nov 032018
 
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Visceral é a palavra que descreve bem “Nasce Uma Estrela”.

Apesar de ser um remake, o filme estrelado por Bradley Cooper e Lady Gaga avassala corações e os mais sensíveis neste “quase” drama musical. Ainda que olhos estivessem atentos e bocas ficassem tortas antes da estréia, nas primeiras cenas temos crédito o suficiente para entender que teremos um filme inesquecível sentimentalmente.

O famoso cantor e músico Jackson Maine (Cooper) encontra sem querer uma parceira para sua longa e sólida carreira, tanto musical quanto de vida. Sua nova musa Ally (Gaga) entende que essa é sua chance de sair do anonimato. Juntos a trilha do casal é problemática uma vez que ele possue sérios problemas com o álcool e que acabam comprometendo tanto carreiras, quanto vidas.

Logo nas primeiras cenas temos Ally com uma interpretação própria de “La Vie En Rose” da diva Edith Piaf em uma boate burlesca. Há dúvidas quanto a sua versão do clássico, mas não há dúvidas quanto ao talento de Lady Gaga como cantora. Sua versão atriz é boa, mas não verossímil e deixa escapar que é esforçada, mas não performática o suficiente para um papel tão intenso. A primeira opção para o papel seria de Beyoncé, que não conseguiu assumir o papel em prol de outros compromissos.

Em contrapartida Bradley Cooper é a cara da verdade. Um papel duro e com uma amargura profunda e sofrida que se consegue sentir nos primeiros momentos e também na voz embargada do ator (que canta todas as músicas). Nas vésperas da estréia do filme o ator falou publicamente de sua drogadição e alcoolismo anos atrás, vivenciando novamente a experiência e que o personagem acabara por se tornar seu alter ego.

A magia funciona não como um casal, mas sim quando entram em cena para colocarem seus prodígios frente aos microfones e ao público. Prepare-se para um oceano de lágrimas e a emotividade a flor da pele. Gaga e Cooper arrancam sorrisos e um choro compulsivo de forma tão fácil quanto quanto se dedilha um teclado escrevendo este texto.

Não há como não sem se emocionar.
E vale cada olhar marejado.

 

 

abr 212018
 
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Quando leio na sinopse do filme: “série original Netflix”, ainda faço cara feia. Apesar de o canal de streaming já ter produzido boas séries e com relativo sucesso de público como “House Of Cards” e “Orange Is The New Black“, a impressão é de que sempre falta algo para completar a película. Já na linha de documentários não há questionamentos. Mas neste caso específico, o filme “Órbita 9” não escapa destes incompletos e quase competentes, ainda que traga questões importantes e presentes hoje para nosso futuro como ética, biomedicina e clonagem humana.

Helena (Clara Lago) está confinada em uma nave espacial aguardando a chegada de uma missão de sobrevivência em outro possível planeta colonizável, desde que nasceu. Ela ainda não sabe, mas faz parte de um teste científico. Tudo muda em sua vida quando a ventilação de seu ambiente deve ser consertada por um engenheiro visitante de outra estação: surge uma atração inevitável. Mas essa repentina paixão pode colocar em risco o experimento e redefinir o destino das pesquisas. E até da humanidade.

A ideia é extremamente vantajosa e de uma ótima premissa para diversos assuntos e temas, infelizmente mal aproveitados. A quantidade de lacunas e pontas soltas em todo o filme (do início a fim) chegam a desanimar já nas primeiras cenas onde a atriz principal se apresenta ao público como uma mulher de vinte anos sem experiências “terrenas”: apenas informações dadas por vídeo pelos seus pais biológicos e por uma voz robótica fazem sua vida interna. Em um espaço reduzido e com informações limitadas, a personagem é esperta demais para o nosso mundo fazendo com que caia a cortina de um ser em cativeiro completo.

