jun 202022
 
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A ultima produção da Netflix infelizmente vem ao encontro da grande maioria de outras já lançadas. Raso, contando com um elenco de apoio e também com um fraquíssimo roteiro, ”Spiderhead” (que nem o nome faz jus) é a bola da vez.

Em algum tempo não muito longe daqui, determinados condenados pela lei poderão servir como cobaias em novos experimentos científicos, porém com o consentimento do próprio apenado. Um dos presos nota que existe algo a mais e que não havia sido dito e/ou mencionado até aquele momento.

Mesmo com alguns atores ligados fortemente ao MCU como Chris Hemswort (Thor) e Miles Teller (Quarteto Fantástico), em momento algum o filme convence ou consegue colocar algum tipo de sensação na telinha. Ainda que a premissa seja excelente e o texto bem construído, nem direção nem equipe técnica conseguem fazer do limão uma limonada. Personagens apáticos e (aparentemente) perdidos em cena tendem a cada frame perder a desenvoltura (talvez inicial). Teller poderia ser substituído por qualquer ator, barateando o custo. E a presença de Hemswort como antagonista é apenas necessária comercialmente, pois nem não conseguimos desvencilhar sua imagem do “deus do trovão”: a exigência do papel é demasiada e não acredito no entusiasmo de nenhum outro que pudesse substitui-lo.

A ideia do experimento científico é muito boa, tirada de um conto publicado no New York Times, poderia flertar com teorias freudianas, comportamentais e até filosóficas se fosse a necessidade. Ao invés disso, busca na falta de empatia dos personagens, um humor nonsense completamente desnorteado.

A trama de pouco mais de 90 minutos, caberia muitíssimo bem em apenas um episodio da série “Black Mirror” e bastaria. Seria menos tempo perdido e extremamente melhor aproveitados, poupando o publico de mais uma tentativa caça-níqueis/clientes do serviço de streaming

jun 132022
 
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Torcer o nariz para mais um filme de Adam Sandler é fácil. Difícil é admitir que o filme é bom e que vale gastar duas horas do seu dia frente a um drama esportivo. Ainda mais sobre basquete.

Não que basquete deixe de ser um esporte importante, mas que não é tão difundido ou apreciado no país do futebol quanto deveria. Ao mesmo tempo que “Arremessando Alto” se torna um filé com fritas para os adoradores do esporte. Com presenças ilustres do passado e atuais, todo enredo e trama acaba se encaixando aos poucos na história.

Ainda que conte com figurinhas carimbadas da comédia como Adam Sandler e Queen Latifah (que em momento algum lembram um casal), e nomes de peso da dramaturgia como Robert Duvall e Ben Foster, quem acaba ganhando os créditos na hora do tapete vermelho é o jogador profissional espanhol Juancho Hernangomez (atualmente no Utah Jazz) que acaba sensibilizando o olheiro e sendo recrutado (ainda que de forma escusa.)

Mas o filme não é apenas sobre jogos, basquete e competições: é sobre superação. Com descontrole emocional, o jogador “Bo” deve atravessar os obstáculos de ser um amador entre os grandes, além do preconceito de mais um branco e não-americano jogar a NBA. Isso fica bastante explicito em um dos principais duelos travados em quadra. Os dramas familiares dos envolvidos em suas conquistas também permeiam todos os lados da produção.

Tecnicamente “Hustle” (título original) faz muito bem, perto de outras produções encarnadas pelo comediante: câmeras bem conduzidas e com efeitos de difícil acesso, sequencias de cortes tão rápidos que chegam a acompanhar os dribles mas velozes e estonteantes. O roteiro, apesar de quase batido, não decepciona entregando as prometidas voltas de personagens várias vezes.

Nota interessante em uma das marcantes frases de um dos personagens comentando que “não é sobre o que se é ou sobre o que somos, e sim sobre o que ainda queremos ser e para onde queremos ir”, o que se encaixa irrefutavelmente na cronologia de Sandler, quase como uma metáfora de sua então carreira como um ator pastelão, sempre querendo alçar voos maiores, mas com uma pesada corrente presa a seus pés.

maio 152022
 
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Para quem já está acostumado com os filmes de Robert Eggers regados a exageros de sangue e mortes estapafúrdias estará bem servido em “The Northman”. Já os cinéfilos mais ávidos podem se decepcionar pelo roteiro raso e pouco introspectivo do diretor sensação de tantos anos.

