ago 072020
 
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Baseado em fatos reais, “Fuga de Pretória” é mais um daqueles muito tensos e pouco emocionantes filmes de prisão e escape. O tema já e bem batido no cinema desde sempre, mas ainda assim se espera algo que venha a agregar a história. Ainda mais baseando-se em fatos reais e trazendo um elenco de respeito e cuidadosamente escolhido com Daniel Radcliffe (o eterno H.Potter), o versátil Daniel Webber e atores secundários (mas não menos importantes) como Ian Hart e Mark Leonard Winter. O tema de fundo e mote inicial da película vem com a luta incessante contra o “Apartheid“: regime de segregação racial implantado na África do Sul em 1948, motivo pelo qual os protagonistas lutaram até serem presos e julgados.

A caracterização de época é bastante impressionante e faz realmente colocar o espectador frente as mazelas da época cruel (e até pouco tempo) aceitável não só na África mas em grande parte do mundo, da radicalização e racismo explícitos. A luta do ANC (grupo de Nelson Mandela) contra os estragos causados pela estupidez humana são mostrados de forma bastante rápida, mas não menos contundente, fazendo com que a parte mais claustrofóbica e interessante fique com a concretização do plano de fuga. A idealização e a parte histórica de luta e contra opressão foram pouco citados deixando a ação e o suspense sobressaírem-se perante o drama proposto inicialmente. O roteiro é bastante eloquente na apresentação de personagens e fazendo o público entender suas motivações para os atos terroristas, porém apenas a apresentação e não o viés ideológico acabam por não completar aquilo que talvez se busque em um filme de drama (ainda que esteja classificado como “thriller“). Cinematograficamente existe pouco a acrescentar, ainda que os curtos planos-sequência e closes tenham bastante êxito naquilo que se propõe. Alguns “takes” mais significativos, como câmera girando nos sentidos das chaves em portas de cela ou ainda fechaduras sendo expostas internamente, fazem uma pequena diferença no todo mas não tem uma valorização suficiente para destaque no todo.

Então “Fuga de Pretória” acaba cumprindo o que se propõe, mostrando a batida em retirada e a maneira a qual ela se dá na prisão africana. Quem espera (ou compra) a ideia de uma película com uma história mais engajada politicamente ou trazendo historicidade aos fatos acaba enganando-se. Busque um filme de ação ou suspense quando assistir tendo assim uma diversão e um entretenimento que valem a pena em pouco mais de uma hora e meia de cinema.

abr 202020
 
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Nessas férias forçadas em casa ou isolamento social (necessário) como muitos pregam, acabamos tentando que buscar aquilo que nos agrada e que nos faça momentaneamente felizes: seja realizando pequenos desejos pessoais dando atenção aos demais entes na casa, ou ainda ajustando alguns ponteiros que ficam para outra hora no correr dos dias em que normalmente não se consegue agir. O cinema/filme acaba sendo uma saída bastante democrática, cultural e inteligível. Alguns deles especialmente me chamaram a atenção. E “Swallow” foi um deles.

Na trama, Hunter (Haley Bennett) é uma jovem recém casada e que ainda se sente perdida dentro de sua nova vida. Vinda de origem humilde e visivelmente desconfortável dentro da imensa nova casa, acaba encontrando na necessidade de engolir objetos estranhos e buscando nisso um perigoso alívio. Cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos, ela acaba tendo que enfrentar sua nova família opressora e também seus próprios medos e agruras.

Filme inicialmente classificado como terror, acaba por não se traduzir a isso mas sim a um sufocante drama psicológico onde tentamos de forma involuntária ajudar a protagonista a entender sua obsessão. Não é fácil de assistir cenas tão fortes que acabam por incomodar o espectador, principalmente por contrastarem tanto com os cenários límpidos e exuberantes. Aos poucos vamos notando que as mudanças que Hunter tenta fazer em seu ambiente, não resultam em sua mudança de vida e seus hábitos ainda persistem. Tecnicamente as mudanças de cenário vão acontecendo gradualmente e mudando de cor a cada momento em que a vida de Hunter também vai se extinguindo perante sua falta de capacidade, onde ainda não entendemos a que leva a personagem aos estranhos fatos e movimentos. Aos observadores mais atentos não apenas o cenário, mas a postura da atriz, suas vestimentas, forma de falar e agir vão também sofrendo essa transformação.

