Daniel Arrieche

Daniel Arrieche

Ex-publicitário, ex-revoltado, radialista, redator e contista. Tequila, Sheridans e Marlboro seus maiores amigos e principais aliados. Vício por cinema e aberto a qualquer tipo de pessoa que queira um bom papo em uma mesa de bar e queira amanhecer rindo do fatídico cotidiano... "Uma associação viciosa e irregular das idéias - na santa paz de Deus, o mais perfeito caos". Não necessariamente nessa ordem. Ou não.

jan 032020
 
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Um dos mais esperados filmes do ano, “O Farol” chegou firme em suas convicções e expectativas conseguindo arrancar suspiros dos cinéfilos mais enraizados, deixar perplexos os encantadores de críticos, porém fazendo o público médio ficar em dúvidas quanto ao drama/terror feito por Robert Eggers.

A trama se passa em meados de 1890, onde dois faroleiros são responsáveis pela manutenção de uma pequena ilha, que serve de referência para diversas embarcações que por ali cruzam. Porém a relação entre Thomas e Winslow ao longo dos dias e das horas vai ficando cada vez mais estreita, caótica e sem um rumo certo.

O primor de tratamento da película é notado logo no início onde o preto e branco são contrastados a exaustão e já trazendo o clima soturno que guiaria tudo (e a todos). O grande trunfo da direção está em resgatar/utilizar grandes referências cinematográficas de outrora desde a tristeza do cinema alemão, passando pela apatia do sueco Ingmar Bergman e até a crueza das telas russas de Eisentein e Tarkovski.

Já os diálogos tentam buscar a mesma eficiência “noir” mas acabam sucumbindo talvez na falta de ousadia, que também custa a aparecer nos personagens, fazendo-se valer mais em gestos os dilemas existenciais e questões antropológicas. Porém o isolamento social destes dois únicos personagens do filme é o grande mote para tudo: duas peças únicas em um tabuleiro sufocante e que lutam o tempo inteiro pela sua sobrevivência mental. Tudo é mostrado as claras, mas nada existe de certeza: os jogos de luz e sombra fazem o tempo inteiro o espectador duvidar do que realmente está acontecendo. Nesse caso é bom salientar que a sintonia Dafoe/Patison até mesmo nesse ponto consegue ser perfeita: tanto o estranhamento e embates quanto a parceria e cumplicidade dos faroleiros é percebida de forma constante e de certa forma até enjoativa. As vezes a assimetria é o melhor caminho (refutada aqui solenemente).

A grande crítica especializada enalteceu “O Farol” – dez entre dez textos sobre a obra falam de “obra-prima” a “espetáculo visceral”. Não se tira o mérito da técnica completa, complexa e impecável, inclusive com favoritismos na questão “Oscar” neste ano. Porém acredito que de todo espetáculo, de toda magia e de todo respeito oferecido as telas em homenagem também intrínseca a grandes mestres, talvez o maior deles tenha sido deixado um tanto de lado: o espectador comum, que busca seu entretenimento em detrimento de uma história não menos complexa, porém mais palpável e palatável. Talvez um pouco mais de objetividade e assertividade fizessem o alcance de “O Farol” despontar como sucesso não só de critica, mas também de público.

dez 262019
 
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Em mais uma daquelas zapeadas nas redes de streaming, a Amazon trouxe “A Maratona de Brittany” – o que parecia uma daquelas despretensiosas comedias românticas que iniciam e acabam sem ter um sentido maior, surpreende ao longo de quase duas horas ao alcançar públicos de diversas faixas etárias, diferentes etnias, público de grandes “minorias” sem atingir diretamente. Equilibrado: “pero no mucho”.

Brittany é uma mulher de quase trinta anos. O reflexo daquilo que vê no espelho e em suas consequências não a agradam. Ainda mais quando a questão financeira vem mostrando os dentes já a algum tempo, e resolve morder justamente na hora errada. Mas nada vem sozinho. Literalmente “Brit” resolve colocar um tênis e correr a seu favor e contra o tempo perdido.

