com o consentimento do próprio apenado. Um dos presos nota que existe algo a mais e que não havia sido dito e/ou mencionado até aquele momento.

Mesmo com alguns atores ligados fortemente ao MCU como Chris Hemswort (Thor) e Miles Teller (Quarteto Fantástico), em momento algum o filme convence ou consegue colocar algum tipo de sensação na telinha. Ainda que a premissa seja excelente e o texto bem construído, nem direção nem equipe técnica conseguem fazer do limão uma limonada. Personagens apáticos e (aparentemente) perdidos em cena tendem a cada frame perder a desenvoltura (talvez inicial). Teller poderia ser substituído por qualquer ator, barateando o custo. E a presença de Hemswort como antagonista é apenas necessária comercialmente, pois nem não conseguimos desvencilhar sua imagem do “deus do trovão”: a exigência do papel é demasiada e não acredito no entusiasmo de nenhum outro que pudesse substitui-lo.

A ideia do experimento científico é muito boa, tirada de um conto publicado no New York Times, poderia flertar com teorias freudianas, comportamentais e até filosóficas se fosse a necessidade. Ao invés disso, busca na falta de empatia dos personagens, um humor nonsense completamente desnorteado.

A trama de pouco mais de 90 minutos, caberia muitíssimo bem em apenas um episodio da série “Black Mirror” e bastaria. Seria menos tempo perdido e extremamente melhor aproveitados, poupando o publico de mais uma tentativa caça-níqueis/clientes do serviço de streaming

jun 132022
 
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Torcer o nariz para mais um filme de Adam Sandler é fácil. Difícil é admitir que o filme é bom e que vale gastar duas horas do seu dia frente a um drama esportivo. Ainda mais sobre basquete.

Não que basquete deixe de ser um esporte importante, mas que não é tão difundido ou apreciado no país do futebol quanto deveria. Ao mesmo tempo que “Arremessando Alto” se torna um filé com fritas para os adoradores do esporte. Com presenças ilustres do passado e atuais, todo enredo e trama acaba se encaixando aos poucos na história.

Ainda que conte com figurinhas carimbadas da comédia como Adam Sandler e Queen Latifah (que em momento algum lembram um casal), e nomes de peso da dramaturgia como Robert Duvall e Ben Foster, quem acaba ganhando os créditos na hora do tapete vermelho é o jogador profissional espanhol Juancho Hernangomez (atualmente no Utah Jazz) que acaba sensibilizando o olheiro e sendo recrutado (ainda que de forma escusa.)

Mas o filme não é apenas sobre jogos, basquete e competições: é sobre superação. Com descontrole emocional, o jogador “Bo” deve atravessar os obstáculos de ser um amador entre os grandes, além do preconceito de mais um branco e não-americano jogar a NBA. Isso fica bastante explicito em um dos principais duelos travados em quadra. Os dramas familiares dos envolvidos em suas conquistas também permeiam todos os lados da produção.

Tecnicamente “Hustle” (título original) faz muito bem, perto de outras produções encarnadas pelo comediante: câmeras bem conduzidas e com efeitos de difícil acesso, sequencias de cortes tão rápidos que chegam a acompanhar os dribles mas velozes e estonteantes. O roteiro, apesar de quase batido, não decepciona entregando as prometidas voltas de personagens várias vezes.

Nota interessante em uma das marcantes frases de um dos personagens comentando que “não é sobre o que se é ou sobre o que somos, e sim sobre o que ainda queremos ser e para onde queremos ir”, o que se encaixa irrefutavelmente na cronologia de Sandler, quase como uma metáfora de sua então carreira como um ator pastelão, sempre querendo alçar voos maiores, mas com uma pesada corrente presa a seus pés.

maio 152022
 
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Para quem já está acostumado com os filmes de Robert Eggers regados a exageros de sangue e mortes estapafúrdias estará bem servido em “The Northman”. Já os cinéfilos mais ávidos podem se decepcionar pelo roteiro raso e pouco introspectivo do diretor sensação de tantos anos.

Depois de primorosos filmes tensos e com um terror psicológico vívido, Eggers parece se entregar ao hollywoodiano mais prático e seguir uma linha de pensamento mais fácil. Em “A Bruxa” (2015), o primor pela história pacata e ao mesmo tempo envolvente e depois mais adiante com “O Farol” (2019), onde a arte prevalece e atuações dão entorno ao caldo, temos uma linha a seguir e esperar muito. Talvez aí esteja o erro. Acredita-se também que com um elenco com tamanho peso e um orçamento bastante fora dos padrões anteriores tudo tenha mudado de figura.