A libertação (se realmente é possível) acaba se fazendo quando os monstros são confrontados fora de seu habitat natural, bem como um animal descoberto tendo de ir em busca de uma sobrevivência, porém ainda com o grande peso da vida em suas costas. O filme é muito mais que uma simples observação de um cotidiano de sofrimentos internos, mas também a sensibilidade da obra em conseguir fazer entender a cada momento da película as nuances, sem que a tragédia ou o grotesco se façam perceber, mudando o contexto do que realmente se quer mostrar ali.

Bem como a vida é, “Swallow” faz com que em algum momento consigamos nos identificar. Seja na angústia de não conseguir sair de determinada situação visto que somente atitudes não são suficientes para dobrar a mente e fazer com que sua visão de mundo e percepção mude, seja ainda na tentativa de tratar diferentemente tudo ao nosso redor fazendo com que o mundo seja mais confortável ao nosso desespero. A ânsia de “devorar” pequenos objetos (ou engolir pequenos “sapos”) diariamente pode fazer com que a vida se torne amarga, mas em algum momento o “gosto” vai ser diferente, ou perder-se completamente.

Não é um filme fácil de engolir. Literalmente.

fev 102020
 
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A grande surpresa em relação aos concorrentes a estatueta de ouro é o filme de guerra “1917” – que estreou comercialmente no Brasil somente em 23 de janeiro – e que estava escondido entre os demais até o último momento. Um marketing de efeito e que acabou por permear a curiosidade daqueles que gostam de cinema. Na direção temos Sam Mendes (de Beleza Americana) e um elenco de estrelas que vai aparecendo ao longo da película. Mas o que se apresenta nas telas realmente vale a pena? A pergunta acabou dividindo admiradores do gênero e também amantes da sétima arte.

Durante a primeira grande guerra, dois soldados britânicos são incumbidos de uma tarefa quase impossível: entregar uma mensagem a outra guarnição muito distante evitando um massacre em massa, atravessando o território inimigo. A corrida contra o tempo tem ainda mais um agravante: o irmão de um deles ainda está entre os soldados em perigo.

O diretor Sam Mendes se utilizou de dois grandes trunfos: a história é baseada em fatos reais contados por seu avô, que participou das batalhas e provavelmente viveu “in loco” parte delas. Detalhes de sobrevivência e percalços durante a jornada são detalhados a cada momento com muita ênfase na parte humana dos então dois protagonistas. Mas até onde há protagonistas em uma guerra? Outra cartada certeira foi o uso do “plano sequencia “ – técnica de difícil execução onde não existem cortes na cena e a câmera acompanha os personagens e/ou a história de maneira ininterrupta – que faz com que o trajeto dos soldados seja mais valioso e o trabalho da equipe técnica supervalorizada (com razão), uma vez que tudo e todos devem ter atenção redobrada. Apesar de todo mérito, o uso do plano não é nenhuma novidade: Alfred Hitchcock inaugurou a ideia em “Festim Diabólico”, e mais recentemente o vencedor do Oscar com “Birdman” também o fez de forma fantástica. Mais maldosos dirão que até nos seriados dos japoneses “Flashman” isso nunca fora uma novidade – em suas devidas proporções, obviamente.

O grande acerto e digno de aplausos está a direção de fotografia: uma aula de cinema nos ensinada por Roger Deskins (de Blade Runner 2049). Deixado livre pela direção para criar e extravasar ele consegue transformar as cenas mais simples em verdadeiros meteoros fumegantes dando um espetáculo a parte e vivendo a real grandiosidade de cada passagem. A mão do diretor de fotografia se torna pesada nos últimos quarenta minutos onde todos os sentimentos são traduzidos em cores e visões quase estroboscópicas. Pode apostar uma estatueta certa para este quesito.

