abr 202020
 
Author Rating / Nota do Autor:

Nessas férias forçadas em casa ou isolamento social (necessário) como muitos pregam, acabamos tentando que buscar aquilo que nos agrada e que nos faça momentaneamente felizes: seja realizando pequenos desejos pessoais dando atenção aos demais entes na casa, ou ainda ajustando alguns ponteiros que ficam para outra hora no correr dos dias em que normalmente não se consegue agir. O cinema/filme acaba sendo uma saída bastante democrática, cultural e inteligível. Alguns deles especialmente me chamaram a atenção. E “Swallow” foi um deles.

Na trama, Hunter (Haley Bennett) é uma jovem recém casada e que ainda se sente perdida dentro de sua nova vida. Vinda de origem humilde e visivelmente desconfortável dentro da imensa nova casa, acaba encontrando na necessidade de engolir objetos estranhos e buscando nisso um perigoso alívio. Cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos, ela acaba tendo que enfrentar sua nova família opressora e também seus próprios medos e agruras.

Filme inicialmente classificado como terror, acaba por não se traduzir a isso mas sim a um sufocante drama psicológico onde tentamos de forma involuntária ajudar a protagonista a entender sua obsessão. Não é fácil de assistir cenas tão fortes que acabam por incomodar o espectador, principalmente por contrastarem tanto com os cenários límpidos e exuberantes. Aos poucos vamos notando que as mudanças que Hunter tenta fazer em seu ambiente, não resultam em sua mudança de vida e seus hábitos ainda persistem. Tecnicamente as mudanças de cenário vão acontecendo gradualmente e mudando de cor a cada momento em que a vida de Hunter também vai se extinguindo perante sua falta de capacidade, onde ainda não entendemos a que leva a personagem aos estranhos fatos e movimentos. Aos observadores mais atentos não apenas o cenário, mas a postura da atriz, suas vestimentas, forma de falar e agir vão também sofrendo essa transformação.

A libertação (se realmente é possível) acaba se fazendo quando os monstros são confrontados fora de seu habitat natural, bem como um animal descoberto tendo de ir em busca de uma sobrevivência, porém ainda com o grande peso da vida em suas costas. O filme é muito mais que uma simples observação de um cotidiano de sofrimentos internos, mas também a sensibilidade da obra em conseguir fazer entender a cada momento da película as nuances, sem que a tragédia ou o grotesco se façam perceber, mudando o contexto do que realmente se quer mostrar ali.

Bem como a vida é, “Swallow” faz com que em algum momento consigamos nos identificar. Seja na angústia de não conseguir sair de determinada situação visto que somente atitudes não são suficientes para dobrar a mente e fazer com que sua visão de mundo e percepção mude, seja ainda na tentativa de tratar diferentemente tudo ao nosso redor fazendo com que o mundo seja mais confortável ao nosso desespero. A ânsia de “devorar” pequenos objetos (ou engolir pequenos “sapos”) diariamente pode fazer com que a vida se torne amarga, mas em algum momento o “gosto” vai ser diferente, ou perder-se completamente.

Não é um filme fácil de engolir. Literalmente.

jan 032020
 
Author Rating / Nota do Autor:

Um dos mais esperados filmes do ano, “O Farol” chegou firme em suas convicções e expectativas conseguindo arrancar suspiros dos cinéfilos mais enraizados, deixar perplexos os encantadores de críticos, porém fazendo o público médio ficar em dúvidas quanto ao drama/terror feito por Robert Eggers.

A trama se passa em meados de 1890, onde dois faroleiros são responsáveis pela manutenção de uma pequena ilha, que serve de referência para diversas embarcações que por ali cruzam. Porém a relação entre Thomas e Winslow ao longo dos dias e das horas vai ficando cada vez mais estreita, caótica e sem um rumo certo.

O primor de tratamento da película é notado logo no início onde o preto e branco são contrastados a exaustão e já trazendo o clima soturno que guiaria tudo (e a todos). O grande trunfo da direção está em resgatar/utilizar grandes referências cinematográficas de outrora desde a tristeza do cinema alemão, passando pela apatia do sueco Ingmar Bergman e até a crueza das telas russas de Eisentein e Tarkovski.

