Daniel Arrieche

Ex-publicitário, ex-revoltado, radialista, redator e contista. Tequila, Sheridans e Marlboro seus maiores amigos e principais aliados. Vício por cinema e aberto a qualquer tipo de pessoa que queira um bom papo em uma mesa de bar e queira amanhecer rindo do fatídico cotidiano... "Uma associação viciosa e irregular das idéias - na santa paz de Deus, o mais perfeito caos". Não necessariamente nessa ordem. Ou não.

jul 112022
 
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Apenas o fato de citar o nome de David Cronenberg já traz calafrios e a certeza de que algo escatológico vem a seguir. Em “Crimes do Futuro” o diretor não foge a regra e ainda traz uma voraz crítica social misturado com arte e poesia.

Na sinopse, um braço governamental investiga uma espécie de evolução do ser enquanto humano. A ingestão de plásticos e outros objetos faz hoje com que novos órgãos sejam criados pelo próprio ser, e um grupo de artistas performáticos liderados do Saul (Viggo Mortensen) trabalha de forma árdua em busca de novos conceitos estéticos e de um padrão de acesso as prováveis novas utilidades.

Cronenberg consegue mais uma vez criar repulsa neste horror disfarçado de drama, junto com os também criativos gregos que nitidamente tem vários dedos na película (visto filmes tão repulsivos, chocantes e quão realistas). Em um futuro distópico, mas não tão distante de nossa realidade, a população está escassa e faminta por novidades que a façam “progredir”. Mas infelizmente juntamente com as novidades, as mazelas da inveja e cobiça vem também inseridas no contexto.

Outra crítica bastante relevante é um soco no estômago, quando retratadas as cirurgias estéticas como novas formas de prazer e de ostentação. O inicio de uma nova fase traz prazer com o uso do bisturi, e a dor acaba sendo uma constante naqueles que buscam um novo auto-entendimento.

Autópsias, cortes, modificações corporais, nudez e assassinatos são usados como lugar comum em “Crimes do Futuro”. Crimes agora em uma dimensão que até agora não havia sido imaginada. A não ser, por Cronenberg, é claro…

jul 042022
 
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As paisagens bucólicas e verdes campos que fazem compor o quadro inicial do novo filme da produtora “A24” são apenas um pequeno delírio frente ao redemoinho que está prestes a começar. Com a irlandesa Jessie Buckley encabeçando a trama, “Men” é mais uma daquelas obras que te prendem do início ao fim, e a aflição de acabar com o sofrimento e agonia diário das perdas e decepções. Mas é sabido que nem sempre é possível.

Já na primeira cena vemos um corpo caindo e o olhar de Harper, acompanhando tudo com aflição e com um clima típico de tragédia. Seu então marido está morto devido a uma violenta e traumática queda. Daí para adiante vemos nossa protagonista chegando a uma distante casa no interior da Inglaterra, onde tentará curar as feridas abertas e se libertar do sentimento de culpa e do luto da recente viuvez inesperada. Mas nada é fácil. Muito pelo contrário. Algo (ou alguém) a observa.

Nesse incessante clima de tensão, o diretor Alex Garland nos coloca em constante situação de alerta. O rosto angelical e aparentemente inocente da estrela Jessie nos faz acreditar em tudo que vê ou em tudo que acontece. Mas até onde temos uma verdade absoluta? Não tente entender o contexto, mas sim um todo em torno da situação caótica em que se encontra sua mente em busca de paz. Mas o tormento não cessa fácil e começa a tomar contornos quase diabólicos.

A obra flerta o tempo inteiro com elementos pagãos e culturas antigas, e acaba colocando em dúvida a fé da personagem principal. Sabendo vir de uma cultura ocidental e já civilizada em nossos padrões atuais, ela é exposta a situações onde a violência e a selvageria em conluio com a natureza, são vistas e aceitas como lugar comum. A violência física contra a mulher, a necessidade de submissão do feminino e a conotação sexual em que é exposta como objeto, faz com que pareça que a idade média não saiu daquele povoado em que se encontra. Porém a realidade dos fatos nos mostra que essa premissa de estar em outra época/dimensão não é possível, uma vez que a comunicação é feita pelo “wi-fi” da casa alugada e ali já passaram comboios de ferro que literalmente ecoam o tempo inteiro.