Mais adiante entra em sua vida o engenheiro Alex Kubic (clara alusão ao criador de “2001: Uma Odisseia no Espaço“), onde em questão de horas se apaixonam e trazem a tona um sentimento de ambos os lados talvez nunca percebidos. O que também acaba causando estranheza ao público uma vez que toda a “nave” está vigiada e somente aqueles momentos é imperceptível aos sensores. Dentre outros tantos detalhes que vão ficando para trás, que a obra acaba ficando chata e fora do âmbito que poderia. Personagens mais trabalhados e uma direção de atores ausente acabam fazendo uma grande diferença.

Também a questão de ética é bastante presente no filme: uma vez que se fala em existência da humanidade, o foco fica extremamente paralisado em seus protagonistas como se fossem os únicos que importassem para o restante do universo. No final esta individualidade acaba sendo o calcanhar de Aquiles de toda a produção. Pois se a sua órbita é a de número nove, somente o destino dela redefine a de todas as outras?

Ao menos agora já sabemos que a Espanha/Colômbia sabem fazr filmes de ficção.

Se pudéssemos o combinar com o drama já produzido, seria espetacular.

jul 262017
 
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Antes era difícil falar. Difícil de encontrar uma linguagem nas telas onde se conseguisse exprimir um sentimento ou uma sensação, e para tanto os diretores e roteiristas usavam de subterfúgios e metáforas tentando exemplificar as vezes o inexplicável. E sem dúvida Terrence Malick é um mestre na arte de fazer entender o incompreensível e confundir ainda mais o que as vezes é inexplicável. Porém em “De Canção em Canção” ele passa por muito do que os novos e antigos diretores tem passado: a difícil arte de falar fácil.

Em meio a cena musical de Austin, no Texas, dois casais partem para o desconhecido tentando encontrar a si mesmos – os compositores Faye e BV, e um magnata da música (Michael Fassbender) com uma garçonete – mas nem sempre o escuro pode ser confortável como se imagina. Perdidos em suas próprias vidas, acabam usando outras como muletas para chegarem onde seus corações mandam (ou exigem).

“De Canção em Canção” engana muito logo na primeira impressão pois trás um poster que lembra em muito filmes como “The Wonders” e “Sing Street, ou ainda a capa de um disco do U2. Mas esqueça qualquer tipo de referência a estes ícones mais agitados, pois a história é bem outra: apesar do filme ter uma trilha sonora deveras interessante e bem produzida combinando com o trabalho de primeira linha com a direção de arte, e ainda a câmera solta aliada a uma excelente trabalho de fotografia não compensam as duas horas de roteiro longo e arrastado onde até algumas cenas importantes chegam a chorar na tela de tão lamuriosas.

Uma expectativa que ficou muito aquém do esperado foi a de Ryan Gosling (hoje o queridinho de Hollywood) – quem tem variado entre bons trabalhos (La la Land) e alguns tropeços sem motivo (Dois Caras Legais) – que parece ter a mesma cara em todas as cenas, não conseguindo em momento algum entrar no filme. Apesar do elenco oscarizado de Natalie Portman, Rooney Mara, Cate Blanchett, dentre outros também importantes, a coisa continua no mesmo ritmo por ininterruptas e longas duas horas de duração. O que pode diferenciar e talvez chame mais atenção do que as próprias estrelas cinematográficas, são as presenças (quase) insólitas de Iggy Pop, Red Hot Chili Peppers, Patti Smith e uma aparição sem motivo de Val Kilmer. É quase como assistir a um filma da Marvel, só pra procurar o Stan Lee em alguma cena. Uma pena.

Malick fica tão modesto em seus detalhes que realmente não são percebidos. Não há como. Menos ousadia na próxima vez, Malick. Menos. Bem menos. Minhas sinceras desculpas aos adoradores de filmes arrastados e contemplativos, mas esse passou dos limites…

jan 232017
 
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Uma pitada de “Alien” (bem pequena), um rápida passagem até “2001” (mas muito rápida), mais uma piscada (bem de lado) para “Gravidade” e um último toque de “Armagedon” e teremos “Passageiros“, de Morten Tyldum. Uma receita que na foto do livro de receitas parece deliciosa, mas que quando sai do forno, murcha e abatuma na hora.