Já os diálogos tentam buscar a mesma eficiência “noir” mas acabam sucumbindo talvez na falta de ousadia, que também custa a aparecer nos personagens, fazendo-se valer mais em gestos os dilemas existenciais e questões antropológicas. Porém o isolamento social destes dois únicos personagens do filme é o grande mote para tudo: duas peças únicas em um tabuleiro sufocante e que lutam o tempo inteiro pela sua sobrevivência mental. Tudo é mostrado as claras, mas nada existe de certeza: os jogos de luz e sombra fazem o tempo inteiro o espectador duvidar do que realmente está acontecendo. Nesse caso é bom salientar que a sintonia Dafoe/Patison até mesmo nesse ponto consegue ser perfeita: tanto o estranhamento e embates quanto a parceria e cumplicidade dos faroleiros é percebida de forma constante e de certa forma até enjoativa. As vezes a assimetria é o melhor caminho (refutada aqui solenemente).

A grande crítica especializada enalteceu “O Farol” – dez entre dez textos sobre a obra falam de “obra-prima” a “espetáculo visceral”. Não se tira o mérito da técnica completa, complexa e impecável, inclusive com favoritismos na questão “Oscar” neste ano. Porém acredito que de todo espetáculo, de toda magia e de todo respeito oferecido as telas em homenagem também intrínseca a grandes mestres, talvez o maior deles tenha sido deixado um tanto de lado: o espectador comum, que busca seu entretenimento em detrimento de uma história não menos complexa, porém mais palpável e palatável. Talvez um pouco mais de objetividade e assertividade fizessem o alcance de “O Farol” despontar como sucesso não só de critica, mas também de público.

set 182018
 

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A cada ano que passa fica mais difícil encontrar surpresas no cinema. Ou melhor, encontrar surpresas positivas e que venham a adicionar o grande número de produções que empolgam o espectador que está já entediado de mais do mesmo. Eis que no fim do túnel surge a luz de “Upgrade“: que não inova, mas renova.

A trama nos mostra um futuro (bem) próximo, onde a força da tecnologia controla a tudo e a todos, desde carros guiados por robôs, policiamento feito por drones até alimentação feita por impressoras 3D. Neste ambiente o mecânico de automóveis Gray (avesso a tecnologia), tem seu mundo virado de cabeça para baixo, e talvez a sua sua única esperança tenha refúgio justamente na tecnologia, que poderá lhe proporcionar a chance de um retorno triunfal.

É um filme de fácil compreensão e difícil comentar sem apresentar spoilers, pois quase todas as ações mais inusitadas acontecem na primeira meia hora do longa fazendo com que o público fique ligado e intrigado até o final. O clima futurístico e soturno apresentado pelo diretor Leigh Whannell cria um ambiente inóspito e robótico transmitindo que assim também será nosso futuro (tanto quanto o de cada personagem). Não muito diferente de “Jogos Mortais”, seu primeiro e estrondoso sucesso como roteirista que faz novamente a parceria com o agora produtor James Wan.

O ator Logan Marshall-Green é uma grata surpresa ao longo do filme. Sua transformação a cada cena (que é muito necessário) faz com que surpreenda a cada quadro, que se torna ainda mais interessante devido às ironias e provocações do roteiro. Já uma das cenas de luta inesperada em uma cozinha e que dura pouco mais de um minuto pode ser considerada um dos pontos mais altos. Sua reação pode ser tão inusitada quanto a própria sequência. O ator já é conhecido por suas atuações como coadjuvante em filmes como “Prometheus” (2018) e “Homem-Aranha: De Volta Ao Lar” (2017).

Uma pena que um dos filmes mais surpreendentes do ano não tenha entrado nas telonas do circuito comercial brasileiro (como muitos outros) e nem nos serviços de streamming por assinatura. Vale a busca. E muito.

set 232017
 

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Nem tudo na vida é fácil de entender. A cabeça de Darren Aronofski menos ainda. O último rebento “Mãe!” é uma chuva torrencial de informações e de metáforas tão grande e tão poético que muitos odiarão, alguns entenderão e que poucos realmente conseguirão entender o que a arte do diretor conseguiu (não) traduzir em apenas 121 minutos de filme. Não é terror, não é ação nem aventura, mas talvez um drama das próprias vidas, fragmentadas em cortes de cenas bem montadas. Em tempos de censura do MBL, “Mãe!” veio em boa hora.