Peça importante e sensacional neste jogo é observar as atuações do ator coadjuvante Rory Kinnear (do excelente Penny Dreadful). Até então, apenas o senhorio da casa alugada e que tenta ser agradável fazendo piadas sem graça o tempo inteiro. Porém o sensacional é observar que TODOS os personagens masculinos (que dá nome ao filme) são interpretados por ele: desde o anfitrião, passando pelo policial, padre, barmen, etc etc. O ator é multifacetado e acaba sendo uma analogia podre, porém, complexa passando do homem animalesco ao refinado, do menos religioso ao líder paroquial e, todos acabam sendo reflexo daquele mesmo homem que ela vira despencar.

Visões e analogias diversas são possíveis dentro de um contexto de imaginação e aceitação do homem pelo homem. Não por acaso existe uma macieira na entrada da casa, e Harper desavisada morde o fruto proibido. A perseguição do blasfemador pelo anjo caído, a busca pela fé no grito desesperador gutural, o renascimento do homem a cada vida o transformando de eras em eras em um ser diferente. Ou não?

É mais um daqueles filmes que a cada vez que se assiste, encontra-se algo novo ou uma visão bastante deturpada da primeira. Porém a agonia e perplexidade são talvez, as únicas certezas em todas as instâncias…

jun 202022
 
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A ultima produção da Netflix infelizmente vem ao encontro da grande maioria de outras já lançadas. Raso, contando com um elenco de apoio e também com um fraquíssimo roteiro, ”Spiderhead” (que nem o nome faz jus) é a bola da vez.

Em algum tempo não muito longe daqui, determinados condenados pela lei poderão servir como cobaias em novos experimentos científicos, porém com o consentimento do próprio apenado. Um dos presos nota que existe algo a mais e que não havia sido dito e/ou mencionado até aquele momento.

Mesmo com alguns atores ligados fortemente ao MCU como Chris Hemswort (Thor) e Miles Teller (Quarteto Fantástico), em momento algum o filme convence ou consegue colocar algum tipo de sensação na telinha. Ainda que a premissa seja excelente e o texto bem construído, nem direção nem equipe técnica conseguem fazer do limão uma limonada. Personagens apáticos e (aparentemente) perdidos em cena tendem a cada frame perder a desenvoltura (talvez inicial). Teller poderia ser substituído por qualquer ator, barateando o custo. E a presença de Hemswort como antagonista é apenas necessária comercialmente, pois nem não conseguimos desvencilhar sua imagem do “deus do trovão”: a exigência do papel é demasiada e não acredito no entusiasmo de nenhum outro que pudesse substitui-lo.

A ideia do experimento científico é muito boa, tirada de um conto publicado no New York Times, poderia flertar com teorias freudianas, comportamentais e até filosóficas se fosse a necessidade. Ao invés disso, busca na falta de empatia dos personagens, um humor nonsense completamente desnorteado.

A trama de pouco mais de 90 minutos, caberia muitíssimo bem em apenas um episodio da série “Black Mirror” e bastaria. Seria menos tempo perdido e extremamente melhor aproveitados, poupando o publico de mais uma tentativa caça-níqueis/clientes do serviço de streaming

jun 132022
 
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Torcer o nariz para mais um filme de Adam Sandler é fácil. Difícil é admitir que o filme é bom e que vale gastar duas horas do seu dia frente a um drama esportivo. Ainda mais sobre basquete.

Não que basquete deixe de ser um esporte importante, mas que não é tão difundido ou apreciado no país do futebol quanto deveria. Ao mesmo tempo que “Arremessando Alto” se torna um filé com fritas para os adoradores do esporte. Com presenças ilustres do passado e atuais, todo enredo e trama acaba se encaixando aos poucos na história.

Ainda que conte com figurinhas carimbadas da comédia como Adam Sandler e Queen Latifah (que em momento algum lembram um casal), e nomes de peso da dramaturgia como Robert Duvall e Ben Foster, quem acaba ganhando os créditos na hora do tapete vermelho é o jogador profissional espanhol Juancho Hernangomez (atualmente no Utah Jazz) que acaba sensibilizando o olheiro e sendo recrutado (ainda que de forma escusa.)

