jan 302018
 
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A arte de crescer não é nada fácil. E é justamente este o tema principal de “Lady Bird”, onde uma adolescente de classe média (Saoirse Ronan) tenta se adaptar ao meio onde vive passando pelas fases e dificuldades, dúvidas e escolhas típicas da idade. Mas o pássaro prestes a bater as asas e talvez voar, tenha um pouco mais a nos dizer neste singelo filme da atriz Greta Gerwig.

Apesar de ser o primeiro filme de Greta na direção, possui traços firmes de que não fez apenas um filme de adolescentes em crise de identidade, mas também mostra que pode ter maturidade para assumir novas responsabilidades a partir daqui. Ainda que “Lady Bird” não seja auto-biográfico, muito se tem da diretora: a mãe da protagonista é uma enfermeira, tal qual a mãe da diretora também é na vida real. Em entrevistas a diretora Greta comenta que sempre teve um comportamento completamente oposto a da atriz principal e que tinha comportamentos exemplares: talvez justamente aí possam estar todos, ou a grande maioria dos paradoxos.

Além da vida adolescente de “Lady Bird” McPherson, o foco traz à tona a difícil relação com sua mãe, que revela em meio a uma das discussões que não teve uma mãe com quem pudesse dialogar francamente. Porém justamente esta é a dificuldade: tentar a aproximação com alguém tão próxima e ao mesmo tempo tão distante, tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.

Certamente “Lady Bird” bebeu em outras fontes, e de fato o espectador encontrará semelhança em outras obras. Mas com toda certeza em algum momento conseguirá se identificar (e talvez até se emocionar) com alguma passagem, e fará questão de se remeter a própria adolescência e questiona-la da mesma forma que Christine McPherson acaba por fazer. Quem nunca se arrependeu de algo, e apesar de ter voado um mundo inteiro, gostaria de voltar e fazer diferente? Talvez não melhor, mas diferente.

Definitivamente, como já falava e esbravejava o músico Belchior: “Ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais…”

jan 312017
 
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Diante tantas correrias, sangue, socos e bombas que o cinema americano atual nos proporciona, “La La Land” de Damien Chazelle vai na contramão de tudo e quase contra todos, mostrando que cinema de qualidade ainda se faz com bons atores e atrizes comprometidos com o espirito de uma boa produção, roteiro e amor a sétima arte.

Depois da pedrada de “Whiplash” em 2015, Damien nos mostra a simplicidade que pode se ter no gênero um tanto quanto esquecido e “escanteado”, mas que normalmente quando aparece faz muita graça (“Moulin Rouge“, “Chicago“, “Mamma Mia“, etc) e que ao mesmo tempo pode ser empolgante, dramático, engraçado e ainda ter um enlaces no final de literalmente tirar o chapéu. O filme “La La Land” acaba desfranzindo também muitos rostos de menos aficionados no gênero, que normalmente esperam uma obra pesada e cheia de cantorias. Não! A “cidade das estrelas” é contada com muito gosto, como se mostra na cena inicial: com um plano sequência em “travelings” comuns a magia acaba por se fazer em um dos lugares mais monótonos para os dias de hoje – um trânsito caótico. A produção também é um deleite a parte e feita com carinho, onde as roupas dos personagens vão tomando cor de acordo com cada estação apresentada durante o longa.

Obviamente Ryan Gosling e Emma Stone estão muito longe de serem comparados a Gene Kelly e Debbie Reynolds (Cantando na Chuva), ou ainda com John Travolta e Olivia Newton-John (Grease), porém há de se elogiar o empenho de ambos em trazer vida própria aos personagens. Gosling por exemplo, teve de aprender a tocar piano em tempo recorde (e de forma excelente) para não usar dublês, uma vez que iria contracenar com o músico John Legend, enquanto que para Stone dançar nunca foi atributo para seu corpo diminuto e franzino. Outra presença ilustre é a de Tom Everett Scott, que fazia o líder da banda The Wonders, no filme de mesmo nome.