Depois de primorosos filmes tensos e com um terror psicológico vívido, Eggers parece se entregar ao hollywoodiano mais prático e seguir uma linha de pensamento mais fácil. Em “A Bruxa” (2015), o primor pela história pacata e ao mesmo tempo envolvente e depois mais adiante com “O Farol” (2019), onde a arte prevalece e atuações dão entorno ao caldo, temos uma linha a seguir e esperar muito. Talvez aí esteja o erro. Acredita-se também que com um elenco com tamanho peso e um orçamento bastante fora dos padrões anteriores tudo tenha mudado de figura.

Por outro lado o filme consegue buscar na mitologia nórdica a força necessária para nos levar por mais de duas horas sem cansar, sendo bastante fiel a literatura escandinava e buscando retratar o povo Viking tal e qual fosse em anos próximos ao 800 d.c. Ainda que a história de vingança não traga muitas surpresas ao espectador, em um ou dois momentos o “plot twist” (famosa virada de roteiro) acontece embasbacando os mais desavisados.

As cenas em si são muito bem montadas e dão a mão com o diretor nos momentos mais longos: nota-se os planos sequência bastante cuidadosos e as cenas de (ação) combate elaboradas para não parecerem piegas e também darem sustança a linha pouco entusiasmada na escrita do filme.

Alexander Skarsgard está em casa. Sua versatilidade é posta mais uma vez a prova: depois de interpretar magnatas e pessoas mais franzinas, retorna mais entroncado do que em “A Lenda de Tarzan” de 2016. Sua origem sueca ajuda em muito o personagem Amleth: tanto no linguajar rebuscado de época quanto no sotaque. Os demais estelares como Nicole Kidman e Ethan Hawke poderiam tranquilamente serem substituídos por cachês mas baixos. Já o mesmo não se pode dizer do fantástico Willem Dafoe e da sempre excelente Anya Taylor-Joy.

“O Homem do Norte” traz uma versão mais amena de Eggers e ao mesmo tempo uma aventura de vingança atraindo público mais interessado em sangue e ação do que propriamente cinema além do entretenimento básico.

mar 142022
 
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Mas são três horas de filme… e veria novamente se tivesse a oportunidade. “The Batman” não é diferente de muitos filmes de heróis que você já assistiu. Mas é bem diferente daqueles filmes do Batman que já foram feitos. Se existe alguma dúvida em ir ao cinema e esperar o “streaming”, pode ir ao cinema sem medo de se arrepender.

Existiam muitas dúvidas sobre a interpretação do purpurinado vampiro de “Crepúsculo” como o mascarado da DC: Robert Pattinson cumpre seu papel como homem-morcego e tira as dúvidas dos mais aficionados quanto a interpretação. Ele pode em alguns momentos não representar tão bem Bruce Wayne, mas surge bastante eloquente sobre a capa. Até porque estamos acostumados a ver o herói já formado e certo de seus compromissos enquanto o novo filme de Matt Reeves traz o morcegão em seus primeiros anos como o vingador de Gothan.

Um dos pontos fortes em “The Batman” é o roteiro: firme e decidido, para cada fala e a cada “plot twist” (que não são poucos) os motivos/razões são fechados e não deixam pontas soltas conseguindo ainda finalizar a trama deixando rastros para um próximo episódio. As caracterizações também são um ponto forte: Zoë Kravitz e Colin Farrell dão as cartas com atuações primorosas, fazendo saber o motivo de terem sido escolhidos: convencem. Não apenas eles, mas todo o elenco convence. Cenas de ação e lutas são bem coreografadas e faz o espectador duvidar dos próximos passos.

Paul Dano é uma das atuações a parte: não existe tempo ruim com ele, e o “Charada” é não é diferente. Pegando ganchos de outras atuações como em “Ruby Sparks”, “Os Suspeitos” e “Okja”, faz um vilão muito longe da caricatura tenebrosa se Jim Carrey. Outro ponto importante: “The Batman” flerta com realidades que excepcionais de hoje como redes sociais e o anonimato. Tão séria questão nos dias de hoje fora abordada de forma tão certa e ao mesmo tempo tão séria que pode não ser valorizada. Engraçado como as coisas sérias e pragmáticas podem ser duvidosas hoje, não? Mas não devemos entrar no mérito da questão.