Mas o filme não é apenas sobre jogos, basquete e competições: é sobre superação. Com descontrole emocional, o jogador “Bo” deve atravessar os obstáculos de ser um amador entre os grandes, além do preconceito de mais um branco e não-americano jogar a NBA. Isso fica bastante explicito em um dos principais duelos travados em quadra. Os dramas familiares dos envolvidos em suas conquistas também permeiam todos os lados da produção.

Tecnicamente “Hustle” (título original) faz muito bem, perto de outras produções encarnadas pelo comediante: câmeras bem conduzidas e com efeitos de difícil acesso, sequencias de cortes tão rápidos que chegam a acompanhar os dribles mas velozes e estonteantes. O roteiro, apesar de quase batido, não decepciona entregando as prometidas voltas de personagens várias vezes.

Nota interessante em uma das marcantes frases de um dos personagens comentando que “não é sobre o que se é ou sobre o que somos, e sim sobre o que ainda queremos ser e para onde queremos ir”, o que se encaixa irrefutavelmente na cronologia de Sandler, quase como uma metáfora de sua então carreira como um ator pastelão, sempre querendo alçar voos maiores, mas com uma pesada corrente presa a seus pés.

maio 152022
 
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Para quem já está acostumado com os filmes de Robert Eggers regados a exageros de sangue e mortes estapafúrdias estará bem servido em “The Northman”. Já os cinéfilos mais ávidos podem se decepcionar pelo roteiro raso e pouco introspectivo do diretor sensação de tantos anos.

Depois de primorosos filmes tensos e com um terror psicológico vívido, Eggers parece se entregar ao hollywoodiano mais prático e seguir uma linha de pensamento mais fácil. Em “A Bruxa” (2015), o primor pela história pacata e ao mesmo tempo envolvente e depois mais adiante com “O Farol” (2019), onde a arte prevalece e atuações dão entorno ao caldo, temos uma linha a seguir e esperar muito. Talvez aí esteja o erro. Acredita-se também que com um elenco com tamanho peso e um orçamento bastante fora dos padrões anteriores tudo tenha mudado de figura.

Por outro lado o filme consegue buscar na mitologia nórdica a força necessária para nos levar por mais de duas horas sem cansar, sendo bastante fiel a literatura escandinava e buscando retratar o povo Viking tal e qual fosse em anos próximos ao 800 d.c. Ainda que a história de vingança não traga muitas surpresas ao espectador, em um ou dois momentos o “plot twist” (famosa virada de roteiro) acontece embasbacando os mais desavisados.

As cenas em si são muito bem montadas e dão a mão com o diretor nos momentos mais longos: nota-se os planos sequência bastante cuidadosos e as cenas de (ação) combate elaboradas para não parecerem piegas e também darem sustança a linha pouco entusiasmada na escrita do filme.

Alexander Skarsgard está em casa. Sua versatilidade é posta mais uma vez a prova: depois de interpretar magnatas e pessoas mais franzinas, retorna mais entroncado do que em “A Lenda de Tarzan” de 2016. Sua origem sueca ajuda em muito o personagem Amleth: tanto no linguajar rebuscado de época quanto no sotaque. Os demais estelares como Nicole Kidman e Ethan Hawke poderiam tranquilamente serem substituídos por cachês mas baixos. Já o mesmo não se pode dizer do fantástico Willem Dafoe e da sempre excelente Anya Taylor-Joy.

“O Homem do Norte” traz uma versão mais amena de Eggers e ao mesmo tempo uma aventura de vingança atraindo público mais interessado em sangue e ação do que propriamente cinema além do entretenimento básico.

mar 142022
 
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Mas são três horas de filme… e veria novamente se tivesse a oportunidade. “The Batman” não é diferente de muitos filmes de heróis que você já assistiu. Mas é bem diferente daqueles filmes do Batman que já foram feitos. Se existe alguma dúvida em ir ao cinema e esperar o “streaming”, pode ir ao cinema sem medo de se arrepender.

Existiam muitas dúvidas sobre a interpretação do purpurinado vampiro de “Crepúsculo” como o mascarado da DC: Robert Pattinson cumpre seu papel como homem-morcego e tira as dúvidas dos mais aficionados quanto a interpretação. Ele pode em alguns momentos não representar tão bem Bruce Wayne, mas surge bastante eloquente sobre a capa. Até porque estamos acostumados a ver o herói já formado e certo de seus compromissos enquanto o novo filme de Matt Reeves traz o morcegão em seus primeiros anos como o vingador de Gothan.

