set 232017
 
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Nem tudo na vida é fácil de entender. A cabeça de Darren Aronofski menos ainda. O último rebento “Mãe!” é uma chuva torrencial de informações e de metáforas tão grande e tão poético que muitos odiarão, alguns entenderão e que poucos realmente conseguirão entender o que a arte do diretor conseguiu (não) traduzir em apenas 121 minutos de filme. Não é terror, não é ação nem aventura, mas talvez um drama das próprias vidas, fragmentadas em cortes de cenas bem montadas. Em tempos de censura do MBL, “Mãe!” veio em boa hora.

A história nos apresenta um casal (Lawrence e Bardem) que se muda a pouco para uma antiga casa de campo e que vivem uma aparente pacata vida, até a chegada de um estranho casal que sem serem convidados, vem para quebrar a rotina e fazer balbúrdia e tormentos sem muito sentido para os dois.

Em uma de poucas leituras do filme, a versão de “paraíso” descrita pela protagonista (que não tem nome) é interrompido pela chegada deste então casal (Ed Harris e Michelle Pfiffer) como que para incendiar o relacionamento e apontar os defeitos que até então não existiam ou não eram notados, colocando a primeira grande estrutura do filme a ser abalada. Depois deles nada é lúcido, nada é certo e o espectador fica perdido tentando encontrar uma lógica para os acontecimentos. Não se preocupe, pois até a saída da sala de cinema esta lógica continuará desconexa. Talvez convulsionada para sempre.

Aronofsky, que também escreveu o roteiro de “Mãe!” coloca a caixola do espectador para funcionar: afinal, quem somos!? E realmente somos alguma coisa? Os personagens não possuem nomes, apenas rótulos impostos de acordo com suas vontades e atitudes por outros que não fazem a mínima ideia do que se passa com eles. Expressões de pavor de Jennifer Lawrence traduzem uma ansiedade, tremor, impotência e uma angústia e apreensão por não conseguirem se situar no espaço. E quem disse que temos algum espaço nosso ou que alguma coisa é realmente no nossa? Nem mesmo nossos corpos e mentes são nossos… somos uma transformação constante de pó, barro, virtudes, sangue e lágrimas que brota da terra e certamente será por ela consumido.

Que nossos então filhos não nasceram para serem nossos e sim do mundo. Ao nascermos apenas somos mais uma parte de algo indiscernível e de pouca compreensão como o próprio filme. O diretor tenta em cenas mais lúcidas trazer um pouco de alento a história que parece tão estapafúrdia, mas que na verdade consegue com zilhares de metáforas fazer mais adiante, e com frases que parecem soltas (só que não), fazer com que entendamos a grande experiência que ele tenta nos proporcionar.

Javier Bardem, um dos maiores atores de nossa atualidade, parece ter sido escolhido a dedo para representar um eixo central de sanidade travestida de egoísmo, que se mostra a cada cena mais entendedor do universo em que se encontra. Mas ainda assim toda sua vã sabedoria é quase nula, uma vez que não se consegue enxergar o próximo que lhe ama. Amor este que deve ser valorizado sem entender ou mesmo exigir que seja retribuído de qualquer forma. Um misto de euforia e egocentrismo que pode ser quebrado facilmente com a pronúncia de uma mera (e nada mera) paravra de três letras. Palavra que ao mesmo tempo pode ter conforto e ser o próprio inferno quando vista de outra forma: dores do parto, cuidados por uma nova vida  que não sabe cuidar de si mesmo como todos os outros animais nascidos desta mesma terra. Difícil! Quase impossível.

Mais uma vez digo que “Mãe!” é arte pura e em todos os sentidos. Ainda diante de todos estes complexos conceitos, ainda temos as explosões de blackblocks, fanatismo religioso, ganância e corrupção, vandalismo e depredação com a intenção de encontrar o novo, etc, etc, etc. A recriação do universo pelo próprio universo. A ambição do diretor é assustadora e fantasmagórica. Seu deus é o deus supremo.

Poderia ficar falando horas, talvez dias sobre as múltiplas percepções na obra de Aronofsky. E ainda assim não conseguiria nem a metade colocar/colorir tudo.