Tecnicamente não temos muitas novidades além das boas tentativas: a direção de arte capricha nas cores exageradas quando se trata da vida pessoal da personagem, volta e meio contrastando com o asfalto negro e o céu cinza que precisa trilhar até conquistar seus objetivos. A medida que o filme vai a avançando, as vestes de Britney vão ganhando contexto e se encaixando em novas realidades. O roteiro também não é de um primor, mas acaba buscando a essência e o objetivo inicial da obra: diálogos ácidos e humores acelerados em busca de um acerto fulminante, mas também assim como os detalhes visuais vai fluindo e torna-se tão importante quanto o próprio mote inicial.

A escolha do elenco e dos personagens é um acerto em meio ao politicamente correto tão preterido atualmente. Inicialmente seus melhores amigos são um casal blindado pelos “likes” de redes sociais – com uma futilidade que não deixa de ter. Ao longo de uma hora de filme, uma vizinha divorciada, um casal de amigos gays e um descendente indiano em uma plena e heterogênea Nova York acabam por fazer toda a diferença no contexto. Afinal, como loira de olhos azuis aparentemente dona de si e completamente autônoma pode ser ajudada por personagens tão específicos como estes? Pode se fazer aí uma leitura também bastante política em se tratando de economia mundial.

No fim das contas “A Maratona de Britney” não é apenas uma comédia e nem tanto se trata de uma mulher acima do peso buscando a redenção através do esporte, mas sim de uma corrida em busca da auto-estima, do amor próprio e de conseguir perceber que estamos sempre correndo. Nem sempre para vencer uma corrida ou ultrapassar obstáculos, mas também para entender que estamos lado a lado, em conjunto ou equipes, e na maioria das vezes com aqueles que querem nos proporcionar mais do que um simples trajeto, mas também uma odisseia através de nós mesmos.

mar 142019
 
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Em meio a tantos filmes de ação e combate, entre Marvel e DC disputando beleza para ver quem mais dispara socos e chutes por segundo, surge um oásis. Literalmente uma ilha chamada Plymouth que se encontra em algum lugar no Caribe. Lá figurinhas carimbadas de um bom filme como Matthew McConaughey e Anne Hathaway se encontram para tirar o espectador do sério com tamanha “Calmaria”: suspense dirigido por Steven Knight, e que surpreende a cada minuto.Nem tudo são flores, mas que há de falarmos nelas, isso é certo.

O capitão de um barco de pesca Baker Dill, vive recluso em uma pequena e remota ilha do Caribe. Tudo está dentro de uma certa normalidade até que sua ex-mulher o encontra, falando que é abusada e torturada frequentemente po seu atual marido e que o convívio também com seu filho é insuportável. Então sua vida se transforma em definitivo: ele recebe uma proposta milionária para matar o abusivo conjuge em um passeio em alto mar.

A quantidade de metáforas e de tiradas visuais parece não acabar e em um primeiro momento é sensível que existe uma mão diferente atrás da câmera, com movimentos exatos e já tentando dizer a que veio, longe dos clichês mais certos dos últimos anos. Até porque trabalhar com dois oscarizados em ambientes onde a locação possui espaços restritos (um barco de pesca) não é nada fácil.

Não perder o rumo em um roteiro bem montado até parece uma experiência sem percalços, mas manter o público interessado até o fim e manter a tensão e os segredos até o final.. essa é a tarefa difícil. Knight não consegue. Mas ainda assim a trama faz todo o sentido e entrega-se até um pouco mais que o prometido. O elenco de apoio ainda traz Djimon Houson e Diane Lane como coadjuvantes de luxo

Ainda que tenha sido destroçado e escangalhado pela crítica especializada e minorizado pelo seu elenco ser maior do que a própria obra, um ponto de interrogação é colocado de tempos em tempos na tela, questionando uma estranheza que se revela aos poucos.