Um dos pontos fortes em “The Batman” é o roteiro: firme e decidido, para cada fala e a cada “plot twist” (que não são poucos) os motivos/razões são fechados e não deixam pontas soltas conseguindo ainda finalizar a trama deixando rastros para um próximo episódio. As caracterizações também são um ponto forte: Zoë Kravitz e Colin Farrell dão as cartas com atuações primorosas, fazendo saber o motivo de terem sido escolhidos: convencem. Não apenas eles, mas todo o elenco convence. Cenas de ação e lutas são bem coreografadas e faz o espectador duvidar dos próximos passos.

Paul Dano é uma das atuações a parte: não existe tempo ruim com ele, e o “Charada” é não é diferente. Pegando ganchos de outras atuações como em “Ruby Sparks”, “Os Suspeitos” e “Okja”, faz um vilão muito longe da caricatura tenebrosa se Jim Carrey. Outro ponto importante: “The Batman” flerta com realidades que excepcionais de hoje como redes sociais e o anonimato. Tão séria questão nos dias de hoje fora abordada de forma tão certa e ao mesmo tempo tão séria que pode não ser valorizada. Engraçado como as coisas sérias e pragmáticas podem ser duvidosas hoje, não? Mas não devemos entrar no mérito da questão.

Mas no contexto geral, “The Batman”’ ainda pode ir bem mais além em se tratando de uma trilogia: (spoiler) imaginamos outros vários super vilões para os próximos filmes, porém nada tão esperado como o “Coringa”, que faz uma ponta (ainda não declarada pela produção) como o grande artífice das próximas sequências. Mas será difícil alguém como Barry Keoghan bater interpretações icônicas como Jack Nicholson e/ou Joaquim Phoenix. Mas quem esperava isso de Heath Leadger, chegando a carregar o Oscar (ainda que póstumo)?

Só os próximos capítulos dirão…

fev 032022
 
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https://www.imdb.com/title/tt8747460/?ref_=nv_sr_srsg_0

A transposição de uma cultura para outra ainda traz um certo desconforto a quem conhece bem a original. Assim são com remakes, versões e remontagens de clássicos (que na maioria das vezes não deveriaM ser tocados). Não é o caso de “Eduardo e Mônica”, que aparece nos cinemas em uma linguagem simples e cotidiana, trazendo apenas uma versão de um dos casais mais cantarolados do país.

A mão diretor René Sampaio (também responsável pela realização de “Faroeste Caboclo) é leve e doce como uma “Sessão da tarde” e pode incomodar alguns com a falta ousadia na retratação das agruras e desventuras do casal idealizado por Renato Russo. Em breves momentos temos a busca pela inquietação e inserção de fatores e momentos históricos do Brasil dos anos 80 que, cheio de fatos, foram simplesmente exonerados na película.

A força da poesia e da realização visual é aprimorada, mostrando recantos de Brasília sendo explorados a gosto e idealizando locais que a música nos faz buscar a todo o tempo na memória. A sobriedade em momentos menos oportunos e desimportantes, e a explosão colorida chega ao ponto de ser piegas. Mas se tratando de uma livre adaptação, quem se importa?

A escolha de Alice Braga para interpretar uma Mônica introspectiva (e sensata até certo ponto) foi um dos pontos altos e acertos em cheio. A experiência da atriz e sua interpretação acabam se sobressaindo sobre os demais atores que tentam apenas entrar na combustão, mas conseguem interpretar apenas a si mesmos. Alice consegue projetar e convencer o público que uma encarnação dos sonhos da Legião é possível.

Outro adendo importante: aqueles que não viveram ou não participaram ativamente da musicalidade da década oitentista podem não gostar do contexto geral, uma vez que falta ao roteiro uma abrangência maior e mais perspicaz: desde gírias e bordões típicos da época até as extravagâncias das vestimentas foram poupados. Inclusive em um dos pontos altos da produção, onde uma das músicas de Bonnie Tayler é exaltada como hino (e chega a emocionar), poderia ter sido melhor aproveitada. Porém, como existe uma licença poética a ser cumprida, é necessário relevar.