Mas até onde vai a grandiosidade de “1917”? Dalton Trumbo já teria perguntado em seu livro “Johnny Vai a Guerra” se algum soldado se orgulha de ter morrido por seu país. A resposta certa é que nenhum deles voltou para contar. Outros clássicos do gênero sempre trazem questões contundentes como em “Platoon”, com os horrores traduzidos por Oliver Stone, ou ainda em “Apocalipse Now”, de Francis Ford Copolla no final derradeiro do astro Marlon Brando. Sem falar de outros inúmeros (Nascido Para Matar, Atrás das Linhas Inimigas, Círculo de Fogo, etc…). Ainda podemos citar o recente “Jojo Rabbit” – que consegue encontrar graça e fazer piada com o holocausto nazista (sim, é possível) e encontrar uma moral a ser questionada.

Fato é que “1917” se apresenta vazio e sem objetivos, onde o heroísmo e a técnica apenas se apresentam como grandes noções de megalomania. É uma grande obra sem dúvida alguma. Mas fatalmente fadada ao esquecimento logo logo, justamente por não conseguir trazer tudo aquilo que uma guerra realmente pode nos mostrar e/ou ensinar.

jan 032020
 
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Um dos mais esperados filmes do ano, “O Farol” chegou firme em suas convicções e expectativas conseguindo arrancar suspiros dos cinéfilos mais enraizados, deixar perplexos os encantadores de críticos, porém fazendo o público médio ficar em dúvidas quanto ao drama/terror feito por Robert Eggers.

A trama se passa em meados de 1890, onde dois faroleiros são responsáveis pela manutenção de uma pequena ilha, que serve de referência para diversas embarcações que por ali cruzam. Porém a relação entre Thomas e Winslow ao longo dos dias e das horas vai ficando cada vez mais estreita, caótica e sem um rumo certo.

O primor de tratamento da película é notado logo no início onde o preto e branco são contrastados a exaustão e já trazendo o clima soturno que guiaria tudo (e a todos). O grande trunfo da direção está em resgatar/utilizar grandes referências cinematográficas de outrora desde a tristeza do cinema alemão, passando pela apatia do sueco Ingmar Bergman e até a crueza das telas russas de Eisentein e Tarkovski.

Já os diálogos tentam buscar a mesma eficiência “noir” mas acabam sucumbindo talvez na falta de ousadia, que também custa a aparecer nos personagens, fazendo-se valer mais em gestos os dilemas existenciais e questões antropológicas. Porém o isolamento social destes dois únicos personagens do filme é o grande mote para tudo: duas peças únicas em um tabuleiro sufocante e que lutam o tempo inteiro pela sua sobrevivência mental. Tudo é mostrado as claras, mas nada existe de certeza: os jogos de luz e sombra fazem o tempo inteiro o espectador duvidar do que realmente está acontecendo. Nesse caso é bom salientar que a sintonia Dafoe/Patison até mesmo nesse ponto consegue ser perfeita: tanto o estranhamento e embates quanto a parceria e cumplicidade dos faroleiros é percebida de forma constante e de certa forma até enjoativa. As vezes a assimetria é o melhor caminho (refutada aqui solenemente).

A grande crítica especializada enalteceu “O Farol” – dez entre dez textos sobre a obra falam de “obra-prima” a “espetáculo visceral”. Não se tira o mérito da técnica completa, complexa e impecável, inclusive com favoritismos na questão “Oscar” neste ano. Porém acredito que de todo espetáculo, de toda magia e de todo respeito oferecido as telas em homenagem também intrínseca a grandes mestres, talvez o maior deles tenha sido deixado um tanto de lado: o espectador comum, que busca seu entretenimento em detrimento de uma história não menos complexa, porém mais palpável e palatável. Talvez um pouco mais de objetividade e assertividade fizessem o alcance de “O Farol” despontar como sucesso não só de critica, mas também de público.

dez 262019
 
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Em mais uma daquelas zapeadas nas redes de streaming, a Amazon trouxe “A Maratona de Brittany” – o que parecia uma daquelas despretensiosas comedias românticas que iniciam e acabam sem ter um sentido maior, surpreende ao longo de quase duas horas ao alcançar públicos de diversas faixas etárias, diferentes etnias, público de grandes “minorias” sem atingir diretamente. Equilibrado: “pero no mucho”.

Brittany é uma mulher de quase trinta anos. O reflexo daquilo que vê no espelho e em suas consequências não a agradam. Ainda mais quando a questão financeira vem mostrando os dentes já a algum tempo, e resolve morder justamente na hora errada. Mas nada vem sozinho. Literalmente “Brit” resolve colocar um tênis e correr a seu favor e contra o tempo perdido.