Difícil. Sim, muito difícil. Mas a beira da loucura e da perfeição de ser o que realmente é: cinema.

jun 292017
 
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Filmes com orçamento apertado tem que se virar e fazer valer o pouco investido. Ser criativo deixa de ser qualidade para ser obrigação e falta de dinheiro não implica num roteiro falho. Desvantagens contabilizadas e temos o que sobra para atrair seu público. Pois justamente o orçamento baixo em “Ao Cair da Noite” faz com que os profissionais se sobressaiam e façam mais um exemplar do novo cinema de terror.

A sinopse nos entrega Paul (Joel Edgerton), que habita uma estranha casa juntamente com sua esposa e filho. A casa é sua segurança até a chegada de estranhos que acabam por mudar a rotina da família. Mas em meio a um holocausto, conviver em comunidade não é uma tarefa nada fácil principalmente quando a sua vida e dos seus é colocada em iminente risco.

A paranoia de todos os personagens é o que faz o filme andar, juntamente com uma edição de som cautelosa e diferentes posicionamento de câmeras, cada um dos habitantes da casa reage de maneira diferente a cada situação envolvida. O emocional é colocado a prova a todo momento. Intrigas e desconfiança permeiam os cenários a todo momento. O andar de “Ao Cair…” lembra em muito o belo e polêmico “A Bruxa” – fruto desta nova safra de horror.

Não é um filme para todos os públicos. Explico: em pouco mais de uma hora e meia o ritmo é extremamente lento e a grande maioria das cenas são escuras e por hora sufocantes. Quem espera tomar sustos e jogos de “cabra-cega” pode se decepcionar profundamente. A noite em si acaba também tendo seu papel fundamental, pois é ali onde as grandes tensões acabam por acontecer. Nem tudo é explicado, muito pelo contrário, sendo aqueles dramas psicológicos onde nem toda platéia está preparada para pensar o tempo inteiro e tirar suas próprias conclusões.

Não é um filme fácil de ser assistido, deve ser visto somente nos cinemas onde somente ali existe a chance de se manter o silêncio, a escuridão e um clima ideal para curtir este exemplar de forma a aproveita-lo e ter então a experiência por completo.

jun 162017
 
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Ultimamente os filmes argentinos nos apresentam boas histórias, roteiros, atuações e demais técnicas cinematográficas com bastante conhecimento e interesse na arte que o cinema apresenta. A busca impiedosa por uma produção firme e bem feita não falha em “Neve Negra“, uma produção extremamente tensa e focada nas discussões familiares e segredos que podem guardar. Ainda que com a presença do monstro Ricardo Darin, consegue decolar nas telas somente nos momentos finais, e ainda assim deixa o público esperando um pouco mais. Como de costume. Não que esperar um pouco mais seja ruim, mas a sensação de vazio deprecia o todo.

Salvador (Darin) é culpado desde a adolescência por matar seu irmão em uma caçada pela neve, e vive quase como um ermitão. Quase no meio do nada. Muitos anos depois, sem ter contato com praticamente ninguém, seu irmão Marcos (Leonardo Sbaraglia) aparece juntamente com a esposa grávida, tentando convencer o isolado bronco a vender as terras que possuem, deixadas por uma herança de seu pai. Pois justamente neste cenário rude e branco de neve, as marcas reaparecem deixando transparecer as feridas – e os rostos maquiados pelo tempo.

O pretexto de uma boa história e um roteiro bem afinado sempre renderam bons filmes e, ainda que fossem pobres de produção ficavam marcados pela sua perspicácia escrita. “Neve Negra” é exatamente o contrário: abre a expectativa de reviravoltas, e acaba se tornando interessante justamente pela técnica apurada. Gravar na neve não é nada fácil, uma vez que a cor branca em grande quantidade traz uma dificuldade incrível para as objetivas. Porém o destaque se faz justamente nas tomadas aéreas e que acabam por traduzir muitas vezes a imensidão do vazio dos personagens.