A conclusão de um filme raso e pouco inclusivo não pode ser apenas visto como mero cinema, mas sim como a tentativa de representação de um dos ícones mais conhecidos do rock nacional. Certamente qualquer tentativa de personificação do casal dos sonhos da música brasileira jamais agradará a gregos e troianos, e dificilmente seria aceito por completo. Mas é válido e competente a sua maneira, afinal, quem um dia irá dizer que existe razão para as coisas feitas pelo coração?!

mar 012021
 
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Um filme pode ser superestimado por diversos motivos: um grande diretor, ou um roteirista de renome, ou ainda um(a) grande ator. Mas e quando entram em cena três vencedores do Oscar e quatro estatuetas em uma mesma película? Ou melhor… em uma mesma cena! Sim. “Os pequenos vestígios” vem com a mala pronta para viagem e bagagem recheada com Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto. Mas como traz o dito popular, “vamos devagar com andor, pois o santo é de barro”…

O já tarimbado delegado do condado de Kern, Joe “Deke” Deacon (Denzel Washington), precisa ser enviado a Los Angeles para uma simples coleta de provas e averiguação de rotina em outra jurisdição. Porém, o processo demora um pouco mais do que imagina e acaba por se interessar e se envolver em um caso muito similar a outro que viveu anos atrás: com toda sua “expertise” acaba ajudando e se envolvendo na caça de um “serial-killer” que já está deixando a polícia local e a população em polvorosa. O delegado do departamento de Los Angeles Jim Baxter (Rami Malek), é bastante displicente e arrogante, mas acaba cedendo aos instintos do veterano Deke. A ajuda é extraoficial e tudo pode acontecer, sendo que o pior ou melhor de cada um pode submergir. Com o andar do caso, mazelas do policial Deke vão surgindo e o jogo mental acaba sendo tão importante ou até crucial quanto aos vestígios do criminoso que vão aparecendo. Tudo pode ser cíclico e o mundo já provou dar voltas demais para chegar ao mesmo lugar.

O jogo de gato e rato em um ambiente “noir” não é novidade em filmes policiais, sendo que para tanto é necessário que uma boa mão na direção esteja firme e um roteiro envolvente seja de acordo com a história. Nâo é o que acontece. De acordo com o andamento da história, sentimos aos poucos que nem tudo parece tão real ou ainda que certos fatos jamais aconteceriam em um caso real: porém vamos dando corda, linha e crédito como uma licença poética a cada erro. A comparação com os clássicos do gênero ficam inevitáveis. Apesar das nuances e rastros deixados para que o espectador também identifique o criminoso e desvende os segredos da trama, as pontas vão ficando soltas, tornando o filme morno e – não decepcionando – arrastado.

O diferencial acontece quando Jared Leto entra em cena. O ser apático e dissimulado apresenta um sarcasmo sempre que questionado, deixando em dúvida e as vezes até seduzindo o espectador pouco avisado. A trama ressurge entusiasmada e o ritmo parece que pode ficar frenético. Mas infelizmente não fica. E assim vamos até o desfecho. Ainda existe a tentativa de uma “moral” a lá desenhos do He-Man, onde o final tentava ser educativo. Mas ainda assim falha. Solenemente falha.

Um grande elenco não garante um grande filme. Tampouco um diretor de renome faz milagre com um roteiro errado. Há elogios e acertos em “Os pequenos vestígios”, mas tanto quanto o próprio nome do filme, ainda não foram desta vez encontrados…

fev 172021
 
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Segundo o escritor alemão Goethe, todos os fatos marcantes da vida provém de traumas: desde o sofrido nascimento de um ser humano, passando pelas fases de aprendizado para que consigamos a duras custas entender o significado de sobrevivência e ainda assim também esperar o final da existência e torna-la menos sofríveis. Mas e quando um determinado trauma é para sempre? Violência, humilhação, eternos desconfortos… Existe alguma forma de exterminar em definitivo essa dor permanente?


Vivendo nos Estados Unidos, Maja (Noomi Rapace) tem sua família formada. O marido Lewis (Chris Messina) e o filho Patrick formam o estereótipo de felicidade. Porém ela não consegue esquecer e se livrar dos horrores sofridos em sua terra natal durante a Segunda Guerra. Insônia e antidepressivos são constantes. Em um rompante desespero ela sequestra seu vizinho, sem ter a certeza de que realmente foi ele seu torturador no passado.