Mas no contexto geral, “The Batman”’ ainda pode ir bem mais além em se tratando de uma trilogia: (spoiler) imaginamos outros vários super vilões para os próximos filmes, porém nada tão esperado como o “Coringa”, que faz uma ponta (ainda não declarada pela produção) como o grande artífice das próximas sequências. Mas será difícil alguém como Barry Keoghan bater interpretações icônicas como Jack Nicholson e/ou Joaquim Phoenix. Mas quem esperava isso de Heath Leadger, chegando a carregar o Oscar (ainda que póstumo)?

Só os próximos capítulos dirão…

mar 012021
 
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Um filme pode ser superestimado por diversos motivos: um grande diretor, ou um roteirista de renome, ou ainda um(a) grande ator. Mas e quando entram em cena três vencedores do Oscar e quatro estatuetas em uma mesma película? Ou melhor… em uma mesma cena! Sim. “Os pequenos vestígios” vem com a mala pronta para viagem e bagagem recheada com Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto. Mas como traz o dito popular, “vamos devagar com andor, pois o santo é de barro”…

O já tarimbado delegado do condado de Kern, Joe “Deke” Deacon (Denzel Washington), precisa ser enviado a Los Angeles para uma simples coleta de provas e averiguação de rotina em outra jurisdição. Porém, o processo demora um pouco mais do que imagina e acaba por se interessar e se envolver em um caso muito similar a outro que viveu anos atrás: com toda sua “expertise” acaba ajudando e se envolvendo na caça de um “serial-killer” que já está deixando a polícia local e a população em polvorosa. O delegado do departamento de Los Angeles Jim Baxter (Rami Malek), é bastante displicente e arrogante, mas acaba cedendo aos instintos do veterano Deke. A ajuda é extraoficial e tudo pode acontecer, sendo que o pior ou melhor de cada um pode submergir. Com o andar do caso, mazelas do policial Deke vão surgindo e o jogo mental acaba sendo tão importante ou até crucial quanto aos vestígios do criminoso que vão aparecendo. Tudo pode ser cíclico e o mundo já provou dar voltas demais para chegar ao mesmo lugar.

O jogo de gato e rato em um ambiente “noir” não é novidade em filmes policiais, sendo que para tanto é necessário que uma boa mão na direção esteja firme e um roteiro envolvente seja de acordo com a história. Nâo é o que acontece. De acordo com o andamento da história, sentimos aos poucos que nem tudo parece tão real ou ainda que certos fatos jamais aconteceriam em um caso real: porém vamos dando corda, linha e crédito como uma licença poética a cada erro. A comparação com os clássicos do gênero ficam inevitáveis. Apesar das nuances e rastros deixados para que o espectador também identifique o criminoso e desvende os segredos da trama, as pontas vão ficando soltas, tornando o filme morno e – não decepcionando – arrastado.

O diferencial acontece quando Jared Leto entra em cena. O ser apático e dissimulado apresenta um sarcasmo sempre que questionado, deixando em dúvida e as vezes até seduzindo o espectador pouco avisado. A trama ressurge entusiasmada e o ritmo parece que pode ficar frenético. Mas infelizmente não fica. E assim vamos até o desfecho. Ainda existe a tentativa de uma “moral” a lá desenhos do He-Man, onde o final tentava ser educativo. Mas ainda assim falha. Solenemente falha.

Um grande elenco não garante um grande filme. Tampouco um diretor de renome faz milagre com um roteiro errado. Há elogios e acertos em “Os pequenos vestígios”, mas tanto quanto o próprio nome do filme, ainda não foram desta vez encontrados…

fev 172021
 
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Segundo o escritor alemão Goethe, todos os fatos marcantes da vida provém de traumas: desde o sofrido nascimento de um ser humano, passando pelas fases de aprendizado para que consigamos a duras custas entender o significado de sobrevivência e ainda assim também esperar o final da existência e torna-la menos sofríveis. Mas e quando um determinado trauma é para sempre? Violência, humilhação, eternos desconfortos… Existe alguma forma de exterminar em definitivo essa dor permanente?


Vivendo nos Estados Unidos, Maja (Noomi Rapace) tem sua família formada. O marido Lewis (Chris Messina) e o filho Patrick formam o estereótipo de felicidade. Porém ela não consegue esquecer e se livrar dos horrores sofridos em sua terra natal durante a Segunda Guerra. Insônia e antidepressivos são constantes. Em um rompante desespero ela sequestra seu vizinho, sem ter a certeza de que realmente foi ele seu torturador no passado.