Por outro lado o filme consegue buscar na mitologia nórdica a força necessária para nos levar por mais de duas horas sem cansar, sendo bastante fiel a literatura escandinava e buscando retratar o povo Viking tal e qual fosse em anos próximos ao 800 d.c. Ainda que a história de vingança não traga muitas surpresas ao espectador, em um ou dois momentos o “plot twist” (famosa virada de roteiro) acontece embasbacando os mais desavisados.

As cenas em si são muito bem montadas e dão a mão com o diretor nos momentos mais longos: nota-se os planos sequência bastante cuidadosos e as cenas de (ação) combate elaboradas para não parecerem piegas e também darem sustança a linha pouco entusiasmada na escrita do filme.

Alexander Skarsgard está em casa. Sua versatilidade é posta mais uma vez a prova: depois de interpretar magnatas e pessoas mais franzinas, retorna mais entroncado do que em “A Lenda de Tarzan” de 2016. Sua origem sueca ajuda em muito o personagem Amleth: tanto no linguajar rebuscado de época quanto no sotaque. Os demais estelares como Nicole Kidman e Ethan Hawke poderiam tranquilamente serem substituídos por cachês mas baixos. Já o mesmo não se pode dizer do fantástico Willem Dafoe e da sempre excelente Anya Taylor-Joy.

“O Homem do Norte” traz uma versão mais amena de Eggers e ao mesmo tempo uma aventura de vingança atraindo público mais interessado em sangue e ação do que propriamente cinema além do entretenimento básico.

mar 142022
 
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Mas são três horas de filme… e veria novamente se tivesse a oportunidade. “The Batman” não é diferente de muitos filmes de heróis que você já assistiu. Mas é bem diferente daqueles filmes do Batman que já foram feitos. Se existe alguma dúvida em ir ao cinema e esperar o “streaming”, pode ir ao cinema sem medo de se arrepender.

Existiam muitas dúvidas sobre a interpretação do purpurinado vampiro de “Crepúsculo” como o mascarado da DC: Robert Pattinson cumpre seu papel como homem-morcego e tira as dúvidas dos mais aficionados quanto a interpretação. Ele pode em alguns momentos não representar tão bem Bruce Wayne, mas surge bastante eloquente sobre a capa. Até porque estamos acostumados a ver o herói já formado e certo de seus compromissos enquanto o novo filme de Matt Reeves traz o morcegão em seus primeiros anos como o vingador de Gothan.

Um dos pontos fortes em “The Batman” é o roteiro: firme e decidido, para cada fala e a cada “plot twist” (que não são poucos) os motivos/razões são fechados e não deixam pontas soltas conseguindo ainda finalizar a trama deixando rastros para um próximo episódio. As caracterizações também são um ponto forte: Zoë Kravitz e Colin Farrell dão as cartas com atuações primorosas, fazendo saber o motivo de terem sido escolhidos: convencem. Não apenas eles, mas todo o elenco convence. Cenas de ação e lutas são bem coreografadas e faz o espectador duvidar dos próximos passos.

Paul Dano é uma das atuações a parte: não existe tempo ruim com ele, e o “Charada” é não é diferente. Pegando ganchos de outras atuações como em “Ruby Sparks”, “Os Suspeitos” e “Okja”, faz um vilão muito longe da caricatura tenebrosa se Jim Carrey. Outro ponto importante: “The Batman” flerta com realidades que excepcionais de hoje como redes sociais e o anonimato. Tão séria questão nos dias de hoje fora abordada de forma tão certa e ao mesmo tempo tão séria que pode não ser valorizada. Engraçado como as coisas sérias e pragmáticas podem ser duvidosas hoje, não? Mas não devemos entrar no mérito da questão.

Mas no contexto geral, “The Batman”’ ainda pode ir bem mais além em se tratando de uma trilogia: (spoiler) imaginamos outros vários super vilões para os próximos filmes, porém nada tão esperado como o “Coringa”, que faz uma ponta (ainda não declarada pela produção) como o grande artífice das próximas sequências. Mas será difícil alguém como Barry Keoghan bater interpretações icônicas como Jack Nicholson e/ou Joaquim Phoenix. Mas quem esperava isso de Heath Leadger, chegando a carregar o Oscar (ainda que póstumo)?

