jan 032020
 
Author Rating / Nota do Autor:

Um dos mais esperados filmes do ano, “O Farol” chegou firme em suas convicções e expectativas conseguindo arrancar suspiros dos cinéfilos mais enraizados, deixar perplexos os encantadores de críticos, porém fazendo o público médio ficar em dúvidas quanto ao drama/terror feito por Robert Eggers.

A trama se passa em meados de 1890, onde dois faroleiros são responsáveis pela manutenção de uma pequena ilha, que serve de referência para diversas embarcações que por ali cruzam. Porém a relação entre Thomas e Winslow ao longo dos dias e das horas vai ficando cada vez mais estreita, caótica e sem um rumo certo.

O primor de tratamento da película é notado logo no início onde o preto e branco são contrastados a exaustão e já trazendo o clima soturno que guiaria tudo (e a todos). O grande trunfo da direção está em resgatar/utilizar grandes referências cinematográficas de outrora desde a tristeza do cinema alemão, passando pela apatia do sueco Ingmar Bergman e até a crueza das telas russas de Eisentein e Tarkovski.

Já os diálogos tentam buscar a mesma eficiência “noir” mas acabam sucumbindo talvez na falta de ousadia, que também custa a aparecer nos personagens, fazendo-se valer mais em gestos os dilemas existenciais e questões antropológicas. Porém o isolamento social destes dois únicos personagens do filme é o grande mote para tudo: duas peças únicas em um tabuleiro sufocante e que lutam o tempo inteiro pela sua sobrevivência mental. Tudo é mostrado as claras, mas nada existe de certeza: os jogos de luz e sombra fazem o tempo inteiro o espectador duvidar do que realmente está acontecendo. Nesse caso é bom salientar que a sintonia Dafoe/Patison até mesmo nesse ponto consegue ser perfeita: tanto o estranhamento e embates quanto a parceria e cumplicidade dos faroleiros é percebida de forma constante e de certa forma até enjoativa. As vezes a assimetria é o melhor caminho (refutada aqui solenemente).

A grande crítica especializada enalteceu “O Farol” – dez entre dez textos sobre a obra falam de “obra-prima” a “espetáculo visceral”. Não se tira o mérito da técnica completa, complexa e impecável, inclusive com favoritismos na questão “Oscar” neste ano. Porém acredito que de todo espetáculo, de toda magia e de todo respeito oferecido as telas em homenagem também intrínseca a grandes mestres, talvez o maior deles tenha sido deixado um tanto de lado: o espectador comum, que busca seu entretenimento em detrimento de uma história não menos complexa, porém mais palpável e palatável. Talvez um pouco mais de objetividade e assertividade fizessem o alcance de “O Farol” despontar como sucesso não só de critica, mas também de público.

dez 262019
 
Author Rating / Nota do Autor:

Em mais uma daquelas zapeadas nas redes de streaming, a Amazon trouxe “A Maratona de Brittany” – o que parecia uma daquelas despretensiosas comedias românticas que iniciam e acabam sem ter um sentido maior, surpreende ao longo de quase duas horas ao alcançar públicos de diversas faixas etárias, diferentes etnias, público de grandes “minorias” sem atingir diretamente. Equilibrado: “pero no mucho”.

Brittany é uma mulher de quase trinta anos. O reflexo daquilo que vê no espelho e em suas consequências não a agradam. Ainda mais quando a questão financeira vem mostrando os dentes já a algum tempo, e resolve morder justamente na hora errada. Mas nada vem sozinho. Literalmente “Brit” resolve colocar um tênis e correr a seu favor e contra o tempo perdido.