O filme é tenso. O tempo inteiro existe a dúvida sobre as atitudes dos protagonistas e para qual caminho o roteiro seguirá. Noomi Rapace ficou conhecida no já cult sueco “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” e vem emplacando atuações de tirar o fôlego, sempre intensas e convincentes sendo na maioria das vezes personagens perturbados e de difícil interpretação. Coisa que não acontece com o apático “Lewis”. Sua sintonia acaba acontecendo com seu algoz (e também sueco) Joel Kinnaman – que consegue fazer um papel quase duplo até o desfecho. 

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Algumas lacunas são observadas no decorrer do longa: se você está acostumado a filmes de investigação ou se ater aos detalhes da produção e continuidade, vai perceber logo. Porém acabam por não terem tanta importância sendo que a trama (ainda que não seja tão atribulada quanto outros do gênero) acaba por prender o espectador até o final. Um ponto forte é a ambientação na América pós-guerra, desde indumentárias, paisagens, diálogos e até gírias e gestos nos transportam a época então. Também os “flashbacks” em preto e branco fazem uma ponte bastante sinuosa, que vai se estreitando com o andar do longa e elucidando boa parte da estrada em seu final. Outro detalhe interessante são as cores vibrantes quando os diálogos se tornam quase um embate psicológico – bela sacada! 


No final das contas é um excelente entretenimento. Dependendo da visão e expectativa frente a tela, pode se tornar mais um exemplar dos horrores da guerra e suas consequências até hoje. Ou ainda apenas mais um jogo de informações onde não se tem o resultado ideal – mas proveitoso.

Disponível também no “Amazon Prime”.

fev 102020
 
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A grande surpresa em relação aos concorrentes a estatueta de ouro é o filme de guerra “1917” – que estreou comercialmente no Brasil somente em 23 de janeiro – e que estava escondido entre os demais até o último momento. Um marketing de efeito e que acabou por permear a curiosidade daqueles que gostam de cinema. Na direção temos Sam Mendes (de Beleza Americana) e um elenco de estrelas que vai aparecendo ao longo da película. Mas o que se apresenta nas telas realmente vale a pena? A pergunta acabou dividindo admiradores do gênero e também amantes da sétima arte.

Durante a primeira grande guerra, dois soldados britânicos são incumbidos de uma tarefa quase impossível: entregar uma mensagem a outra guarnição muito distante evitando um massacre em massa, atravessando o território inimigo. A corrida contra o tempo tem ainda mais um agravante: o irmão de um deles ainda está entre os soldados em perigo.

O diretor Sam Mendes se utilizou de dois grandes trunfos: a história é baseada em fatos reais contados por seu avô, que participou das batalhas e provavelmente viveu “in loco” parte delas. Detalhes de sobrevivência e percalços durante a jornada são detalhados a cada momento com muita ênfase na parte humana dos então dois protagonistas. Mas até onde há protagonistas em uma guerra? Outra cartada certeira foi o uso do “plano sequencia “ – técnica de difícil execução onde não existem cortes na cena e a câmera acompanha os personagens e/ou a história de maneira ininterrupta – que faz com que o trajeto dos soldados seja mais valioso e o trabalho da equipe técnica supervalorizada (com razão), uma vez que tudo e todos devem ter atenção redobrada. Apesar de todo mérito, o uso do plano não é nenhuma novidade: Alfred Hitchcock inaugurou a ideia em “Festim Diabólico”, e mais recentemente o vencedor do Oscar com “Birdman” também o fez de forma fantástica. Mais maldosos dirão que até nos seriados dos japoneses “Flashman” isso nunca fora uma novidade – em suas devidas proporções, obviamente.

O grande acerto e digno de aplausos está a direção de fotografia: uma aula de cinema nos ensinada por Roger Deskins (de Blade Runner 2049). Deixado livre pela direção para criar e extravasar ele consegue transformar as cenas mais simples em verdadeiros meteoros fumegantes dando um espetáculo a parte e vivendo a real grandiosidade de cada passagem. A mão do diretor de fotografia se torna pesada nos últimos quarenta minutos onde todos os sentimentos são traduzidos em cores e visões quase estroboscópicas. Pode apostar uma estatueta certa para este quesito.