O filme é tenso. O tempo inteiro existe a dúvida sobre as atitudes dos protagonistas e para qual caminho o roteiro seguirá. Noomi Rapace ficou conhecida no já cult sueco “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” e vem emplacando atuações de tirar o fôlego, sempre intensas e convincentes sendo na maioria das vezes personagens perturbados e de difícil interpretação. Coisa que não acontece com o apático “Lewis”. Sua sintonia acaba acontecendo com seu algoz (e também sueco) Joel Kinnaman – que consegue fazer um papel quase duplo até o desfecho. 

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Algumas lacunas são observadas no decorrer do longa: se você está acostumado a filmes de investigação ou se ater aos detalhes da produção e continuidade, vai perceber logo. Porém acabam por não terem tanta importância sendo que a trama (ainda que não seja tão atribulada quanto outros do gênero) acaba por prender o espectador até o final. Um ponto forte é a ambientação na América pós-guerra, desde indumentárias, paisagens, diálogos e até gírias e gestos nos transportam a época então. Também os “flashbacks” em preto e branco fazem uma ponte bastante sinuosa, que vai se estreitando com o andar do longa e elucidando boa parte da estrada em seu final. Outro detalhe interessante são as cores vibrantes quando os diálogos se tornam quase um embate psicológico – bela sacada! 


No final das contas é um excelente entretenimento. Dependendo da visão e expectativa frente a tela, pode se tornar mais um exemplar dos horrores da guerra e suas consequências até hoje. Ou ainda apenas mais um jogo de informações onde não se tem o resultado ideal – mas proveitoso.

Disponível também no “Amazon Prime”.

ago 072020
 
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Baseado em fatos reais, “Fuga de Pretória” é mais um daqueles muito tensos e pouco emocionantes filmes de prisão e escape. O tema já e bem batido no cinema desde sempre, mas ainda assim se espera algo que venha a agregar a história. Ainda mais baseando-se em fatos reais e trazendo um elenco de respeito e cuidadosamente escolhido com Daniel Radcliffe (o eterno H.Potter), o versátil Daniel Webber e atores secundários (mas não menos importantes) como Ian Hart e Mark Leonard Winter. O tema de fundo e mote inicial da película vem com a luta incessante contra o “Apartheid“: regime de segregação racial implantado na África do Sul em 1948, motivo pelo qual os protagonistas lutaram até serem presos e julgados.

A caracterização de época é bastante impressionante e faz realmente colocar o espectador frente as mazelas da época cruel (e até pouco tempo) aceitável não só na África mas em grande parte do mundo, da radicalização e racismo explícitos. A luta do ANC (grupo de Nelson Mandela) contra os estragos causados pela estupidez humana são mostrados de forma bastante rápida, mas não menos contundente, fazendo com que a parte mais claustrofóbica e interessante fique com a concretização do plano de fuga. A idealização e a parte histórica de luta e contra opressão foram pouco citados deixando a ação e o suspense sobressaírem-se perante o drama proposto inicialmente. O roteiro é bastante eloquente na apresentação de personagens e fazendo o público entender suas motivações para os atos terroristas, porém apenas a apresentação e não o viés ideológico acabam por não completar aquilo que talvez se busque em um filme de drama (ainda que esteja classificado como “thriller“). Cinematograficamente existe pouco a acrescentar, ainda que os curtos planos-sequência e closes tenham bastante êxito naquilo que se propõe. Alguns “takes” mais significativos, como câmera girando nos sentidos das chaves em portas de cela ou ainda fechaduras sendo expostas internamente, fazem uma pequena diferença no todo mas não tem uma valorização suficiente para destaque no todo.

Então “Fuga de Pretória” acaba cumprindo o que se propõe, mostrando a batida em retirada e a maneira a qual ela se dá na prisão africana. Quem espera (ou compra) a ideia de uma película com uma história mais engajada politicamente ou trazendo historicidade aos fatos acaba enganando-se. Busque um filme de ação ou suspense quando assistir tendo assim uma diversão e um entretenimento que valem a pena em pouco mais de uma hora e meia de cinema.