De qualquer forma, “Calmaria” é uma grata surpresa para quem vai apenas assistir um filme e sai com a impressão de que tem um pouco mais para ser visto e apreciado em um cinema. Que um filme ainda pode surpreender, pode tocar, pode angustiar, ou pode simplesmente fazer com que o deleite de estar em uma sala escura apreciando arte.

jan 142019
 
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O canal de streaming Netflix é bastante famoso pela variedade de filmes e séries oferecidas, e também pela facilidade de acesso em suas multiplataformas. Porém depois de pouco tempo acostumado com o serviço, o cliente nota os enxertos de produções e filmes de baixa ou pouca qualidade para que o catálogo fique extenso. Tanto que “códigos secretos” são divulgados na mídia para evitar o exaustivo garimpo digital. Outros canais nem tão conhecidos (Amazon, Crackle, Looke, Hulu, etc) oferecem uma alta qualidade de produções mas com um portfólio reduzido. Porém dentre tantas ofertas a série “Você” (You) se destaca com um bom roteiro e direção de arte mantendo o espectador atento até o episódio derradeiro.

A série “You” nos fala de Joe, um pacato gerente de livraria que acaba se envolvendo com uma de suas clientes. Tudo vai muito bem, até quando o amor começa e se tornar obsessivo e perigoso para ela e para aqueles que a rodeiam.

Baseado no romance homônimo, “You” é uma montanha russa de sentimentos que deixa o espectador estático até o final dos dez episódios. Claramente um sociopata, Joe é interpretado com relevância buscar o carisma que poucos atores conseguem dar a um assassino serial (impossível não lembrar de Dexter), e seu par romântico interpretado pela belíssima Elisabeth Lail é uma estudante e promissora escritora perdida entre sua vida pessoal, profissional e amorosa.

Desde a primeira cena já sabemos que a sucessão de “stalkeadas” é requisito básico em praticamente todos os personagens. A direção simpática e envolvente não deixa em momento nenhum o ritmo cair trazendo o tempo inteiro fatos novos e argumentos que conseguem conduzir até o último momento a trama. Existem pontas a serem amarradas ainda? Certamente. Porém existe um gancho para a segunda temporada, já anunciada antes mesmo da estréia da série.

Um dos principais motes é a questão da superexposição em mídias e redes sociais que também é amplamente colocada em foco uma vez que os meios são usados como fontes fiéis de informação tanto para os vilões quanto para os demais personagens. Violência doméstica e abandonos são também fortes temáticas em todos os dez episódios trazendo consequências dramáticas aos (não) envolvidos.

Então “You” é uma grata surpresa entre tantas procuras por boas horas de entretenimento. Vale “maratonar” e se deliciar, quem sabe em alguns momentos até torcendo pelo vilão? Com toda certeza.

nov 032018
 

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O ano é 1985. “Live Aid”. Shows ao vivo acontecendo simultaneamente em vários países diferentes. E qual é o único show que durou pouco mais de vinte minutos, em que se lembra perfeitamente? Certamente é o show do “Queen”. Indo neste caminho e partindo da premissa da eternização dessa passagem meteórica, “Bohemian Rhapsody” já pode ser considerado um clássico.

O filme conta a trajetória de Freddie Mercury e sua banda desde o início das primeiras incursões no meio musical até o final apoteótico no templo de Wembley. Com uma direção já conhecida e segura de Bryan Singer (X-Men) conseguimos facilmente encontrar o frontman em Ramy Malek (ator já conhecido e premiado pelo seriado “Mr. Robot”). Ainda que não tenha sido o primeiro ator escolhido para interpretar o vocalista da banda, o ator está simplesmente genial e certamente será lembrado pelos trejeitos estudados e perfeitamente coreografados para alcançar uma performance parecida com o ícone da música pop. Não será nenhuma surpresa se for agraciado com a estatueta.