Mas até onde vai a grandiosidade de “1917”? Dalton Trumbo já teria perguntado em seu livro “Johnny Vai a Guerra” se algum soldado se orgulha de ter morrido por seu país. A resposta certa é que nenhum deles voltou para contar. Outros clássicos do gênero sempre trazem questões contundentes como em “Platoon”, com os horrores traduzidos por Oliver Stone, ou ainda em “Apocalipse Now”, de Francis Ford Copolla no final derradeiro do astro Marlon Brando. Sem falar de outros inúmeros (Nascido Para Matar, Atrás das Linhas Inimigas, Círculo de Fogo, etc…). Ainda podemos citar o recente “Jojo Rabbit” – que consegue encontrar graça e fazer piada com o holocausto nazista (sim, é possível) e encontrar uma moral a ser questionada.

Fato é que “1917” se apresenta vazio e sem objetivos, onde o heroísmo e a técnica apenas se apresentam como grandes noções de megalomania. É uma grande obra sem dúvida alguma. Mas fatalmente fadada ao esquecimento logo logo, justamente por não conseguir trazer tudo aquilo que uma guerra realmente pode nos mostrar e/ou ensinar.

jan 032020
 
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Um dos mais esperados filmes do ano, “O Farol” chegou firme em suas convicções e expectativas conseguindo arrancar suspiros dos cinéfilos mais enraizados, deixar perplexos os encantadores de críticos, porém fazendo o público médio ficar em dúvidas quanto ao drama/terror feito por Robert Eggers.

A trama se passa em meados de 1890, onde dois faroleiros são responsáveis pela manutenção de uma pequena ilha, que serve de referência para diversas embarcações que por ali cruzam. Porém a relação entre Thomas e Winslow ao longo dos dias e das horas vai ficando cada vez mais estreita, caótica e sem um rumo certo.

O primor de tratamento da película é notado logo no início onde o preto e branco são contrastados a exaustão e já trazendo o clima soturno que guiaria tudo (e a todos). O grande trunfo da direção está em resgatar/utilizar grandes referências cinematográficas de outrora desde a tristeza do cinema alemão, passando pela apatia do sueco Ingmar Bergman e até a crueza das telas russas de Eisentein e Tarkovski.

Já os diálogos tentam buscar a mesma eficiência “noir” mas acabam sucumbindo talvez na falta de ousadia, que também custa a aparecer nos personagens, fazendo-se valer mais em gestos os dilemas existenciais e questões antropológicas. Porém o isolamento social destes dois únicos personagens do filme é o grande mote para tudo: duas peças únicas em um tabuleiro sufocante e que lutam o tempo inteiro pela sua sobrevivência mental. Tudo é mostrado as claras, mas nada existe de certeza: os jogos de luz e sombra fazem o tempo inteiro o espectador duvidar do que realmente está acontecendo. Nesse caso é bom salientar que a sintonia Dafoe/Patison até mesmo nesse ponto consegue ser perfeita: tanto o estranhamento e embates quanto a parceria e cumplicidade dos faroleiros é percebida de forma constante e de certa forma até enjoativa. As vezes a assimetria é o melhor caminho (refutada aqui solenemente).

A grande crítica especializada enalteceu “O Farol” – dez entre dez textos sobre a obra falam de “obra-prima” a “espetáculo visceral”. Não se tira o mérito da técnica completa, complexa e impecável, inclusive com favoritismos na questão “Oscar” neste ano. Porém acredito que de todo espetáculo, de toda magia e de todo respeito oferecido as telas em homenagem também intrínseca a grandes mestres, talvez o maior deles tenha sido deixado um tanto de lado: o espectador comum, que busca seu entretenimento em detrimento de uma história não menos complexa, porém mais palpável e palatável. Talvez um pouco mais de objetividade e assertividade fizessem o alcance de “O Farol” despontar como sucesso não só de critica, mas também de público.

dez 262019
 
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Em mais uma daquelas zapeadas nas redes de streaming, a Amazon trouxe “A Maratona de Brittany” – o que parecia uma daquelas despretensiosas comedias românticas que iniciam e acabam sem ter um sentido maior, surpreende ao longo de quase duas horas ao alcançar públicos de diversas faixas etárias, diferentes etnias, público de grandes “minorias” sem atingir diretamente. Equilibrado: “pero no mucho”.