Ainda o filme nos faz reviver diversos outros clássicos em pequenas gotas e em doses homeopáticas, trazendo de volta uma mágica especial mas não excepcional. “La la Land”, apelido carinhoso da cidade de Los Angeles, nos faz sonhar novamente, e em determinados momentos consegue com tanta força que pode tanto nos prender na cadeira quanto nos tirar no chão em voos e saltos longínquos: exatamente como a vida deve ser.

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ago 302016
 
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Cinezone - Pets Poster

Com mais uma animação os mesmos diretores de “Meu Malvado Favorito” trazem mais bichinhos fofinhos e muito coloridos para chamar a atenção da criançada. E por consequência do tema, dos adultos também. Curiosidade ou não, a grande maioria do público neste filme em especial é de adultos. “Pets: A Vida Secreta dos Bichos” é um longa-metragem animado inocente e bobinho mas que em alguns momentos gosta de dar algumas alfinetadas nos mais desavisados.

Conhecemos a partir de então, Max: um cachorrinho que mora em um apartamento de Manhattan. Quando sua dona traz para casa um vira-lata chamado Duke, Max não gosta nada, já que o seu tempo de bichinho de estimação favorito parece ter acabado. Mas logo eles vão ter que colocar as divergências de lado pois um coelhinho branco adorável chamado Snowball está construindo um exército de animais abandonados determinados a se vingar de todos os pets que tem dono.

A ideia de tentar demonstrar o que os animais de estimação fazem quando os donos estão fora de casa não é nova: basta procurar no YouTube vídeos de donos que penduram câmeras em seus bichinhos. Porém a produtora acerta em cheio aqueles que amam e/ou idolatram “pets”, sendo que no Brasil principalmente é um dos mercados que cresce exponencialmente além de, é claro, amaciar o coração dos mais moles desavisados. A fórmula deu certo e o filme já desponta entre os de maior bilheteria em agosto (quase um infame trocadilho com o mês do cachorro louco) e com sequência já confirmada.

Cinezone - Pets Middle
A história gira em torno do comportamento de Max, que com ciúmes, tem dificuldades de convivência com o grandalhão Duke que é desajeitado e não tem traquejo com lugares pequenos. Se conseguirmos transpor os personagens para o ambiente humano, o filme não é tão infantil quanto parece pois mostraria um mundo tão interessante e uma visão mais elite de quem apenas observa do lado de dentro da vitrine. Mas aos poucos a crítica social soft toma conta do ambiente colocando como inimigo a ser evitado um coelho maluco – que lembra muito o coelho de “Alice” – juntamente com os “maltrapilhos” maltratados pela rua (pobres, bandidos, ladrões e violentos) que acabam obviamente sendo subjugados. Mas com bons olhos também podemos assistir a diversidade entre os animais que estão juntos e confraternizando independente de raça ou cor, socializando e flertando também com a questão da acessibilidade, onde um cão mais velho e cadeirante os guia co experiência entre os atalhos da grande cidade.

Tons de cores extravagantes, muita correria, muita ação e um humor contagiante fazem de “Pets – A Vida Secreta dos Bichos” um filme sem segredos e capaz de agradar a todos: dos mais críticos aos mais descompromissados. Ah! Procure chegar cedo aos cinemas, pois antes do filme tem um curta dos Minions, outro sucesso das bilheterias (e entre as crianças e adultos, é claro).

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maio 232016
 
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Cinezone - Amores Urbanos

Os filmes nacionais de tiragem de curta bilheteria e de pouco recurso financeiro na grande maioria das vezes tem uma depreciação automática do público. Não que seja ruim, não! “Amores Urbanos” apenas acaba não se fazendo bom o suficiente para ultrapassar o limite do razoável para o comum.