Só os próximos capítulos dirão…

fev 032022
 
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https://www.imdb.com/title/tt8747460/?ref_=nv_sr_srsg_0

A transposição de uma cultura para outra ainda traz um certo desconforto a quem conhece bem a original. Assim são com remakes, versões e remontagens de clássicos (que na maioria das vezes não deveriaM ser tocados). Não é o caso de “Eduardo e Mônica”, que aparece nos cinemas em uma linguagem simples e cotidiana, trazendo apenas uma versão de um dos casais mais cantarolados do país.

A mão diretor René Sampaio (também responsável pela realização de “Faroeste Caboclo) é leve e doce como uma “Sessão da tarde” e pode incomodar alguns com a falta ousadia na retratação das agruras e desventuras do casal idealizado por Renato Russo. Em breves momentos temos a busca pela inquietação e inserção de fatores e momentos históricos do Brasil dos anos 80 que, cheio de fatos, foram simplesmente exonerados na película.

A força da poesia e da realização visual é aprimorada, mostrando recantos de Brasília sendo explorados a gosto e idealizando locais que a música nos faz buscar a todo o tempo na memória. A sobriedade em momentos menos oportunos e desimportantes, e a explosão colorida chega ao ponto de ser piegas. Mas se tratando de uma livre adaptação, quem se importa?

A escolha de Alice Braga para interpretar uma Mônica introspectiva (e sensata até certo ponto) foi um dos pontos altos e acertos em cheio. A experiência da atriz e sua interpretação acabam se sobressaindo sobre os demais atores que tentam apenas entrar na combustão, mas conseguem interpretar apenas a si mesmos. Alice consegue projetar e convencer o público que uma encarnação dos sonhos da Legião é possível.

Outro adendo importante: aqueles que não viveram ou não participaram ativamente da musicalidade da década oitentista podem não gostar do contexto geral, uma vez que falta ao roteiro uma abrangência maior e mais perspicaz: desde gírias e bordões típicos da época até as extravagâncias das vestimentas foram poupados. Inclusive em um dos pontos altos da produção, onde uma das músicas de Bonnie Tayler é exaltada como hino (e chega a emocionar), poderia ter sido melhor aproveitada. Porém, como existe uma licença poética a ser cumprida, é necessário relevar.

A conclusão de um filme raso e pouco inclusivo não pode ser apenas visto como mero cinema, mas sim como a tentativa de representação de um dos ícones mais conhecidos do rock nacional. Certamente qualquer tentativa de personificação do casal dos sonhos da música brasileira jamais agradará a gregos e troianos, e dificilmente seria aceito por completo. Mas é válido e competente a sua maneira, afinal, quem um dia irá dizer que existe razão para as coisas feitas pelo coração?!

mar 012021
 
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Um filme pode ser superestimado por diversos motivos: um grande diretor, ou um roteirista de renome, ou ainda um(a) grande ator. Mas e quando entram em cena três vencedores do Oscar e quatro estatuetas em uma mesma película? Ou melhor… em uma mesma cena! Sim. “Os pequenos vestígios” vem com a mala pronta para viagem e bagagem recheada com Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto. Mas como traz o dito popular, “vamos devagar com andor, pois o santo é de barro”…

O já tarimbado delegado do condado de Kern, Joe “Deke” Deacon (Denzel Washington), precisa ser enviado a Los Angeles para uma simples coleta de provas e averiguação de rotina em outra jurisdição. Porém, o processo demora um pouco mais do que imagina e acaba por se interessar e se envolver em um caso muito similar a outro que viveu anos atrás: com toda sua “expertise” acaba ajudando e se envolvendo na caça de um “serial-killer” que já está deixando a polícia local e a população em polvorosa. O delegado do departamento de Los Angeles Jim Baxter (Rami Malek), é bastante displicente e arrogante, mas acaba cedendo aos instintos do veterano Deke. A ajuda é extraoficial e tudo pode acontecer, sendo que o pior ou melhor de cada um pode submergir. Com o andar do caso, mazelas do policial Deke vão surgindo e o jogo mental acaba sendo tão importante ou até crucial quanto aos vestígios do criminoso que vão aparecendo. Tudo pode ser cíclico e o mundo já provou dar voltas demais para chegar ao mesmo lugar.