Brittany é uma mulher de quase trinta anos. O reflexo daquilo que vê no espelho e em suas consequências não a agradam. Ainda mais quando a questão financeira vem mostrando os dentes já a algum tempo, e resolve morder justamente na hora errada. Mas nada vem sozinho. Literalmente “Brit” resolve colocar um tênis e correr a seu favor e contra o tempo perdido.

Tecnicamente não temos muitas novidades além das boas tentativas: a direção de arte capricha nas cores exageradas quando se trata da vida pessoal da personagem, volta e meio contrastando com o asfalto negro e o céu cinza que precisa trilhar até conquistar seus objetivos. A medida que o filme vai a avançando, as vestes de Britney vão ganhando contexto e se encaixando em novas realidades. O roteiro também não é de um primor, mas acaba buscando a essência e o objetivo inicial da obra: diálogos ácidos e humores acelerados em busca de um acerto fulminante, mas também assim como os detalhes visuais vai fluindo e torna-se tão importante quanto o próprio mote inicial.

A escolha do elenco e dos personagens é um acerto em meio ao politicamente correto tão preterido atualmente. Inicialmente seus melhores amigos são um casal blindado pelos “likes” de redes sociais – com uma futilidade que não deixa de ter. Ao longo de uma hora de filme, uma vizinha divorciada, um casal de amigos gays e um descendente indiano em uma plena e heterogênea Nova York acabam por fazer toda a diferença no contexto. Afinal, como loira de olhos azuis aparentemente dona de si e completamente autônoma pode ser ajudada por personagens tão específicos como estes? Pode se fazer aí uma leitura também bastante política em se tratando de economia mundial.

No fim das contas “A Maratona de Britney” não é apenas uma comédia e nem tanto se trata de uma mulher acima do peso buscando a redenção através do esporte, mas sim de uma corrida em busca da auto-estima, do amor próprio e de conseguir perceber que estamos sempre correndo. Nem sempre para vencer uma corrida ou ultrapassar obstáculos, mas também para entender que estamos lado a lado, em conjunto ou equipes, e na maioria das vezes com aqueles que querem nos proporcionar mais do que um simples trajeto, mas também uma odisseia através de nós mesmos.

mar 142019
 
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Em meio a tantos filmes de ação e combate, entre Marvel e DC disputando beleza para ver quem mais dispara socos e chutes por segundo, surge um oásis. Literalmente uma ilha chamada Plymouth que se encontra em algum lugar no Caribe. Lá figurinhas carimbadas de um bom filme como Matthew McConaughey e Anne Hathaway se encontram para tirar o espectador do sério com tamanha “Calmaria”: suspense dirigido por Steven Knight, e que surpreende a cada minuto.Nem tudo são flores, mas que há de falarmos nelas, isso é certo.

O capitão de um barco de pesca Baker Dill, vive recluso em uma pequena e remota ilha do Caribe. Tudo está dentro de uma certa normalidade até que sua ex-mulher o encontra, falando que é abusada e torturada frequentemente po seu atual marido e que o convívio também com seu filho é insuportável. Então sua vida se transforma em definitivo: ele recebe uma proposta milionária para matar o abusivo conjuge em um passeio em alto mar.

A quantidade de metáforas e de tiradas visuais parece não acabar e em um primeiro momento é sensível que existe uma mão diferente atrás da câmera, com movimentos exatos e já tentando dizer a que veio, longe dos clichês mais certos dos últimos anos. Até porque trabalhar com dois oscarizados em ambientes onde a locação possui espaços restritos (um barco de pesca) não é nada fácil.

Não perder o rumo em um roteiro bem montado até parece uma experiência sem percalços, mas manter o público interessado até o fim e manter a tensão e os segredos até o final.. essa é a tarefa difícil. Knight não consegue. Mas ainda assim a trama faz todo o sentido e entrega-se até um pouco mais que o prometido. O elenco de apoio ainda traz Djimon Houson e Diane Lane como coadjuvantes de luxo

Ainda que tenha sido destroçado e escangalhado pela crítica especializada e minorizado pelo seu elenco ser maior do que a própria obra, um ponto de interrogação é colocado de tempos em tempos na tela, questionando uma estranheza que se revela aos poucos.

De qualquer forma, “Calmaria” é uma grata surpresa para quem vai apenas assistir um filme e sai com a impressão de que tem um pouco mais para ser visto e apreciado em um cinema. Que um filme ainda pode surpreender, pode tocar, pode angustiar, ou pode simplesmente fazer com que o deleite de estar em uma sala escura apreciando arte.