Tecnicamente não temos muitas novidades além das boas tentativas: a direção de arte capricha nas cores exageradas quando se trata da vida pessoal da personagem, volta e meio contrastando com o asfalto negro e o céu cinza que precisa trilhar até conquistar seus objetivos. A medida que o filme vai a avançando, as vestes de Britney vão ganhando contexto e se encaixando em novas realidades. O roteiro também não é de um primor, mas acaba buscando a essência e o objetivo inicial da obra: diálogos ácidos e humores acelerados em busca de um acerto fulminante, mas também assim como os detalhes visuais vai fluindo e torna-se tão importante quanto o próprio mote inicial.

A escolha do elenco e dos personagens é um acerto em meio ao politicamente correto tão preterido atualmente. Inicialmente seus melhores amigos são um casal blindado pelos “likes” de redes sociais – com uma futilidade que não deixa de ter. Ao longo de uma hora de filme, uma vizinha divorciada, um casal de amigos gays e um descendente indiano em uma plena e heterogênea Nova York acabam por fazer toda a diferença no contexto. Afinal, como loira de olhos azuis aparentemente dona de si e completamente autônoma pode ser ajudada por personagens tão específicos como estes? Pode se fazer aí uma leitura também bastante política em se tratando de economia mundial.

No fim das contas “A Maratona de Britney” não é apenas uma comédia e nem tanto se trata de uma mulher acima do peso buscando a redenção através do esporte, mas sim de uma corrida em busca da auto-estima, do amor próprio e de conseguir perceber que estamos sempre correndo. Nem sempre para vencer uma corrida ou ultrapassar obstáculos, mas também para entender que estamos lado a lado, em conjunto ou equipes, e na maioria das vezes com aqueles que querem nos proporcionar mais do que um simples trajeto, mas também uma odisseia através de nós mesmos.

mar 142019
 
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Em meio a tantos filmes de ação e combate, entre Marvel e DC disputando beleza para ver quem mais dispara socos e chutes por segundo, surge um oásis. Literalmente uma ilha chamada Plymouth que se encontra em algum lugar no Caribe. Lá figurinhas carimbadas de um bom filme como Matthew McConaughey e Anne Hathaway se encontram para tirar o espectador do sério com tamanha “Calmaria”: suspense dirigido por Steven Knight, e que surpreende a cada minuto.Nem tudo são flores, mas que há de falarmos nelas, isso é certo.

O capitão de um barco de pesca Baker Dill, vive recluso em uma pequena e remota ilha do Caribe. Tudo está dentro de uma certa normalidade até que sua ex-mulher o encontra, falando que é abusada e torturada frequentemente po seu atual marido e que o convívio também com seu filho é insuportável. Então sua vida se transforma em definitivo: ele recebe uma proposta milionária para matar o abusivo conjuge em um passeio em alto mar.

A quantidade de metáforas e de tiradas visuais parece não acabar e em um primeiro momento é sensível que existe uma mão diferente atrás da câmera, com movimentos exatos e já tentando dizer a que veio, longe dos clichês mais certos dos últimos anos. Até porque trabalhar com dois oscarizados em ambientes onde a locação possui espaços restritos (um barco de pesca) não é nada fácil.

Não perder o rumo em um roteiro bem montado até parece uma experiência sem percalços, mas manter o público interessado até o fim e manter a tensão e os segredos até o final.. essa é a tarefa difícil. Knight não consegue. Mas ainda assim a trama faz todo o sentido e entrega-se até um pouco mais que o prometido. O elenco de apoio ainda traz Djimon Houson e Diane Lane como coadjuvantes de luxo

Ainda que tenha sido destroçado e escangalhado pela crítica especializada e minorizado pelo seu elenco ser maior do que a própria obra, um ponto de interrogação é colocado de tempos em tempos na tela, questionando uma estranheza que se revela aos poucos.