A história nos apresenta um casal (Lawrence e Bardem) que se muda a pouco para uma antiga casa de campo e que vivem uma aparente pacata vida, até a chegada de um estranho casal que sem serem convidados, vem para quebrar a rotina e fazer balbúrdia e tormentos sem muito sentido para os dois.

Em uma de poucas leituras do filme, a versão de “paraíso” descrita pela protagonista (que não tem nome) é interrompido pela chegada deste então casal (Ed Harris e Michelle Pfiffer) como que para incendiar o relacionamento e apontar os defeitos que até então não existiam ou não eram notados, colocando a primeira grande estrutura do filme a ser abalada. Depois deles nada é lúcido, nada é certo e o espectador fica perdido tentando encontrar uma lógica para os acontecimentos. Não se preocupe, pois até a saída da sala de cinema esta lógica continuará desconexa. Talvez convulsionada para sempre.

Aronofsky, que também escreveu o roteiro de “Mãe!” coloca a caixola do espectador para funcionar: afinal, quem somos!? E realmente somos alguma coisa? Os personagens não possuem nomes, apenas rótulos impostos de acordo com suas vontades e atitudes por outros que não fazem a mínima ideia do que se passa com eles. Expressões de pavor de Jennifer Lawrence traduzem uma ansiedade, tremor, impotência e uma angústia e apreensão por não conseguirem se situar no espaço. E quem disse que temos algum espaço nosso ou que alguma coisa é realmente no nossa? Nem mesmo nossos corpos e mentes são nossos… somos uma transformação constante de pó, barro, virtudes, sangue e lágrimas que brota da terra e certamente será por ela consumido.

Que nossos então filhos não nasceram para serem nossos e sim do mundo. Ao nascermos apenas somos mais uma parte de algo indiscernível e de pouca compreensão como o próprio filme. O diretor tenta em cenas mais lúcidas trazer um pouco de alento a história que parece tão estapafúrdia, mas que na verdade consegue com zilhares de metáforas fazer mais adiante, e com frases que parecem soltas (só que não), fazer com que entendamos a grande experiência que ele tenta nos proporcionar.

Javier Bardem, um dos maiores atores de nossa atualidade, parece ter sido escolhido a dedo para representar um eixo central de sanidade travestida de egoísmo, que se mostra a cada cena mais entendedor do universo em que se encontra. Mas ainda assim toda sua vã sabedoria é quase nula, uma vez que não se consegue enxergar o próximo que lhe ama. Amor este que deve ser valorizado sem entender ou mesmo exigir que seja retribuído de qualquer forma. Um misto de euforia e egocentrismo que pode ser quebrado facilmente com a pronúncia de uma mera (e nada mera) paravra de três letras. Palavra que ao mesmo tempo pode ter conforto e ser o próprio inferno quando vista de outra forma: dores do parto, cuidados por uma nova vida  que não sabe cuidar de si mesmo como todos os outros animais nascidos desta mesma terra. Difícil! Quase impossível.

Mais uma vez digo que “Mãe!” é arte pura e em todos os sentidos. Ainda diante de todos estes complexos conceitos, ainda temos as explosões de blackblocks, fanatismo religioso, ganância e corrupção, vandalismo e depredação com a intenção de encontrar o novo, etc, etc, etc. A recriação do universo pelo próprio universo. A ambição do diretor é assustadora e fantasmagórica. Seu deus é o deus supremo.

Poderia ficar falando horas, talvez dias sobre as múltiplas percepções na obra de Aronofsky. E ainda assim não conseguiria nem a metade colocar/colorir tudo.

Difícil. Sim, muito difícil. Mas a beira da loucura e da perfeição de ser o que realmente é: cinema.

jun 292017
 

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Filmes com orçamento apertado tem que se virar e fazer valer o pouco investido. Ser criativo deixa de ser qualidade para ser obrigação e falta de dinheiro não implica num roteiro falho. Desvantagens contabilizadas e temos o que sobra para atrair seu público. Pois justamente o orçamento baixo em “Ao Cair da Noite” faz com que os profissionais se sobressaiam e façam mais um exemplar do novo cinema de terror.

A sinopse nos entrega Paul (Joel Edgerton), que habita uma estranha casa juntamente com sua esposa e filho. A casa é sua segurança até a chegada de estranhos que acabam por mudar a rotina da família. Mas em meio a um holocausto, conviver em comunidade não é uma tarefa nada fácil principalmente quando a sua vida e dos seus é colocada em iminente risco.