Todo o embate por uma trama fica bastante claro antes do filme ter o seu final revelado por completo. Ainda que a direção de atores, continuidade e a fotografia trabalhem bem e em sincronia com o andamento, mágicas acontecem para que as pontas se unam. Um bom início, uma boa trama em um inverno mal aquecido…

 

maio 272017
 
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O mundo anda realmente muito chato. Para tudo que se fala ou que se escreve, deve se tomar cuidado para não ofender aquelas que se imaginam as menos favorecidas dentro de uma sociedade. Talvez até sejam. Ou são. Cada palavra dita ou frase feita pode repercutir da forma mais negativa possível. A própria palavra “negativa” pode ter uma conotação errônea onde grupos étnicos podem se sentir invadidos ou ofendidos por meras oito letras empregadas. A chatice é colocada em sério risco quando“Get Out” ou (em um português tosco) “Corra!” estréia nos cinemas. Sim! É um filme de suspense e terror, mas pode e transita facilmente do humor negro às piadas impróprias, chegando a deixar o público embasbacado até o final da sessão.

Tudo começa quando Chris (Daniel Kaluuya), um jovem negro é convidado a visitar os pais de sua namorada (de expressões quase arianas), em uma propriedade mais afastada do grande centro. Chegando lá se depara com uma tradicional família (quase) ortodoxa americana. A família se mostra aconchegante e tentando fazer o máximo para que seu convidado se sinta o mais a vontade possível, uma vez que ele é o cara que está tendo “isso”, já quatro meses com sua filha. Mas existe algo de estranho no ar, que Chris não consegue ainda decifrar. Porém durante uma festa na casa, suas desconfianças passam ser certezas. Incredulamente são absurdas e inimagináveis certezas. Quando se é convidado, não quer dizer que se é obrigatoriamente bem-vindo…


A questão do racismo velado é uma verdade e um risco permanente em qualquer lugar. Porém quando um filme se destina ao propósito de denúncia social (ainda que bem humorada), se torna muito mais vulnerável e ao mesmo tempo obrigatório. Porém “Get Out” é ousado e satírico conseguido dosar todos os elementos de um bom filme em pouco mais de 100 minutos na tela. O diretor Jordan Peele consegue ser ácido e fatídico colocando as idéias atuais em um tema bastante batido de forma séria e até perigoso quando se chega ao limiar do absurdo.

O destaque além do protagonista de Chris (Kaluuya) fica por conta do filho do casal Armitage, Jeremy. Interpretado pelo sinistro Caleb Landry Jones, o personagens tem trejeitos que chegam a ser repugnantes, como o típico adolescente mal criado e soberbo. Mas sendo bem trabalhado e pela fisionomia lembrando muito Heath Leadger (Batman: O Cavaleiro das Trevas) arrisco a dizer que este poderia muito bem tentar interpretar o próximo Coringa.

Independente de gostar ou não de cinema, fato é que “Corra!!!” é um daqueles filmes obrigatórios para 2017 – onde só de olhar o poster já se tem noção se consegue ficar tenso e ter até calafrios, dos absurdos que se pode encontrar em tão pouco tempo.

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maio 122017
 
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Se o filme “The Void” for visto apenas pelo que chamo de “contexto cinematográfico mero e simples”, que é sentar no sofá e assistir televisão, sem compromissos com o ambiente em si ou ainda despreocupado em ter uma qualidade de experiência razoável, se tornará chato, irrelevante e apenas mais uma daquelas escatológicas obras trash. Interagindo com os detalhes da estética, e a história até o final da produção se tem uma nova visão.

A história gira em torno de um policial que, pouco depois de entregar um paciente a um hospital quase vazio, experimenta ocorrências estranhas e violentas aparentemente ligadas a um grupo de misteriosas figuras encapuzadas…

Todo ou boa parte de “The Void” foi monetizado via crowdfunding (site de financiamento coletivo) e levou praticamente 10 anos para ser finalizado. Conta com um elenco praticamente desconhecido, porém com uma equipe de retaguarda que faz todo sentido ao tipo de filme apresentado. A proposta é um filme com âmbitos de “filme b”, recheado de monstros esquisitos, rituais a deuses estranhos, sangue de anilina e tudo muito nojento a ponto de franzir a testa e puxar o lábio. Porém na onda retrô de “Stranger Things” acaba por estragar o filme.

A ideia é boa, mas o roteiro deixa bastante a desejar: onde exste a preocupação com a estética acaba se esquecendo um bom tanto que para tudo isto funcionar, é necessário uma história que prenda e traga o público consigo até o final. O que não acontece. Apesar de começar interessante, o final deixa o espectador sonolento tirando o brilho da obra.