A história nos apresenta três vidas em constante conflito com sua própria geração. No âmbito profissional, familiar e sexual o trio se completa e se ajuda em todas as questões de difíceis decisões exclusivas da faixa dos trinta anos onde se encontram. Ainda que com personagens interessantes, Micaela (mais conhecida como a veterana da MTV), Diego e Julia acabam sendo rasos em todas as profundidades, uma vez que sua riqueza não é explorada a contento.

amoresurbanos middle

A peculiaridade da visão feminina da diretora Vera Egito prevalece em todos os âmbitos trazendo sempre um único reflexo a ser enxergado, e acaba sendo bastante enfática neste ponto quando em uma das discussões sobre o pênis, é colocada a situação atual dos personagens (e de toda sociedade) culpada pelo patriarcalismo imposto pelo passado. E obviamente se desvencilhando em obras como esta.

Com um baixo orçamento e um mix de atores faz a experiência e o amadorismo andarem juntos, “Amores Urbanos” é único na inovação mas peca na construção. Faz uma ideia de filoginia dar certo, junto com bons profissionais de roteiro e fotografia e tendo de bom pano de fundo uma até simpática São Paulo. A presença da cantora Ana Cañas como atriz dá certo e a trilha sonora é destaque. Porém a preocupação como interagir com o público ou subtender melhor os atos e fatos dos personagens e/ou atores é deixada de lado fazendo justamente cair na vala comum dos demais brasileiros. Há esperança, sim.

 

fev 112016
 
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Cinezone MoviePoster - Joy

Coisa boa é entrar em uma sala de cinema, torcer pela personagem principal e sair com um sorriso nos lábios e a certeza de ter visto um trabalho bem feito e bem produzido. Essa certamente também será sua impressão ao assistir “Joy: O Nome do Sucesso“, um dos candidatos a prêmio na entrega do Oscar este ano.

Uma história nada fácil de ser contada: a vida e a ascensão de Joy Mangano, filha de imigrantes italianos nos Estados Unidos, que construiu seu reinado abaixo de muita briga e muito trabalho. No Brasil fatalmente ficaria conhecida como uma espécie de “Walter Mercado” (sim, ele está no IMDb!) ou do não menos famoso “zero onze 1406” que varava madrugadas apresentando as facas Guinsu ou as meias Vivarina. Pois mais uma vez David O. Russell consegue tirar leite de pedra e trazer um filme de tirar o fôlego.

Apesar de muitos fatos colocados no filme não serem reais (a meia-irmã Peggy nunca existiu na vida real) e personagens terem suas histórias de vida modificadas (o ex-marido Tony Miranne nunca foi cantor, e sim graduado em negócios), nada perde o encanto e a história linear interpretada bravamente por Jennifer Lawrence faz acontecer. Com ousadia, o diretor busca novamente sua consagrada fórmula de sucesso provada em “O Lado Bom da Vida” para mais uma vez fazer com que o público em vários momentos possa se reconhecer, não apenas pelos personagens mas também pelas situações e pelos percalços da vida. O elenco também conta novamente com Bradley Cooper e Robert De Niro que já atuaram juntos em outras obras.

Além da boa história, um bom roteiro enxuto contando o necessário em duas horas de filme fazendo o público acompanhar as neuroses da família da protagonista sem se perder nos flasbacks que buscam explicar muitas atitudes tomadas mais adiante. A trilha sonora bem escolhida também é um deleite pois além de situar uma época conseguem ser inseridas nos momentos corretos sem ser piegas. Há críticos que desdenhem a boa história aqui contada nesta biografia que mistura comédia e drama em boas doses e coloquem como algo que poderia ter sido melhor elaborada. Talvez sim. Mas não perde em momento algum o brilho da produção em geral e ao que se destina.

Não se impressione se ao final da sessão ficar com vontade de comprar o esfregão oferecido por Jennifer Lawrence, de quão boa surpresa é “Joy“. E um palpite: cedo ou tarde o filme estará sendo apresentado em cursos de administração e/ou marketing como exemplos de coragem e empreendedorismo.