De qualquer forma, “Calmaria” é uma grata surpresa para quem vai apenas assistir um filme e sai com a impressão de que tem um pouco mais para ser visto e apreciado em um cinema. Que um filme ainda pode surpreender, pode tocar, pode angustiar, ou pode simplesmente fazer com que o deleite de estar em uma sala escura apreciando arte.

nov 032018
 

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O ano é 1985. “Live Aid”. Shows ao vivo acontecendo simultaneamente em vários países diferentes. E qual é o único show que durou pouco mais de vinte minutos, em que se lembra perfeitamente? Certamente é o show do “Queen”. Indo neste caminho e partindo da premissa da eternização dessa passagem meteórica, “Bohemian Rhapsody” já pode ser considerado um clássico.

O filme conta a trajetória de Freddie Mercury e sua banda desde o início das primeiras incursões no meio musical até o final apoteótico no templo de Wembley. Com uma direção já conhecida e segura de Bryan Singer (X-Men) conseguimos facilmente encontrar o frontman em Ramy Malek (ator já conhecido e premiado pelo seriado “Mr. Robot”). Ainda que não tenha sido o primeiro ator escolhido para interpretar o vocalista da banda, o ator está simplesmente genial e certamente será lembrado pelos trejeitos estudados e perfeitamente coreografados para alcançar uma performance parecida com o ícone da música pop. Não será nenhuma surpresa se for agraciado com a estatueta.

Baseado em relatos verídicos “Bohemian Rhapsody” busca a essência musical na formação do “Queen” até seu apogeu e término com a descoberta da doença que liquidaria com a vida de Freddie. O filme trata de ser o mais verossímil possível, detalhando fatos da vida íntima de Freddie, sua solidão e insatisfação com o ser que sempre esteve preso dentro de si. E que com a banda ele conseguia fazer aparecer. Como em “O Médico e o Monstro”, se transformava quando em conjunto com sua família musical. Fora dela? Orgias e abuso de álcool e drogas acompanhado de pessoas as quais apenas interagiam falsamente atrás de alguma vantagem. Nota-se que em raros momentos o ator está sozinho ou sem interação com outros personagens, fato que acaba por ratificar os depoimentos colhidos.

Não se incomode com pessoas batucando nas cadeiras ou ainda batendo com os pés de forma espontânea no chão, tentando por exemplo seguir as batidas de “We Will Rock You”. É praticamente impossível não interagir tanto com o filme, quanto com a banda.

Um daqueles compromissos obrigatórios para quem gosta um pouquinho que seja de boa música.

nov 032018
 

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Visceral é a palavra que descreve bem “Nasce Uma Estrela”.

Apesar de ser um remake, o filme estrelado por Bradley Cooper e Lady Gaga avassala corações e os mais sensíveis neste “quase” drama musical. Ainda que olhos estivessem atentos e bocas ficassem tortas antes da estréia, nas primeiras cenas temos crédito o suficiente para entender que teremos um filme inesquecível sentimentalmente.

O famoso cantor e músico Jackson Maine (Cooper) encontra sem querer uma parceira para sua longa e sólida carreira, tanto musical quanto de vida. Sua nova musa Ally (Gaga) entende que essa é sua chance de sair do anonimato. Juntos a trilha do casal é problemática uma vez que ele possue sérios problemas com o álcool e que acabam comprometendo tanto carreiras, quanto vidas.

Logo nas primeiras cenas temos Ally com uma interpretação própria de “La Vie En Rose” da diva Edith Piaf em uma boate burlesca. Há dúvidas quanto a sua versão do clássico, mas não há dúvidas quanto ao talento de Lady Gaga como cantora. Sua versão atriz é boa, mas não verossímil e deixa escapar que é esforçada, mas não performática o suficiente para um papel tão intenso. A primeira opção para o papel seria de Beyoncé, que não conseguiu assumir o papel em prol de outros compromissos.

Em contrapartida Bradley Cooper é a cara da verdade. Um papel duro e com uma amargura profunda e sofrida que se consegue sentir nos primeiros momentos e também na voz embargada do ator (que canta todas as músicas). Nas vésperas da estréia do filme o ator falou publicamente de sua drogadição e alcoolismo anos atrás, vivenciando novamente a experiência e que o personagem acabara por se tornar seu alter ego.

A magia funciona não como um casal, mas sim quando entram em cena para colocarem seus prodígios frente aos microfones e ao público. Prepare-se para um oceano de lágrimas e a emotividade a flor da pele. Gaga e Cooper arrancam sorrisos e um choro compulsivo de forma tão fácil quanto quanto se dedilha um teclado escrevendo este texto.