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nov 142016
 
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Em tempos de super-herois e pancadarias desmedidas em filmes onde tudo o que interessa é saber quem vai vencer no final, “A Garota No Trem” surge como um hiato. Um roteiro interessante, trilha sonora de bom gosto, direção de qualidade e excelentes atuações fazem uma boa surpresa para quem vai as salas de cinema apenas por mero entretenimento.

Rachel (Emily Blunt) é uma alcoólatra desempregada e deprimida que sofre pelo seu divórcio recente. Todas as manhãs ela viaja de trem fantasiando sobre a vida de um jovem casal que observa pela janela. Certo dia ela testemunha uma cena estranha e após mais uma de suas frequentes bebedeiras, ela apaga, acordando em meio a uma série de situações que fazem sua vida virar de ponta-cabeça.

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Tate Taylor já era conhecido pelos oscarizados “Inverno da Alma” e “Historias Cruzadas” e definitivamente parece ter sido um desafio e tanto fazer uma obra tão diferente dos anteriores. Porém é praticamente impossível se desvencilhar da semelhança com “Garota Exemplar“, visto as reviravoltas e final quase surpreendentes.

As atuações são um show a parte: “Blunt” no papel da alcoólatra Rachel, faz uma personagem perturbada e desgovernada sugerindo sempre um caso psiquiátrico notório. Halley Bennett e Rebecca Ferguson revezam-se como coadjuvantes de luxo instigando cada vez mais a trama entregando-se aos papéis de forma profunda, isso sem falar de Justin Theroux (The Leftovers) que ao longo da história tem sua presença crucial.

Não há como, a partir daqui, comentar alguma coisa sem se tratar como “spoiler“. Mas pode ter a certeza de que ficar grudado na cadeira não será demérito algum, uma vez que até o último momento, não se sabe realmente, quem é quem.

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mar 082016
 
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Cinezone Poster - The Witch

A mídia feita sobre o filme “A Bruxa” por si só já poderia garantir bilheteria. Com sessões excassas nas capitais, tem salas lotadas de amantes do gênero e de curiosos ávidos para assistir a obra que deixou boquiaberto até o mestre do terror Stephen King. Mas certamente o filme não agradará a todos os públicos, uma vez que foge dos clichês tradicionais e de sustos que costumam tirar os mais incautos das poltronas.

Ambientado na Inglaterra do ano de 1630 a história traz uma família de seis pessoas que após ser isolada de sua comunidade por questões religiosas passa a viver de forma mais afastada de tudo e de todos. Pai, mãe e seus quatro filhos vivem de uma precária e pequena produção agrícola juntamente com alguns animais de subsistência. Em um momento de descuido da filha mais velha, o bebê Sam é levado: em uma fração de segundos e literamente um piscar de olhos o caçula some das vistas para não mais ser encontrado. Uma crise existencial então se abate sobre o pequeno grupo e, sobre uma forte pressão psicológica, estranhos eventos malignos começam a acontecer.

Baseado em relatos da época, a produção teve um imenso cuidado em ambientar o público aos costumes locais fazendo inclusive com que o elenco falasse um inglês mais arcaico. Vestimentas e detalhes minusciosos fazem de “A Bruxa” um filme diferente dos demais, conseguindo extrair as mais diferentes sensações do espectador, do riso fácil com piadas pequenas e colocadas no timing, ao choque brutal nas cenas mais fortes fazendo com que os mais desavisados colem na cadeira.

Um filme mais parado que o normal e que pode incomodar os menos interessados em uma produção artística, mas que se revela uma grata surpresa. Principalmente na meia hora final onde os eventos mais contundentes acontecem. O ritmo que é lento inicialmente, vai ficando pesado a cada cena e a cada conflito entre os personagens trazendo tensão não somente sobre o terror, mas também sobre os fatos externos que vão dando um toque mais amedrontador e enigmático a cada momento. A inserção de elementos novos como o desgaste emocional, aliado a personalidade dos integrantes familiares que vai sendo revelada de acordo com o andar da carruagem, fazem um filme memorável e para ser comentado exaustivamente.

Uma excelente inovação e um belo impulso no gênero que anda tão carente de bons nomes ultimamente.