A história conta sobre dois passageiros que acordam 90 anos antes do tempo programado durante uma viagem de rotina no espaço. Sozinhos eles tem de conviver com a situação que tem em mãos, além de buscar soluções para que consigam chegar ao destino sem maiores problemas, juntamente com os demais cinco mil humanos que ainda estão hibernando.

O que provavelmente era uma boa ideia se perdeu profundamente num roteiro bastante frouxo e previsível. A presença de dos queridinhos do momento Jennifer Lawrence e Chris Pratt, os transforma de astros em meros pastelões frente a uma descabível história, por vezes até contada sem muito ânimo (percebe-se nas entrelinhas). Por vezes a obra tem espasmos de lucidez, quando tenta fazer com que as viradas toquem em símbolos básicos de uma boa história, fazendo com que se entenda que logo ali, tudo aquilo que se espera realmente aconteça quebrando constantemente o clímax das cenas que tentam ser interessantes.

Nem tudo se perde uma vez que temos algumas referências a outros filmes do gênero e também os nomes dos personagens são claras alusões aos ícones do sci-fi como o android Arthur, sendo homenagem clara a Arthur C. Clarke, por exemplo. Este mesmo ambiente refaz quase que perfeitamente uma das cenas clássicas de “O Iluminado“, onde o protagonista preso e perdido conversa com o barman (que está trajado como no filme de 1980). Já o nome de “Aurora” foi colocado justamente por se tratar do mesmo nome da “Bela Adormecida”. E por aí vai…

Não é a toa que “Passageiros” estava desde 2007 na “blacklist” dos roteiros mais “não filmáveis” de Hollywood, uma vez que sempre fora considerado de difícil acesso devido à inúmeras inconsistências.

 

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jul 292016
 
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Julieta Poster

Normalmente os bons diretores tem suas características explicitas: Kubrick com sua notória perspectiva, Woody Allen e sua relação de amor e ódio com Nova Iorque, Guy Ritchie com os “slow motions”, Tarantino e seus diálogos inteligíveis, e claro, Almodovar sempre com sua fixação materna mal resolvida.

Com esse tema ele segue conseguindo arrebatar corações por onde passa e ainda por cima fazer belas imagens cheias de cores e cubismos, personagens abstratos e ao mesmo tempo extremamente bem construídos. É o caso de “Julieta”.

Julieta vive em Madri com sua filha Antía. Ambas sofrem em silêncio por conta da perda de Xoan, pai de Antía e marido de Julieta. Mas, quando a dor não aproxima as pessoas, ela separa. Quando Antía completa dezoito anos, ela abandona a mãe sem dar explicações.

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Não esperem um clássico como “Fale Com Ela” ou ainda uma explosão de direção como em “A Pele Que Habito”, mas sim um Almodovar mais capaz de tentar entender o universo da perda e da então ausência em vida (que talvez seja até pior que a própria morte). As analogias continuam como sempre, uma vez que a protagonista é professora de literatura clássica e também o cuidado permanente com a indumentaria (marca registrada do diretor).

“Julieta” é um filme tocante e de uma sensibilidade extrema trabalhada com primor de quem o sabe fazer. Certamente assistindo apenas uma vez, não será possível absorve-lo por completo. Um expoente do cinema espanhol.