Baseado em relatos verídicos “Bohemian Rhapsody” busca a essência musical na formação do “Queen” até seu apogeu e término com a descoberta da doença que liquidaria com a vida de Freddie. O filme trata de ser o mais verossímil possível, detalhando fatos da vida íntima de Freddie, sua solidão e insatisfação com o ser que sempre esteve preso dentro de si. E que com a banda ele conseguia fazer aparecer. Como em “O Médico e o Monstro”, se transformava quando em conjunto com sua família musical. Fora dela? Orgias e abuso de álcool e drogas acompanhado de pessoas as quais apenas interagiam falsamente atrás de alguma vantagem. Nota-se que em raros momentos o ator está sozinho ou sem interação com outros personagens, fato que acaba por ratificar os depoimentos colhidos.

Não se incomode com pessoas batucando nas cadeiras ou ainda batendo com os pés de forma espontânea no chão, tentando por exemplo seguir as batidas de “We Will Rock You”. É praticamente impossível não interagir tanto com o filme, quanto com a banda.

Um daqueles compromissos obrigatórios para quem gosta um pouquinho que seja de boa música.

nov 032018
 

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Visceral é a palavra que descreve bem “Nasce Uma Estrela”.

Apesar de ser um remake, o filme estrelado por Bradley Cooper e Lady Gaga avassala corações e os mais sensíveis neste “quase” drama musical. Ainda que olhos estivessem atentos e bocas ficassem tortas antes da estréia, nas primeiras cenas temos crédito o suficiente para entender que teremos um filme inesquecível sentimentalmente.

O famoso cantor e músico Jackson Maine (Cooper) encontra sem querer uma parceira para sua longa e sólida carreira, tanto musical quanto de vida. Sua nova musa Ally (Gaga) entende que essa é sua chance de sair do anonimato. Juntos a trilha do casal é problemática uma vez que ele possue sérios problemas com o álcool e que acabam comprometendo tanto carreiras, quanto vidas.

Logo nas primeiras cenas temos Ally com uma interpretação própria de “La Vie En Rose” da diva Edith Piaf em uma boate burlesca. Há dúvidas quanto a sua versão do clássico, mas não há dúvidas quanto ao talento de Lady Gaga como cantora. Sua versão atriz é boa, mas não verossímil e deixa escapar que é esforçada, mas não performática o suficiente para um papel tão intenso. A primeira opção para o papel seria de Beyoncé, que não conseguiu assumir o papel em prol de outros compromissos.

Em contrapartida Bradley Cooper é a cara da verdade. Um papel duro e com uma amargura profunda e sofrida que se consegue sentir nos primeiros momentos e também na voz embargada do ator (que canta todas as músicas). Nas vésperas da estréia do filme o ator falou publicamente de sua drogadição e alcoolismo anos atrás, vivenciando novamente a experiência e que o personagem acabara por se tornar seu alter ego.

A magia funciona não como um casal, mas sim quando entram em cena para colocarem seus prodígios frente aos microfones e ao público. Prepare-se para um oceano de lágrimas e a emotividade a flor da pele. Gaga e Cooper arrancam sorrisos e um choro compulsivo de forma tão fácil quanto quanto se dedilha um teclado escrevendo este texto.

Não há como não sem se emocionar.
E vale cada olhar marejado.

 

 

out 212018
 

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O filme “First Reformed” ou traduzido no Brasil para “No Coração da Escuridão” é uma grande e bela incógnita. Nos colocada em forma de película, a dubiedade do mundo atual e suas questões mais simples levando a acreditar que o mais complexo pode ser entendido mas que ao mesmo tempo não conseguem trazer respostas imediatas. Ou consegue? Sim. Ficamos entre a fé nos homens e nas entidades religiosas, da cultura da não agressão aos atentados sangrentos e bem elaborados, entre crer e subverter, duvidar e se entregar aos vários dogmas da sociedade.

Ex-capelão e militar (Ethan Hawke), tenta ministrar o luto pela morte do filho e silenciosamente questiona a fé em de todas suas crenças e coloca em xeque sua relação as novas situações apresentadas e os fiéis que o cercam. Atormentado e em dúvida quanto a seus próprios demônios (incluindo uma separação recente) ainda passa pela provocação de um casal de jovens que estão próximos de ter um bebê e que não tem certeza se seu filho terá um lugar no mundo.