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fev 062016
 
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Cinezone Poster - Os Oito Odiados

A cada lançamento de filmes de Quentin Tarantino há uma expectativa enorme sobre o que o criativo diretor de “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” vai aprontar desta vez. As ideias batidas e já repetidas do cinema são repaginadas e vitaminadas, como uma calça velha e surrada se customizasse se transformasse em um artigo de luxo na última moda. Mas a ansiosa espera acabou e muitos saíram frustrados ao assistirem “Os Oito Odiados”. Já outros glorificaram mais uma vez a mão de quem consegue fazer mais do mesmo virar espetáculo.

A história nos apresenta John Ruth “Hangman”, um famoso caçador de recompensas, escoltando a fugitiva Daisy Domergue para a cidade de Red Rock, onde receberá seu prêmio por entregar a renegada a justiça. Pelo meio do caminho encontram estranhas figuras como o ex-militar Marquis Warren e o novo delegado na cidade Chris Mannix. Em meio ao caminho uma forte tempestade os atinge, fazendo com que tenham que parar em uma estalagem. Lá encontram algumas figuras esquisitas e extremamente suspeitas com quem terão que passar provavelmente algumas noites até que o tempo estabilize.

Sem sombra de dúvida, a essência de tarantinesca está presente em todos os momentos da obra mas de uma maneira diferente da usual. A transformação estranha aos olhos dos menos ávidos traz uma introspecção que as vezes chega a ser chata devido aos personagens e locais detalhados a exaustão. A abertura é digna de um grande filme de faroeste com a trilha perfeita do ícone Ennio Morricone, mas que acaba desmanchando a expectativa já na primeira hora de filme por se mostrar extremamente longa e com diálogos que poderiam ser encurtados em quase pela metade: uma das características do diretor sempre foi a descrição firme dos personagens para que o perfil psicológico fosse traçado automaticamente pelo espectador, mas este trabalho acaba por ser exagerado e até complexo chegando a confundir. Fato que acaba por deixar até irrelevante a originalíssima ideia de gravar todo o filme com um equipamento da Panavision (apenas quatro em uso hoje no mundo) que torna tudo mais “de época”.

Mas apesar do tom arrastado como é conduzido “Os Oito Odiados”, alguns elementos dão picos de interesse ao público, como alfinetadas na xenofobia americana resistente até hoje e cada vez mais revitalizada por Donald Trump em sua candidatura a eleição nos EUA: as comparações entre mexicanos e cachorros. E não para por aí. O tratamento dado a prisioneira interpretada por Jennifer Jason Leigh é digno de toda misoginia presente em nossa sociedade (ainda), ou ainda o racismo exacerbado sobre o personagem de Samuel L. Jackson que mesmo tendo servido a sua pátria mãe tem de carregar uma carta de Abraham Lincoln como se fosse uma carta de alforria para ser respeitado pelos então confederados.

Parte interessante da metade do filme para o final, onde o público reconhece o que pagou para ver, vem banhado em sangue e diálogos ríspidos em um clima de detetive, como usado no filme “Os Sete Suspeitos“. Em alguns momentos lembrando até Agatha Christie ou ainda o contorcionismo roteirizado do excelente “Deathtrap“, de 1982 (traduzido no Brasil como “Armadilha Mortal”).

De todo, “Os Oito Odiados” não chega a decepcionar um olho pouco mais clínico, mas infelizmente entedia os menos avisados. Sendo o oitavo filme de Tarantino, podemos esperar mais um bom filme nos próximos anos e um “gran finale” como despedida no décimo filme. Segundo o diretor, após dez filmes encerrará sua brilhante carreira. Só nos resta aguardar.

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jan 272016
 

Cinezone Poster - Pressagios De Um Crime

Consolo – substantivo masculino: que consola; conforto; lenitivo; consolação.

Este deveria ser o título original e traduzido para o português de “Solace“, novo thriller psicológico estrelado por
Anthony Hopkins. Não há como entender a intervenção brasileira em adaptar os títulos para cinema uma forma qualquer, imaginando que a bilheteria terá melhor rendimento. E tem?