Não há como não sem se emocionar.
E vale cada olhar marejado.

 

 

out 212018
 

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O filme “First Reformed” ou traduzido no Brasil para “No Coração da Escuridão” é uma grande e bela incógnita. Nos colocada em forma de película, a dubiedade do mundo atual e suas questões mais simples levando a acreditar que o mais complexo pode ser entendido mas que ao mesmo tempo não conseguem trazer respostas imediatas. Ou consegue? Sim. Ficamos entre a fé nos homens e nas entidades religiosas, da cultura da não agressão aos atentados sangrentos e bem elaborados, entre crer e subverter, duvidar e se entregar aos vários dogmas da sociedade.

Ex-capelão e militar (Ethan Hawke), tenta ministrar o luto pela morte do filho e silenciosamente questiona a fé em de todas suas crenças e coloca em xeque sua relação as novas situações apresentadas e os fiéis que o cercam. Atormentado e em dúvida quanto a seus próprios demônios (incluindo uma separação recente) ainda passa pela provocação de um casal de jovens que estão próximos de ter um bebê e que não tem certeza se seu filho terá um lugar no mundo.

Entre os grandes cineastas de sua geração, Paul Schraeder é especialista em questões sociais e em colocar em perigo a ética e a própria credibilidade do público. Conhecido por ter escrito os roteiros clássicos de “Taxi Driver”, “A Última Tentação de Cristo” e “Touro indomável” faz sempre dos diálogos a maior expressão de suas obras. Instigantes e inusitados, as conversações e embates ideológicos deixam o público inquieto. Aqui não é diferente, porém com a câmera na mão ele consegue extrair ainda mais de seus personagens mostrando a amargura da perda, a consciência da dúvida e a certeza de uma parcialidade que, ao mesmo tempo redentora, não pode ser mostrada a olhos vistos para não ser julgado. A questão religiosa e moral é frequentemente colocada em discussão levando a exaustão e a um final derradeiro para os protagonistas.

Em tempos de intolerância política e redes sociais, acaba se tornando um filme de necessária reflexão.

set 182018
 

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A cada ano que passa fica mais difícil encontrar surpresas no cinema. Ou melhor, encontrar surpresas positivas e que venham a adicionar o grande número de produções que empolgam o espectador que está já entediado de mais do mesmo. Eis que no fim do túnel surge a luz de “Upgrade“: que não inova, mas renova.

A trama nos mostra um futuro (bem) próximo, onde a força da tecnologia controla a tudo e a todos, desde carros guiados por robôs, policiamento feito por drones até alimentação feita por impressoras 3D. Neste ambiente o mecânico de automóveis Gray (avesso a tecnologia), tem seu mundo virado de cabeça para baixo, e talvez a sua sua única esperança tenha refúgio justamente na tecnologia, que poderá lhe proporcionar a chance de um retorno triunfal.

É um filme de fácil compreensão e difícil comentar sem apresentar spoilers, pois quase todas as ações mais inusitadas acontecem na primeira meia hora do longa fazendo com que o público fique ligado e intrigado até o final. O clima futurístico e soturno apresentado pelo diretor Leigh Whannell cria um ambiente inóspito e robótico transmitindo que assim também será nosso futuro (tanto quanto o de cada personagem). Não muito diferente de “Jogos Mortais”, seu primeiro e estrondoso sucesso como roteirista que faz novamente a parceria com o agora produtor James Wan.

O ator Logan Marshall-Green é uma grata surpresa ao longo do filme. Sua transformação a cada cena (que é muito necessário) faz com que surpreenda a cada quadro, que se torna ainda mais interessante devido às ironias e provocações do roteiro. Já uma das cenas de luta inesperada em uma cozinha e que dura pouco mais de um minuto pode ser considerada um dos pontos mais altos. Sua reação pode ser tão inusitada quanto a própria sequência. O ator já é conhecido por suas atuações como coadjuvante em filmes como “Prometheus” (2018) e “Homem-Aranha: De Volta Ao Lar” (2017).

Uma pena que um dos filmes mais surpreendentes do ano não tenha entrado nas telonas do circuito comercial brasileiro (como muitos outros) e nem nos serviços de streamming por assinatura. Vale a busca. E muito.