A paranoia de todos os personagens é o que faz o filme andar, juntamente com uma edição de som cautelosa e diferentes posicionamento de câmeras, cada um dos habitantes da casa reage de maneira diferente a cada situação envolvida. O emocional é colocado a prova a todo momento. Intrigas e desconfiança permeiam os cenários a todo momento. O andar de “Ao Cair…” lembra em muito o belo e polêmico “A Bruxa” – fruto desta nova safra de horror.

Não é um filme para todos os públicos. Explico: em pouco mais de uma hora e meia o ritmo é extremamente lento e a grande maioria das cenas são escuras e por hora sufocantes. Quem espera tomar sustos e jogos de “cabra-cega” pode se decepcionar profundamente. A noite em si acaba também tendo seu papel fundamental, pois é ali onde as grandes tensões acabam por acontecer. Nem tudo é explicado, muito pelo contrário, sendo aqueles dramas psicológicos onde nem toda platéia está preparada para pensar o tempo inteiro e tirar suas próprias conclusões.

Não é um filme fácil de ser assistido, deve ser visto somente nos cinemas onde somente ali existe a chance de se manter o silêncio, a escuridão e um clima ideal para curtir este exemplar de forma a aproveita-lo e ter então a experiência por completo.

jun 262017
 

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Logo no trailer do filme “Vida” podemos quase ter tudo o que o longa promete: uma excursão de astronautas em busca de vidas em outros planetas, algo acontece com a nave (no caso estação) espacial. Um ser maligno e inesperado está a bordo e os passageiros em pânico sem saber qual o destino final. Quem já não viu isso tudo em outros filmes infinitamente melhores? Nada de novo no front.

A premissa de vida inteligente vinda de outros planetas e atacando seres humanos até sua (quase) extinção total nos remete a diversos outros com a mesna temática, porém com “Vida”, os clichês se tornam extremamente evidentes fazendo com que o público crie uma expectativa sob alguma coisa nova que realmente não vem. Recheado de atores de renome como Jake Gylenhaall e Ryan Reynolds (que nunca foi ator capaz de interpretar nada além dele mesmo) ainda temos a esperança de que os personagens se desenvolvam como uma tábua de salvação. Nem isso. As histórias são rasas e supérfluas não influenciando em nada seja no roteiro ou na ajuda de quebra para o destaque de algum outro personagem. Os diálogos até tentam ser minimamente filosóficos, mas acabam ficando até piegas e sem encaixe no contexto geral.

Como se já não bastasse a sequência de “mais do mesmo”, o final de “Vida” lembra também e muito o desfecho de “Gravidade” – um dos melhores de gênero até aqui – porém com uma grande surpresa e reviravolta (o que acaba valendo). No fim um grande orçamento para uma montagem de vários outros filmes.

Um filme longo e divertido, mas que bastariam apenas três minutos para que tudo fosse contado. Basta assistir ao trailer. Mais nada. Simples assim.

maio 272017
 

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O mundo anda realmente muito chato. Para tudo que se fala ou que se escreve, deve se tomar cuidado para não ofender aquelas que se imaginam as menos favorecidas dentro de uma sociedade. Talvez até sejam. Ou são. Cada palavra dita ou frase feita pode repercutir da forma mais negativa possível. A própria palavra “negativa” pode ter uma conotação errônea onde grupos étnicos podem se sentir invadidos ou ofendidos por meras oito letras empregadas. A chatice é colocada em sério risco quando“Get Out” ou (em um português tosco) “Corra!” estréia nos cinemas. Sim! É um filme de suspense e terror, mas pode e transita facilmente do humor negro às piadas impróprias, chegando a deixar o público embasbacado até o final da sessão.