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nov 052015
 
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Cinezone Poster

 

Vários adjetivos podem definir “Dope”. Porém apenas três ou quatro não seriam capazes de descrever toda a magia que este filme busca (e consegue) trazer ao espectador. A primeira impressão ao ver o cartaz é: apenas mais um filme sobre algum subúrbio negro violento dos Estados Unidos. Mas quando a sinopse aponta para três negros nerds, sendo que um deles é lésbica, outro com raízes árabes, e um competindo para entrar na mais concorrida universidade do país, a visão pode ser mudada. Quem teria coragem, ou ainda o “peito” de usar estereótipos tão batidos e ainda assim conseguir escapar dos clichês da vida moderna?

Pois a vida de Malcom e seus amigos é até pacata perto de tanta violência e distúrbios sociais na comunidade. Sofrem bullying como qualquer jovem diferente de suas idades e são perseguidos por grupos de maior “autonomia”. Até que alguns eventos em cadeia fazem com que as vidas sejam completamente mudadas e várias questões morais sejam colocadas a um ponto tal que suas decisões poderão influenciar para sempre. E de cabeça para baixo.

Este moderno expoente do novo cinema faz o público pensar ao mesmo tempo que entretém e arranca boas risadas dentro de um ambiente completamente anos 90. Pode-se fazer uma busca visual em encontrar em poucos takes, cenas de “Te Pego Lá Fora” onde todo pré adolescente gostaria de estar entre as gangues modistas, ou ainda em “Um Maluco no Pedaço” estrelado pelo então Will Smith. Minha primeira lembrança foi de “Todos Odeiam o Chris”, tanto pelo visual colorido, quanto pelas mazelas sofridas por um pré adolescente.

Fato é que o diretor Rick Famuyiwa consegue trazer mais do mesmo e ainda assim inovar com uma linguagem simples, misturando a narração em primeira pessoa e os diálogos entre os personagens uma coisa uníssona e contagiante. Não há como não torcer pelos três protagonistas. Inclusive quando estão errados. A voz inicial é de Forest Whitaker, e a trilha sonora também é um deleite sendo produzida por Pharrell Willians – além de todo visual oferecido pela produção.

Fechando como uma das grandes atrações de Cannes e levando a melhor edição de Sundance (festival que premia especialmente os melhores roteiros) não havia como esperar muita coisa diferente de um filme tão diferente, e ao mesmo tempo tão igual a tudo que já vimos. Temos até uma nostalgia “taratinesca”. Nas suas devidas proporções, é claro.

Título Original: Dope

Direção: Rick Famuyiwa

set 172015
 
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Cinezone - Ricki And The Flash Poster

Falar de Meryl Streep é quase como chover no molhado, ou ainda enxugar gelo: uma vez em cena a oscarizada atriz sempre arrebenta corações e faz de seu papel quase um ingresso a ser pago a parte. E no caso de “Ricki and The Flash” vale muito!

A rockeira Ricki há muitos anos resolveu deixar marido, família e uma vida cômoda no lar para se aventurar e fazer o que gosta: cantar, tocar sua guitarra e sair pela estrada rodando com sua banda “The Flash”. Porém após o telefonema de seu ex-marido, decide retornar onde tudo começou, pois sua filha Julie está passando por uma grande crise de depressiva pelo término do recente casamento. Sombras do passado ressurgem e a então ovelha negra da família tem que se posicionar. Nem que seja à sua maneira…

Dificilmente vemos sincronias tão grandes e ajustes tão simétricos quanto este filme de Jonathan Demme (mais conhecido pelo vencedor da estatueta de melhor ator com Tom Hanks em “Philadelphia” e pelo clássico “O Silêncio dos Inocentes“) . A roteirista do momento Diablo Cody coloca mais uma vez em pauta uma de suas experiências de vida para dar vida aos personagens. Também em outra oportunidade já fora premiada como roteirista por “Juno“, onde revela sua veia escrita no cenário hollywoodiano.

Mas as coincidências nem sempre são por acaso: Maryl Streep e Mammie Gummer que representam mãe e filha respectivamente, também são mãe e filha na vida real, o que acabou facilitando e muito as atuações transformando determinadas cenas, trazendo uma verossimilhança quase irreparável. Outro fato que acaba se tornando relevante é de que Mammie já passara por situação idêntica com seu casamento: uma separação tumultuada e nos mesmos moldes do filmado. Neste momento a metalinguagem se vê como quase obrigatória e necessária.