Um serial killer está a solta. Vários assassinatos cometidos silenciosamente e da mesma forma tem acontecido deixando o FBI sem saída, a não ser buscar a ajuda de um médium para ajuda-los a solucionar todo o mistério. Uma ideia interessante e atores do primeiro escalão, mas com uma condução batida e sem surpresas ao longo de toda a história. A intenção original era fazer uma sequência de “Seven” com um dos policiais adquirindo poderes paranormais, mas a negativa na hora certa do diretor David Fincher fez com que isso não acontecesse. O brasileiro Afonso Poyart que explodiu no cinema brasileiro com o experimental (e muito bom) “Dois Coelhos” entra na contramão dos excelentes diretores brasileiros sugados por Hollywood, e acaba fazendo um filme superficial e previsível.

Impactante nas primeiras cenas e interessante até a segunda página, “Presságios de Um Crime” começa mal já no poster, onde entrega vilão e mocinho antes mesmo da estréia. Com frases de efeito e personagens caricatos, o filme vai se mostrando tão enfadonho como qualquer outra produção que não quer compromisso com o público. O roteiro acaba de confundindo com a tentativa de efeitos visuais que mais atrapalham do que ajudam. Da metade em diante não melhora: muito pelo contrário. As cenas de perseguição (típicas da “Sessão da Tarde”) que beiram o patético, onde pode se ver claramente bonecos dentro dos carros durante as colisões. A “pá de cal” vem com um grand finale de “low bullets” desnecessários, fazendo com que os Wachowski se envergonhem da própria criação e da possível lembrança da trilogia “Matrix“. Até existe a tentativa de um drama bem conduzido, deixando os personagens mais interessantes e com uma premissa bem mais açucarada, mas a condução confusa tentando a superação acabam estragando uma boa ideia.

Um grande elenco em um filme pra lá de mediano. Um diretor sem momento para grandes filmes e um desperdício de tempo que, em mãos certas fariam muita diferença. É o que serve de “consolo”.

 

 

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dez 292015
 
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A indústria americana de cinema tem seus méritos e deméritos. Sem dúvida é a maior do mundo, e justamente por isso fazer remake de sucessos unânimes acaba por desdenhar um bom desempenho. Quando em cartaz “Olhos da Justiça“, fica impossível não fazer comparações ao original e já clássico “O Segredo dos Seus Olhos“, argentino vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro.

A sinopse é praticamente a mesma: um caso de estupro e assassinato que corrói os envolvidos há anos e que em busca de uma solução que cesse a dor, é reaberto e se tem uma caça ao suposto criminoso. No original, as investigações partem de um orgão público, enquanto nesta versão um dos braços do FBI é o início da trama. O pano de fundo usado pelos americanos são os ataques de 11 de setembro e a incansável busca pela segurança nacional sempre atrás de terroristas e focos onde muçulmanos se encontram. Chiwetel Ejiofor é o investigador que traz o caso a tona para a promotoria que ainda incrédula, ajuda Jess (Julia Roberts) a encontrar o assassino de sua filha.

Não. O filme não é ruim. Porém visto que foi adaptado de uma obra prima multipremiada de Jose Campanella, fica difícil comentar sem comparar. Por vezes o diretor Billy Ray (que também é um dos roteiristas de “Jogos Vorazes”) acaba se perdendo em muitos flashbacks tentando fazer com que o público tenha certa dificuldade em entender o que realmente acontece entre uma cena de lembrança e outra. Outro ponto interessante é a escolha dos atores formando um elenco de primeira linha, mas que não engrena de jeito nenhum. Não existe sintonia entre Chiwetel e Nicole Kidman (coisa que entre Darín e Soledad Villamil chegava a pegar fogo na tela) – diga-se de passagem uma Nicole apática e sem sensualidade. A impressão é que a direção de arte teve mesmo esta intenção, pois colocar qualquer mulher vestida com roupas íntimas “beje” é no mínimo pra desanimar qualquer cidadão. Ressalvas para a “Pretty Woman” Julia Roberts que encarna muito bem o sofrimento da personagem, emocionando nas primeiras cenas: a falta de maquiagem ressalta também o que pode fazer uma boa produção feminina.

O desenrolar da trama se dá continuamente sem muitos sobressaltos, mas atende ao público que se destina. Aquele que não assistiu a versão original, terá um bom filme pela frente. Ainda assim, dê preferência pelo cinema argentino: neste caso, a primeira vez a gente nunca esquece.

 

 

Título Original: “Secret in Their Eyes”

Direção: Billy Ray