Entre os grandes cineastas de sua geração, Paul Schraeder é especialista em questões sociais e em colocar em perigo a ética e a própria credibilidade do público. Conhecido por ter escrito os roteiros clássicos de “Taxi Driver”, “A Última Tentação de Cristo” e “Touro indomável” faz sempre dos diálogos a maior expressão de suas obras. Instigantes e inusitados, as conversações e embates ideológicos deixam o público inquieto. Aqui não é diferente, porém com a câmera na mão ele consegue extrair ainda mais de seus personagens mostrando a amargura da perda, a consciência da dúvida e a certeza de uma parcialidade que, ao mesmo tempo redentora, não pode ser mostrada a olhos vistos para não ser julgado. A questão religiosa e moral é frequentemente colocada em discussão levando a exaustão e a um final derradeiro para os protagonistas.

Em tempos de intolerância política e redes sociais, acaba se tornando um filme de necessária reflexão.

set 182018
 

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A cada ano que passa fica mais difícil encontrar surpresas no cinema. Ou melhor, encontrar surpresas positivas e que venham a adicionar o grande número de produções que empolgam o espectador que está já entediado de mais do mesmo. Eis que no fim do túnel surge a luz de “Upgrade“: que não inova, mas renova.

A trama nos mostra um futuro (bem) próximo, onde a força da tecnologia controla a tudo e a todos, desde carros guiados por robôs, policiamento feito por drones até alimentação feita por impressoras 3D. Neste ambiente o mecânico de automóveis Gray (avesso a tecnologia), tem seu mundo virado de cabeça para baixo, e talvez a sua sua única esperança tenha refúgio justamente na tecnologia, que poderá lhe proporcionar a chance de um retorno triunfal.

É um filme de fácil compreensão e difícil comentar sem apresentar spoilers, pois quase todas as ações mais inusitadas acontecem na primeira meia hora do longa fazendo com que o público fique ligado e intrigado até o final. O clima futurístico e soturno apresentado pelo diretor Leigh Whannell cria um ambiente inóspito e robótico transmitindo que assim também será nosso futuro (tanto quanto o de cada personagem). Não muito diferente de “Jogos Mortais”, seu primeiro e estrondoso sucesso como roteirista que faz novamente a parceria com o agora produtor James Wan.

O ator Logan Marshall-Green é uma grata surpresa ao longo do filme. Sua transformação a cada cena (que é muito necessário) faz com que surpreenda a cada quadro, que se torna ainda mais interessante devido às ironias e provocações do roteiro. Já uma das cenas de luta inesperada em uma cozinha e que dura pouco mais de um minuto pode ser considerada um dos pontos mais altos. Sua reação pode ser tão inusitada quanto a própria sequência. O ator já é conhecido por suas atuações como coadjuvante em filmes como “Prometheus” (2018) e “Homem-Aranha: De Volta Ao Lar” (2017).

Uma pena que um dos filmes mais surpreendentes do ano não tenha entrado nas telonas do circuito comercial brasileiro (como muitos outros) e nem nos serviços de streamming por assinatura. Vale a busca. E muito.

ago 212018
 

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Quais ações sofridas na infância de uma pessoa pode ter reflexos diretos em sua vida adulta? Todas. Desde a formação de personalidade, escolhas profissionais, dependência química, dentre outras tantas sequelas que talvez ainda hoje não possamos dimensionar. Esse é o tema central de “Patrick Melrose” – seriado inglês em cinco episódios interpretado por Benedict Cumberbatch.

A trama nos apresenta o playboy da alta casta inglesa que deve ir buscar o corpo de seu pai recém falecido em Nova York. Pai que abusava sexualmente dele quando criança – fato que era tolerado pela mãe dentro da própria casa. Estas informações vão sendo introduzidas sutilmente e de forma homeopática em um primeiro momento, fazendo com que a rotina do protagonista seja entendida e suas atitudes sufoquem pouco a pouco o espectador. A empatia é imediata.