Tudo começa quando Chris (Daniel Kaluuya), um jovem negro é convidado a visitar os pais de sua namorada (de expressões quase arianas), em uma propriedade mais afastada do grande centro. Chegando lá se depara com uma tradicional família (quase) ortodoxa americana. A família se mostra aconchegante e tentando fazer o máximo para que seu convidado se sinta o mais a vontade possível, uma vez que ele é o cara que está tendo “isso”, já quatro meses com sua filha. Mas existe algo de estranho no ar, que Chris não consegue ainda decifrar. Porém durante uma festa na casa, suas desconfianças passam ser certezas. Incredulamente são absurdas e inimagináveis certezas. Quando se é convidado, não quer dizer que se é obrigatoriamente bem-vindo…


A questão do racismo velado é uma verdade e um risco permanente em qualquer lugar. Porém quando um filme se destina ao propósito de denúncia social (ainda que bem humorada), se torna muito mais vulnerável e ao mesmo tempo obrigatório. Porém “Get Out” é ousado e satírico conseguido dosar todos os elementos de um bom filme em pouco mais de 100 minutos na tela. O diretor Jordan Peele consegue ser ácido e fatídico colocando as idéias atuais em um tema bastante batido de forma séria e até perigoso quando se chega ao limiar do absurdo.

O destaque além do protagonista de Chris (Kaluuya) fica por conta do filho do casal Armitage, Jeremy. Interpretado pelo sinistro Caleb Landry Jones, o personagens tem trejeitos que chegam a ser repugnantes, como o típico adolescente mal criado e soberbo. Mas sendo bem trabalhado e pela fisionomia lembrando muito Heath Leadger (Batman: O Cavaleiro das Trevas) arrisco a dizer que este poderia muito bem tentar interpretar o próximo Coringa.

Independente de gostar ou não de cinema, fato é que “Corra!!!” é um daqueles filmes obrigatórios para 2017 – onde só de olhar o poster já se tem noção se consegue ficar tenso e ter até calafrios, dos absurdos que se pode encontrar em tão pouco tempo.

Link para o IMDb

maio 222017
 

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Sempre que o nome “Alien” é citado, automaticamente somos remetidos ao filme de estréia da franquia de Ridley Scott iniciada em 1979 que foi um marco no cinema de horror espacial. Na época nos fora apresentado um ser novo e diferente de tudo aquilo que conhecíamos como “vilão”: extremamente astuto, sanguinolento, monstruoso e principalmente, fora de nosso habitat natural com uma nova espécie até então. As sequências vieram juntamente com a inesquecível Tenente Ripley (Sigourney Weaver) – que fez questão que seu personagem fosse morto no final da trilogia, para que a imagem não fosse exaustivamente danificada (e ainda assim conseguiram com um clone em “Alien: Ressurrection”) – o que fez do diretor e da série inquestionáveis. Até aqui.

Com o prequel de “Prometheus” em 2012, Scott tenta explicar não só as origens da raça humana mas também a origem do monstro xenomorfo e acaba por dar uma guinada gigantesca para quem esperava todo o terror apresentado há mais de trinta anos. Com um clima mais etéreo e filosófico, cheio de grandes paisagens e diálogos que (ainda bem) não chegam a exaustão, “Alien: Covenant” traz uma continuação da “nova” saga mostrando alguma visão diferente e surpreendente dos acontecimentos.

Temos a tripulação do navio-colônia Covenant partindo em uma expedição para colonizar o novo planeta encontrado, porém acabam fazendo uma parada que não estava prevista, em busca do que acreditam ser um paraíso inexplorado e próprio para a sobrevivência. Duas mil pessoas estão na aeronave em sono criogênico profundo, aguardando a chegada ao destino final. Se houver um destino final.

O estrelato fica por conta do (sempre) excelente Michael Fassbender que consegue interpretar a si mesmo em dois personagens iguais, ou nem tanto: Walter e David – androides com consciência capazes de tomar decisões pró e contra a tripulação tanto na nave exploratória quanto fora dela, quando a expedição aterriza em busca de um novo mundo e de diferentes formas de vida e comunicação. A heroína (interpretada por Katherine Waterston) por sua vez é uma imitação barata e desnecessária de Ripley: a não ser que ela tenha alguma ligação incógnita podendo ser revelada mais adiante.

Alguns detalhes fazem do filme de Ridley Scott mais interessante: logo no início do filme, em uma sala extremamente branca e que lembra um laboratório (ou o firmamento), o mentor pergunta a máquina qual seu nome, e a máquina responde: David. E se vira imediatamente para uma estátua gigante de Michelângelo. Um desafio da grandeza das criações feita a seus ultrapassados criadores minúsculos. Apenas uma das várias semióticas e comparações feitas e refeitas no roteiro de John Logan.