O filme na medida em que vai acontecendo, também vai ampliando a dimensão sem ser piegas ou cansativo dando cada vez mais emotividade e verdade aos atos (fatos). As atitudes de Ricki e o movimento de ir atrás de seus  objetivos e principalmente sua felicidade, sem olhar para trás e de ser feliz sem pedir licença se justificam a cada momento mais fortes. Meryl Streep consegue fazer uma Ricki ser simples e singular: o suficiente para ser a mãe ausente e talvez arrependida em determinados momentos, porém de cabeça erguida por ter feito as escolhas erradas. E talvez as mais certas.

“Ricki and The Flash” é um daqueles filmes sinceros e emocionantes. O final é quase apoteótico. Tanto quanto sua protagonista que dá nome a obra.

 

 

Título Original: “Ricki and The Flash”

Direção: Jonathan Demme

jul 302015
 
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Samba Poster Cinezone

 

O novo filme da dupla Olivier Nakache e Eric Toledaro, responsáveis em 2011 pelo estrondoso sucesso de “Intocáveis” – que bateu todos os números da bilheteria francesa (e com razão) – vem agora com “Samba”. A adaptação de um livro que conta a história de um senegalês que vive de pequenos trabalhos pela França atual, porém frequentemente metido em confusões acaba na seção de imigração, onde conhece a assistente social Alice. A empatia dos dois é imediata, uma vez que ambos possuem problemas pessoais e de esferas diferentes. Porém nem tudo são flores.

A ideia dos diretores franceses não é nova e tampouco original, porém o enfoque em buscar a felicidade dos imigrantes e as dificuldades de mercado de trabalho (juntamente com a xenofobia) sem parecer piegas ou pedante é um mérito. O sofrimento visto em outras produções como degradante ou até miserável, aqui não traz importado as mazelas dos países de onde são oriundos, mas sim a luta e a insistência em estar em um lugar onde há esperança. Por ínfima que seja. Porém há.

O ator Omar Sy é quem praticamente carrega o filme sobre os ombros, uma vez que os coadjuvantes pouco ajudam e fazem se parecer até os burocráticos ingleses. Destaque a parte fica por conta de Tahar Rahim que traz um pouco de graça a história, com seu drama paralelo de nacionalidade múltipla e desconhecida onde as vezes nem mesmo seu nome sabe ao certo…

O nome do filme não se justifica especificamente pela musicalidade, mas sim pelo nome do protagonista: “Samba Cissè” e pelo fato de o filme ser livremente inspirado no livro “Samba Pour La France”. Mas é claro que a trilha sonora acaba se confundindo com personagens e tornando-se uma espécie de cortina bem colocada nos episódios mais icônicos. A descontração fica por conta de Gilberto Gil, Tom Jobim, Djavan e Jorge Bem Jor (na época sem “Jor”).

Não podemos definir a obra como comédia, drama ou simples entretenimento. Mas sim como mais uma das muitas histórias do cotidiano europeu que diariamente acolhe e recebe gente de todos os países: como trabalhadores, como imigrantes, como turistas… como pessoas.

 

Título Original: “Samba”

Direção:  Olivier Nakache e Eric Toledano

maio 072015
 
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abelhas cinezone poster1

Pra quem pensa em ir ao cinema e assistir as comédias escrachadas do “Porta dos Fundos” que fizeram o sucesso no Youtube, pode desistir. Em “Entre Abelhas” temos muito mais do que piadas prontas e de simples cunho midiático: temos a ciência do amadurecimento de uma turma que hoje tem um caminho longo a trilhar. E de respeito.

Tudo começa em uma despedida de casado, onde Bruno comemora o término de seu casamento. Ele trabalha em uma produtora de vídeos e acaba de voltar para a casa da mãe (Irene Ravache), com caixas cheias de lembranças do relacionamento e de incertezas quanto ao futuro próximo. Porém o inusitado acontece: ele não consegue enxergar determinadas pessoas. Sim. As pessoas começam a ficar invisíveis (ou desaparecerem) e este número vai aumentando gradativamente até um ponto de quase desespero, onde procura ajuda para tentar entender que de errado acontece.