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maio 312016
 
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Cinezone Poster - Ponto Zero

“Pode falar tudo que quiser aqui, né? – Sim. Só não pode mentira e palavrão… – Então eu queria falar do espaço, sim e de uma espaçonave. – E não é chato? Aquilo tudo escuro, cheio de pontos brilhantes no céu, e o pior: infinito?” E com uma gigantesca metáfora “Ponto Zero” se apresenta ao seu público: uma obra causticante e ao mesmo tempo cheia de nuances líricas, uma história simples e didática, sendo ao mesmo tempo contundente e lépida ao ponto de deixar o espectador mais desinteressado no mínimo com um bom número de interrogações.

O protagonista é o menino Ênio, um pré-adolescente que como todos os outros começa a descobrir dentro e fora de casa que a viva não é tão simples como parece, e que o refúgio do lar pode não ser o melhor abrigo, nem mesmo a rua pode vir a ser tão perigosa. A relação com os pais é distante e ao mesmo tempo claustrofóbica: de longe ele assiste um casamento em ruínas onde sem querer acaba sendo um pivô sem ação prática, onde se bate sem querer e se quebra sem notar. As coisas que vão acontecendo ao seu redor vão sempre tomando proporções gigantescas e metamórficas as vezes chegando nem sempre a um final esperado.

A construção de “Ponto Zero” é de primeiríssima linha tanto no técnico quanto no lúdico. O diretor José Pedro Goulart não inova tecnicamente, mas traz de volta o cinema clássico e cult onde o pensar é mais importante do que agir, onde o interpretar o que foi dito é uma difícil missão pois as variáveis são infindáveis. A psicanálise é seu maior triunfo, com um trabalho de imersão dos personagens (que não sabem que estão imersos). O experimentalismo também está presente na obra uma vez que os atores recebiam seus scripts apenas momentos antes das cenas serem gravadas.

Todo gravado em Porto Alegre chega a lembrar o início de Jorge Furtado, onde a crítica social era profunda (“Ilha das Flores” e “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda” – também de Goulart), tendo passagens pela Avenida Farrapos, Voluntários da Pátria, dentre outras que trazem o pulsante Bairro Floresta no coração. Goulart nos aponta uma capital de altos e baixos, uma cidade que pode ser de sexo ou de poesia, do sebo nas canelas ou do simples caminhar a esmo. Capital da educação privilegiada nas escolas e da ignorância provinciana no trânsito caótico. Literalmente colocam a capital de todos os gaúchos “de ponta-cabeça”.

Um filme com um “Ponto Zero” no nosso cinema gaúcho. Uma vontade de fazer cinema e mostrar como se faz, para que gosta e para quem quer gostar de um cinema realmente bem feito, com amor e dedicação trabalhada no âmago das artes que a tela deve trazer.

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maio 232016
 
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Cinezone - Amores Urbanos

Os filmes nacionais de tiragem de curta bilheteria e de pouco recurso financeiro na grande maioria das vezes tem uma depreciação automática do público. Não que seja ruim, não! “Amores Urbanos” apenas acaba não se fazendo bom o suficiente para ultrapassar o limite do razoável para o comum.

A história nos apresenta três vidas em constante conflito com sua própria geração. No âmbito profissional, familiar e sexual o trio se completa e se ajuda em todas as questões de difíceis decisões exclusivas da faixa dos trinta anos onde se encontram. Ainda que com personagens interessantes, Micaela (mais conhecida como a veterana da MTV), Diego e Julia acabam sendo rasos em todas as profundidades, uma vez que sua riqueza não é explorada a contento.

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A peculiaridade da visão feminina da diretora Vera Egito prevalece em todos os âmbitos trazendo sempre um único reflexo a ser enxergado, e acaba sendo bastante enfática neste ponto quando em uma das discussões sobre o pênis, é colocada a situação atual dos personagens (e de toda sociedade) culpada pelo patriarcalismo imposto pelo passado. E obviamente se desvencilhando em obras como esta.