Tecnicamente não temos muitas novidades além das boas tentativas: a direção de arte capricha nas cores exageradas quando se trata da vida pessoal da personagem, volta e meio contrastando com o asfalto negro e o céu cinza que precisa trilhar até conquistar seus objetivos. A medida que o filme vai a avançando, as vestes de Britney vão ganhando contexto e se encaixando em novas realidades. O roteiro também não é de um primor, mas acaba buscando a essência e o objetivo inicial da obra: diálogos ácidos e humores acelerados em busca de um acerto fulminante, mas também assim como os detalhes visuais vai fluindo e torna-se tão importante quanto o próprio mote inicial.

A escolha do elenco e dos personagens é um acerto em meio ao politicamente correto tão preterido atualmente. Inicialmente seus melhores amigos são um casal blindado pelos “likes” de redes sociais – com uma futilidade que não deixa de ter. Ao longo de uma hora de filme, uma vizinha divorciada, um casal de amigos gays e um descendente indiano em uma plena e heterogênea Nova York acabam por fazer toda a diferença no contexto. Afinal, como loira de olhos azuis aparentemente dona de si e completamente autônoma pode ser ajudada por personagens tão específicos como estes? Pode se fazer aí uma leitura também bastante política em se tratando de economia mundial.

No fim das contas “A Maratona de Britney” não é apenas uma comédia e nem tanto se trata de uma mulher acima do peso buscando a redenção através do esporte, mas sim de uma corrida em busca da auto-estima, do amor próprio e de conseguir perceber que estamos sempre correndo. Nem sempre para vencer uma corrida ou ultrapassar obstáculos, mas também para entender que estamos lado a lado, em conjunto ou equipes, e na maioria das vezes com aqueles que querem nos proporcionar mais do que um simples trajeto, mas também uma odisseia através de nós mesmos.

mar 142019
 
Author Rating / Nota do Autor:

Em meio a tantos filmes de ação e combate, entre Marvel e DC disputando beleza para ver quem mais dispara socos e chutes por segundo, surge um oásis. Literalmente uma ilha chamada Plymouth que se encontra em algum lugar no Caribe. Lá figurinhas carimbadas de um bom filme como Matthew McConaughey e Anne Hathaway se encontram para tirar o espectador do sério com tamanha “Calmaria”: suspense dirigido por Steven Knight, e que surpreende a cada minuto.Nem tudo são flores, mas que há de falarmos nelas, isso é certo.

O capitão de um barco de pesca Baker Dill, vive recluso em uma pequena e remota ilha do Caribe. Tudo está dentro de uma certa normalidade até que sua ex-mulher o encontra, falando que é abusada e torturada frequentemente po seu atual marido e que o convívio também com seu filho é insuportável. Então sua vida se transforma em definitivo: ele recebe uma proposta milionária para matar o abusivo conjuge em um passeio em alto mar.

A quantidade de metáforas e de tiradas visuais parece não acabar e em um primeiro momento é sensível que existe uma mão diferente atrás da câmera, com movimentos exatos e já tentando dizer a que veio, longe dos clichês mais certos dos últimos anos. Até porque trabalhar com dois oscarizados em ambientes onde a locação possui espaços restritos (um barco de pesca) não é nada fácil.

Não perder o rumo em um roteiro bem montado até parece uma experiência sem percalços, mas manter o público interessado até o fim e manter a tensão e os segredos até o final.. essa é a tarefa difícil. Knight não consegue. Mas ainda assim a trama faz todo o sentido e entrega-se até um pouco mais que o prometido. O elenco de apoio ainda traz Djimon Houson e Diane Lane como coadjuvantes de luxo

Ainda que tenha sido destroçado e escangalhado pela crítica especializada e minorizado pelo seu elenco ser maior do que a própria obra, um ponto de interrogação é colocado de tempos em tempos na tela, questionando uma estranheza que se revela aos poucos.

De qualquer forma, “Calmaria” é uma grata surpresa para quem vai apenas assistir um filme e sai com a impressão de que tem um pouco mais para ser visto e apreciado em um cinema. Que um filme ainda pode surpreender, pode tocar, pode angustiar, ou pode simplesmente fazer com que o deleite de estar em uma sala escura apreciando arte.