O jogo de gato e rato em um ambiente “noir” não é novidade em filmes policiais, sendo que para tanto é necessário que uma boa mão na direção esteja firme e um roteiro envolvente seja de acordo com a história. Nâo é o que acontece. De acordo com o andamento da história, sentimos aos poucos que nem tudo parece tão real ou ainda que certos fatos jamais aconteceriam em um caso real: porém vamos dando corda, linha e crédito como uma licença poética a cada erro. A comparação com os clássicos do gênero ficam inevitáveis. Apesar das nuances e rastros deixados para que o espectador também identifique o criminoso e desvende os segredos da trama, as pontas vão ficando soltas, tornando o filme morno e – não decepcionando – arrastado.

O diferencial acontece quando Jared Leto entra em cena. O ser apático e dissimulado apresenta um sarcasmo sempre que questionado, deixando em dúvida e as vezes até seduzindo o espectador pouco avisado. A trama ressurge entusiasmada e o ritmo parece que pode ficar frenético. Mas infelizmente não fica. E assim vamos até o desfecho. Ainda existe a tentativa de uma “moral” a lá desenhos do He-Man, onde o final tentava ser educativo. Mas ainda assim falha. Solenemente falha.

Um grande elenco não garante um grande filme. Tampouco um diretor de renome faz milagre com um roteiro errado. Há elogios e acertos em “Os pequenos vestígios”, mas tanto quanto o próprio nome do filme, ainda não foram desta vez encontrados…

fev 172021
 
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Segundo o escritor alemão Goethe, todos os fatos marcantes da vida provém de traumas: desde o sofrido nascimento de um ser humano, passando pelas fases de aprendizado para que consigamos a duras custas entender o significado de sobrevivência e ainda assim também esperar o final da existência e torna-la menos sofríveis. Mas e quando um determinado trauma é para sempre? Violência, humilhação, eternos desconfortos… Existe alguma forma de exterminar em definitivo essa dor permanente?


Vivendo nos Estados Unidos, Maja (Noomi Rapace) tem sua família formada. O marido Lewis (Chris Messina) e o filho Patrick formam o estereótipo de felicidade. Porém ela não consegue esquecer e se livrar dos horrores sofridos em sua terra natal durante a Segunda Guerra. Insônia e antidepressivos são constantes. Em um rompante desespero ela sequestra seu vizinho, sem ter a certeza de que realmente foi ele seu torturador no passado.


O filme é tenso. O tempo inteiro existe a dúvida sobre as atitudes dos protagonistas e para qual caminho o roteiro seguirá. Noomi Rapace ficou conhecida no já cult sueco “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” e vem emplacando atuações de tirar o fôlego, sempre intensas e convincentes sendo na maioria das vezes personagens perturbados e de difícil interpretação. Coisa que não acontece com o apático “Lewis”. Sua sintonia acaba acontecendo com seu algoz (e também sueco) Joel Kinnaman – que consegue fazer um papel quase duplo até o desfecho. 

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Algumas lacunas são observadas no decorrer do longa: se você está acostumado a filmes de investigação ou se ater aos detalhes da produção e continuidade, vai perceber logo. Porém acabam por não terem tanta importância sendo que a trama (ainda que não seja tão atribulada quanto outros do gênero) acaba por prender o espectador até o final. Um ponto forte é a ambientação na América pós-guerra, desde indumentárias, paisagens, diálogos e até gírias e gestos nos transportam a época então. Também os “flashbacks” em preto e branco fazem uma ponte bastante sinuosa, que vai se estreitando com o andar do longa e elucidando boa parte da estrada em seu final. Outro detalhe interessante são as cores vibrantes quando os diálogos se tornam quase um embate psicológico – bela sacada! 


No final das contas é um excelente entretenimento. Dependendo da visão e expectativa frente a tela, pode se tornar mais um exemplar dos horrores da guerra e suas consequências até hoje. Ou ainda apenas mais um jogo de informações onde não se tem o resultado ideal – mas proveitoso.

Disponível também no “Amazon Prime”.

abr 202020
 
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Nessas férias forçadas em casa ou isolamento social (necessário) como muitos pregam, acabamos tentando que buscar aquilo que nos agrada e que nos faça momentaneamente felizes: seja realizando pequenos desejos pessoais dando atenção aos demais entes na casa, ou ainda ajustando alguns ponteiros que ficam para outra hora no correr dos dias em que normalmente não se consegue agir. O cinema/filme acaba sendo uma saída bastante democrática, cultural e inteligível. Alguns deles especialmente me chamaram a atenção. E “Swallow” foi um deles.