O romance auto-biográfico é quase uma sátira e um espelho da falida aristocracia inglesa. Com suas pomposas festas onde muitos falam de todos e nem todos conhecem exatamente o que falam. Mas falam. O circuito social de Patrick é um tortuoso caminho o qual deve ser tratado e enfrentado quase como uma solução para seus problemas com a alta drogadição: usada quase sempre como fuga de suas terríveis lembranças infantis. O que para muitos deveria ser um local de evasão e êxodo, para Patrick funciona como uma redenção conseguir sobreviver em meio ao caos. Entender e compreender este caos pode ser redentor.

O elenco escolhido a dedo é fantástico: o afetado e desajeitado Benedict Cumberbatch ( de “O Jogo da Imitação) faz um Patrick ora extremamente engraçado com trejeitos típicos, ora trazendo a melancolia e tristeza fruto do abuso de drogas como heroína e cocaína. Os pais interpretados por Hugo Weaving e Jennifer Jason Leigh são tão fortes que chegam a engasgar a cada fala. Isso fora o grande elenco que se esforça para trazer o que há de melhor a cada interpretação.

O roteiro bem cuidado para não parecer pedante nem monótono, aliado a uma impecável direção de arte juntamente com a excelente fotografia fazem cinco episódios parecerem muito pouco, podendo até estender a saga do personagem para outras desventuras. Vale a pena buscar e se emocionar com as histórias. Conseguir trazer para nosso cotidiano as observações do personagem principal não apenas com o ódio nem ressentimento, mas também a busca dentro de si mesmo por algo melhor.

jun 122018
 

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A primeira coisa que chama atenção neste filme sem dúvidas é a foto de Jim Carrey estampada na capa como uma isca perfeita aos desavisados. O ator ficou marcado por suas excelentes atuações em comédias e filmes pastelão, porém nunca quis ser rotulado desta forma, tentando por diversas vezes quebrar este paradigma interpretando dramas e agora um thriller de suspense. No caso de “Dark Crimes” ele consegue. De novo.

O policial Tadek (Carrey) investiga o assassinato de um empresário. Para surpresa de todos, o caso é comentado letra por letra em um livro escrito por Kozlow, renomado escritor. De acordo com o andamento das investigações mais informações vão surgindo fazendo com que a trama se torne mais sombria.

Gravado na Cracóvia (Polônia) o filme tem um tom acinzentado e sombrio demonstrando que direção de arte fez seu trabalho de forma correta ilustrando as atitudes de seus personagens. Porém somente este quesito funciona bem. Com uma trama bastante interessante, o roteiro consegue estragar a ideia inicial de um romance “noir” em que os confusos diálogos entre os personagens não parecem reais. Os personagens não possuem início nem meio, uma vez que entram e saem da tela com tanta facilidade que se tornam coadjuvantes da paisagem e da tentativa de uma boa direção.A direção que por sua vez começa bem montando um cenário que lembra muito as cenas de “8 Milímetros” de Joel Schumacher. Vai se esgueirando deixando referências de vários diretores, em especial nas cenas mais arrastadas em que Tarkovski é nitidamente citado. Mas em certos momentos parece que tudo é esquecido e voltamos a um espelho tacanho de filmes feitos por obrigação, como quem tivesse que entregar um trabalho a contra-gosto e deixa o espectador (que iniciou com a mente fervendo) com uma imagem morna e sem vontade. Tudo se deve também ao reflexo dos erros de (pós) produção e na demora de dois anos no lançamento da obra, que deveria ter chegado às telas em 2016.

Por incrível que possa parecer o grande destaque de “Dark Crimes” é justamente a atuação de Jim Carrey que se mostra firme e seguro conseguindo passar ao público seu esforço e capacidade. Uma pena que desta vez tenha sido engolido pelos erros de outros setores, que acabam por comprometer todo o contexto por mais interessante que possa parecer.