O mundo do personagem interpretado seriamente por Fábio Porchat é semelhante ao de muitos do nosso cotidiano e que vivem do mínimo de apego ao intimismo de se colocarem no lugar de outras pessoas (coisa rara nos dias de hoje) dando preferência em muitas vezes ao supérfluo, sem saber o que realmente importa e consequentemente sem querer, fazendo com que isso tome conta dos olhos menos atentos. Em um mundo onde vivemos cercados de tablets e celulares fantásticos podemos esquecer de que um mero “bom dia” ou “com licença” pode abrir portas e caminhos: nem tanto para si ou para seu umbigo, mas sim para com quem as vezes nem se importa tanto com ele. A problematização de muitas questões sociais e de cunho pessoal são deixados muitas vezes de lado justamente como uma fuga de realidade, que as vezes pode se tornar muito perigoso.

Sem perceber, somos cansados de ser apenas mais um na multidão e resolvemos ser ninguém. Inclusive para nós mesmos.

O filme trás ainda algumas tentativas para o público conseguir entender o que se passa com o protagonista, que trazendo um dados concretos sobre o desaparecimento inexplicável de abelhas africanas cultivadas nos Estados Unidos, consiga situar o espectador no mundo/ambiente/terreno em que pisa. Dados concretos dão conta de que pragas e uso de pesticidas estão entre as principais causas desse fenômeno.

Aqui temos a ideia de que a tragicomédia proposta pelo diretor Ian SBF não se restringe apenas a risadas perdidas, mas sim a uma profundidade bem mais complexa do que piadas sexistas vistas até hoje na Internet ou em programas de televisão dominicais. Estar “Entre Abelhas” é uma questão nem sempre de opção, mas também de sensibilidade e percepção e as vezes, até de querer. Ou não.

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abr 142015
 
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The-Humbling-Poster

 

Falar de Al Pacino é como chover no molhado. Um ator que, durante toda sua carreira interpreta a si mesmo e ainda assim consegue se salientar ante os grandes sem perder a suposta majestade, definitivamente tem seus louros merecidos. Há algum tempo nosso inesquecível “Scarface” não mostrava as unhas.

Em “O Último Ato” o ator Simon Axler está em franca decadência de público e crítica, quando resolve em um ato desesperado e de pouca (talvez muita) lucidez cair do palco em sua última peça. Após frequentes sessões de terapia via Skype, seu psiquiatra resolve interna-lo em uma clínica para reabilitação onde tem uma estada entre malucos e mal resolvidos. Logo após acaba retornando para casa e lá é recebido por sua jovem afilhada (Greta Gerwig): fã incondicional e lésbica assumida. A partir deste momento o ator começa a rever seus conceitos.

O retorno as telonas lembra em muito o recente “Birdman“, porém sem o fantástico de Iñárritu, onde a confusão ente imaginação e realidade é frequente. Neste caso o público na maior parte do tempo sabe onde pisa e consegue discernir os momentos mágicos frutos da mente, daqueles reais. Pacino ainda consegue fazer um mix de todos seus papéis memoráveis em um só, trazendo forte presença de trejeitos que o fazem lembrar sempre e em alguns momentos buscando até (sacrilégio) Woody Allen a lembrança.

Um novo filme pode trazer um novo pulmão para o ator que consegue circular sem problemas entre o drama e a comédia com uma incrível rapidez que pouco se vê fazendo, com que o público se identifique em diversos momentos (a impagável parada na clínica veterinária). A versatilidade é indiscutível dando mérito também ao diretor que, entre câmeras distantes e primeiro plano consegue fazer bem a tradução da obra do escritor Philip Roth. Em certos momentos “O Último Ato” pode parecer cansativo, massante e por vezes até sonolento porém sempre grandioso, como o sempre Al Pacino.

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