Na trama, Hunter (Haley Bennett) é uma jovem recém casada e que ainda se sente perdida dentro de sua nova vida. Vinda de origem humilde e visivelmente desconfortável dentro da imensa nova casa, acaba encontrando na necessidade de engolir objetos estranhos e buscando nisso um perigoso alívio. Cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos, ela acaba tendo que enfrentar sua nova família opressora e também seus próprios medos e agruras.

Filme inicialmente classificado como terror, acaba por não se traduzir a isso mas sim a um sufocante drama psicológico onde tentamos de forma involuntária ajudar a protagonista a entender sua obsessão. Não é fácil de assistir cenas tão fortes que acabam por incomodar o espectador, principalmente por contrastarem tanto com os cenários límpidos e exuberantes. Aos poucos vamos notando que as mudanças que Hunter tenta fazer em seu ambiente, não resultam em sua mudança de vida e seus hábitos ainda persistem. Tecnicamente as mudanças de cenário vão acontecendo gradualmente e mudando de cor a cada momento em que a vida de Hunter também vai se extinguindo perante sua falta de capacidade, onde ainda não entendemos a que leva a personagem aos estranhos fatos e movimentos. Aos observadores mais atentos não apenas o cenário, mas a postura da atriz, suas vestimentas, forma de falar e agir vão também sofrendo essa transformação.

A libertação (se realmente é possível) acaba se fazendo quando os monstros são confrontados fora de seu habitat natural, bem como um animal descoberto tendo de ir em busca de uma sobrevivência, porém ainda com o grande peso da vida em suas costas. O filme é muito mais que uma simples observação de um cotidiano de sofrimentos internos, mas também a sensibilidade da obra em conseguir fazer entender a cada momento da película as nuances, sem que a tragédia ou o grotesco se façam perceber, mudando o contexto do que realmente se quer mostrar ali.

Bem como a vida é, “Swallow” faz com que em algum momento consigamos nos identificar. Seja na angústia de não conseguir sair de determinada situação visto que somente atitudes não são suficientes para dobrar a mente e fazer com que sua visão de mundo e percepção mude, seja ainda na tentativa de tratar diferentemente tudo ao nosso redor fazendo com que o mundo seja mais confortável ao nosso desespero. A ânsia de “devorar” pequenos objetos (ou engolir pequenos “sapos”) diariamente pode fazer com que a vida se torne amarga, mas em algum momento o “gosto” vai ser diferente, ou perder-se completamente.

Não é um filme fácil de engolir. Literalmente.

fev 102020
 
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A grande surpresa em relação aos concorrentes a estatueta de ouro é o filme de guerra “1917” – que estreou comercialmente no Brasil somente em 23 de janeiro – e que estava escondido entre os demais até o último momento. Um marketing de efeito e que acabou por permear a curiosidade daqueles que gostam de cinema. Na direção temos Sam Mendes (de Beleza Americana) e um elenco de estrelas que vai aparecendo ao longo da película. Mas o que se apresenta nas telas realmente vale a pena? A pergunta acabou dividindo admiradores do gênero e também amantes da sétima arte.

Durante a primeira grande guerra, dois soldados britânicos são incumbidos de uma tarefa quase impossível: entregar uma mensagem a outra guarnição muito distante evitando um massacre em massa, atravessando o território inimigo. A corrida contra o tempo tem ainda mais um agravante: o irmão de um deles ainda está entre os soldados em perigo.

O diretor Sam Mendes se utilizou de dois grandes trunfos: a história é baseada em fatos reais contados por seu avô, que participou das batalhas e provavelmente viveu “in loco” parte delas. Detalhes de sobrevivência e percalços durante a jornada são detalhados a cada momento com muita ênfase na parte humana dos então dois protagonistas. Mas até onde há protagonistas em uma guerra? Outra cartada certeira foi o uso do “plano sequencia “ – técnica de difícil execução onde não existem cortes na cena e a câmera acompanha os personagens e/ou a história de maneira ininterrupta – que faz com que o trajeto dos soldados seja mais valioso e o trabalho da equipe técnica supervalorizada (com razão), uma vez que tudo e todos devem ter atenção redobrada. Apesar de todo mérito, o uso do plano não é nenhuma novidade: Alfred Hitchcock inaugurou a ideia em “Festim Diabólico”, e mais recentemente o vencedor do Oscar com “Birdman” também o fez de forma fantástica. Mais maldosos dirão que até nos seriados dos japoneses “Flashman” isso nunca fora uma novidade – em suas devidas proporções, obviamente.