A estréia de “Alien: Convenant” gerou a velho dilema de “ame ou odeie”. Há quem goste e há quem não veja motivo para um próximo filme. Acredito que a série hoje seja um tanto injustiçada pelos pessimistas, mas que somente em alguns anos, após a conclusão da saga, teremos o reconhecimento da grandeza da obra e do próprio Ridley Scott. Que até hoje, não errou a mão.

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maio 122017
 

Author Rating / Nota do Autor:

Se o filme “The Void” for visto apenas pelo que chamo de “contexto cinematográfico mero e simples”, que é sentar no sofá e assistir televisão, sem compromissos com o ambiente em si ou ainda despreocupado em ter uma qualidade de experiência razoável, se tornará chato, irrelevante e apenas mais uma daquelas escatológicas obras trash. Interagindo com os detalhes da estética, e a história até o final da produção se tem uma nova visão.

A história gira em torno de um policial que, pouco depois de entregar um paciente a um hospital quase vazio, experimenta ocorrências estranhas e violentas aparentemente ligadas a um grupo de misteriosas figuras encapuzadas…

Todo ou boa parte de “The Void” foi monetizado via crowdfunding (site de financiamento coletivo) e levou praticamente 10 anos para ser finalizado. Conta com um elenco praticamente desconhecido, porém com uma equipe de retaguarda que faz todo sentido ao tipo de filme apresentado. A proposta é um filme com âmbitos de “filme b”, recheado de monstros esquisitos, rituais a deuses estranhos, sangue de anilina e tudo muito nojento a ponto de franzir a testa e puxar o lábio. Porém na onda retrô de “Stranger Things” acaba por estragar o filme.

A ideia é boa, mas o roteiro deixa bastante a desejar: onde exste a preocupação com a estética acaba se esquecendo um bom tanto que para tudo isto funcionar, é necessário uma história que prenda e traga o público consigo até o final. O que não acontece. Apesar de começar interessante, o final deixa o espectador sonolento tirando o brilho da obra.

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mar 282017
 

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Procurando pelo nome do diretor M.Night Shyamalan pode-se encontrar as mais diversas opiniões sobre suas obras e seus pontos de vista: desde o sonhador profano, romântico inveterado, estúpido excêntrico até o ridículo sem noção. Mas uma coisa não dá pra negar: ele é genial! E com “Fragmentado” ele volta as telas de forma triunfal e exageradamente atualizado, dentro de muitos conceitos novos de cinema que não costumava utilizar.

Kevin é um homem visivelmente atormentado e, que incrivelmente, possui 23 personalidades distintas (sim, eu disse vinte e três!) e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Uma de suas personalidades, sem deixar rastros, sequestra três garotas que encontra em um estacionamento. Dentro do cativeiro, elas devem conhecer e entender as diferentes máscaras/rostos deste desconhecido terror, e precisam encontrar algum meio de escapar com vida do estranho cativeiro onde estão.

O ator James McAvoy está sensacional e consegue transitar em todas as personalidades sem deixar um fio da figura anterior, indo de uma criança de nove anos até uma distinta senhora. Porém o roteiro é firme e consegue explorar todos os contextos que levaram o personagem a chegar neste estado físico/emocional. Juntamente com a presença da psicóloga Sra. Fletcher (Betty Buckley), as linhas de realidade e ficção acabam se parametrizando e dando um pouco mais de veracidade aos fatos. Outra ilustre presença é a de Anya Taylor-Joy (do excelente “A Bruxa”), que interpreta uma das jovens sequestradas e (obviamente) toma a frente de situações em que um pouco mais de perseverança é necessária. A tensão é uma constante em todo o filme, dando créditos a fotografia e iluminação, também com méritos a edição de som que trabalha cada ruído de forma minuciosa.

Sim. É o retorno de um dos grandes cineastas que estava apagado frente a outros projetos e obras menos ambiciosas, mas que tem sua marca e estilo próprios. Há quem o tache de infantil e com estereótipos ridiculamente absurdos em sua composições, e que ainda tenha a veia do cinema fantástico. Pois é justamente assim ele consegue atingir o objetivo de com toda sutileza entrar em assuntos como a influência direta dos pais na vida de suas crianças, na esquizofrenia que é a própria sociedade, na animalesca fome de vida que os seres humanos mais usurpados de vida possuem. Talvez se Shyamalan fosse mais direto e reto, pudesse atingir os críticos mais debochados e recalcados de vez. Mas aí é justamente aí que mora a sua personalidade mais sombria, inconfundível e memorável.