O grande acerto e digno de aplausos está a direção de fotografia: uma aula de cinema nos ensinada por Roger Deskins (de Blade Runner 2049). Deixado livre pela direção para criar e extravasar ele consegue transformar as cenas mais simples em verdadeiros meteoros fumegantes dando um espetáculo a parte e vivendo a real grandiosidade de cada passagem. A mão do diretor de fotografia se torna pesada nos últimos quarenta minutos onde todos os sentimentos são traduzidos em cores e visões quase estroboscópicas. Pode apostar uma estatueta certa para este quesito.

Mas até onde vai a grandiosidade de “1917”? Dalton Trumbo já teria perguntado em seu livro “Johnny Vai a Guerra” se algum soldado se orgulha de ter morrido por seu país. A resposta certa é que nenhum deles voltou para contar. Outros clássicos do gênero sempre trazem questões contundentes como em “Platoon”, com os horrores traduzidos por Oliver Stone, ou ainda em “Apocalipse Now”, de Francis Ford Copolla no final derradeiro do astro Marlon Brando. Sem falar de outros inúmeros (Nascido Para Matar, Atrás das Linhas Inimigas, Círculo de Fogo, etc…). Ainda podemos citar o recente “Jojo Rabbit” – que consegue encontrar graça e fazer piada com o holocausto nazista (sim, é possível) e encontrar uma moral a ser questionada.

Fato é que “1917” se apresenta vazio e sem objetivos, onde o heroísmo e a técnica apenas se apresentam como grandes noções de megalomania. É uma grande obra sem dúvida alguma. Mas fatalmente fadada ao esquecimento logo logo, justamente por não conseguir trazer tudo aquilo que uma guerra realmente pode nos mostrar e/ou ensinar.

jan 032020
 
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Um dos mais esperados filmes do ano, “O Farol” chegou firme em suas convicções e expectativas conseguindo arrancar suspiros dos cinéfilos mais enraizados, deixar perplexos os encantadores de críticos, porém fazendo o público médio ficar em dúvidas quanto ao drama/terror feito por Robert Eggers.

A trama se passa em meados de 1890, onde dois faroleiros são responsáveis pela manutenção de uma pequena ilha, que serve de referência para diversas embarcações que por ali cruzam. Porém a relação entre Thomas e Winslow ao longo dos dias e das horas vai ficando cada vez mais estreita, caótica e sem um rumo certo.

O primor de tratamento da película é notado logo no início onde o preto e branco são contrastados a exaustão e já trazendo o clima soturno que guiaria tudo (e a todos). O grande trunfo da direção está em resgatar/utilizar grandes referências cinematográficas de outrora desde a tristeza do cinema alemão, passando pela apatia do sueco Ingmar Bergman e até a crueza das telas russas de Eisentein e Tarkovski.

Já os diálogos tentam buscar a mesma eficiência “noir” mas acabam sucumbindo talvez na falta de ousadia, que também custa a aparecer nos personagens, fazendo-se valer mais em gestos os dilemas existenciais e questões antropológicas. Porém o isolamento social destes dois únicos personagens do filme é o grande mote para tudo: duas peças únicas em um tabuleiro sufocante e que lutam o tempo inteiro pela sua sobrevivência mental. Tudo é mostrado as claras, mas nada existe de certeza: os jogos de luz e sombra fazem o tempo inteiro o espectador duvidar do que realmente está acontecendo. Nesse caso é bom salientar que a sintonia Dafoe/Patison até mesmo nesse ponto consegue ser perfeita: tanto o estranhamento e embates quanto a parceria e cumplicidade dos faroleiros é percebida de forma constante e de certa forma até enjoativa. As vezes a assimetria é o melhor caminho (refutada aqui solenemente).

A grande crítica especializada enalteceu “O Farol” – dez entre dez textos sobre a obra falam de “obra-prima” a “espetáculo visceral”. Não se tira o mérito da técnica completa, complexa e impecável, inclusive com favoritismos na questão “Oscar” neste ano. Porém acredito que de todo espetáculo, de toda magia e de todo respeito oferecido as telas em homenagem também intrínseca a grandes mestres, talvez o maior deles tenha sido deixado um tanto de lado: o espectador comum, que busca seu entretenimento em detrimento de uma história não menos complexa, porém mais palpável e palatável. Talvez um pouco mais de objetividade e assertividade fizessem o alcance de “O Farol” despontar como sucesso não só de critica, mas também de público.