Com um baixo orçamento e um mix de atores faz a experiência e o amadorismo andarem juntos, “Amores Urbanos” é único na inovação mas peca na construção. Faz uma ideia de filoginia dar certo, junto com bons profissionais de roteiro e fotografia e tendo de bom pano de fundo uma até simpática São Paulo. A presença da cantora Ana Cañas como atriz dá certo e a trilha sonora é destaque. Porém a preocupação como interagir com o público ou subtender melhor os atos e fatos dos personagens e/ou atores é deixada de lado fazendo justamente cair na vala comum dos demais brasileiros. Há esperança, sim.

 

fev 052016
 
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Cinezone Poster - The Danish Girl

Quem assiste a “A Garota Dinamarquesa” sem saber do contexto, imagina que pela capa o filme seja mais uma daquelas comédias românticas onde a protagonista se apaixona pelo melhor amigo. Mas comete o grande erro de julgar o livro pela capa. A história de Lili Elbe foi um choque para a sociedade européia nos meados de 1830 onde a sexualidade era desencorajada e muito mais pudica, para não dizer hipócrita e até proibitiva em certos ambientes. A simples citação da palavra “sexo”, ou ainda qualquer pintura ou quadro referente ao mesmo poderia escandalizar.

O filme de Tom Hoper é uma obra bem feita e com uma essência em que os fatos vão lentamente sendo apresentados e com uma sequência em que o espectador fique confortável ao assistir uma história baseada em fatos reais. A ambientação simples e sem muita ênfase em grandes planos faz com que os pormenores sejam valorizados, fazendo com que, quando uma sequência um pouco mais longa seja colocada em prática seja apreciada de maneira total e privilegiada.

Mas o grande espetáculo do filme está nas atuações. Quando Eddie Redmayne foi escalado para interpretar o inglês Stephen Hawking a grande ideia era encontrar alguém com uma grande semelhança física (trocadilho infame) e que suprisse a primeira necessidade de “A Teoria de Tudo” – Eddie surpreendeu tanto que acabou levando a estatueta dourada. Mas quando se imaginava que este seria seu único e derradeiro papel, ele surpreende novamente e faz um introspectivo Einer Wegener, onde ao mesmo tempo a dor e o descobrimento são tão constantes e intensos no personagem que fazem o público respirar ofegante. Os demais papéis também tão bem encaixados como os de Alicia Vikander (a esposa compreensiva) e Mathias Schoenaerts (o legítimo canastrão) completam o quadro.

Depois de assistir “A Garota Dinamarquesa”, o quase certo prêmio de melhor ator será mais uma vez colocado em xeque. Se a escolha dependesse de minha opinião, Eddie Redmayne levaria o Oscar novamente este ano, afundando mais uma vez o navio de DiCaprio.

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dez 152015
 
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Cinezone Poster - By The Sea

Na França dos anos setenta, o escritor Roland (Brad Pitt) e sua esposa Vanessa (Angelina Jolie) decidem fazer uma viagem para uma cidade litorânea, com a finalidade de que o bloqueio criativo dele desemperre tanto quanto seu casamento que após quatorze anos parece estar afundando cada vez mais, visto a depressão sem fim de sua amada.

O novo filme da atriz Angelina Jolie faz um retrato de muitos relacionamentos que, em vias de fim, procuram reciclar idéias e pensamentos para alavancar um novo começo, esquecendo das amarguras e dos percalços que a vida deve trazer. Mais uma vez atuando com seu marido Brad Pitt, Jolie (que também é responsável pelo cuidadoso e bem escrito roteiro) acerta a mão em um filme de difícil aceitação para um público mais ávido por enlatados como “Sr. e Sra. Smith“, onde a pancadaria e tramas sem sentido dão lugar a sensibilidade e a visão mais intensa dos seres.

Duas horas podem entediar os mais inquietos, porém para os mais interessados na sétima arte a tela oferecida se transforma em um deleite e tanto mostrando a maturidade dos “queridinhos da América”, quanto na atuação dele quanto na escrita e estudo dela.

Detalhes são em muitos momentos a chave para muitas perguntas que a obra coloca, e que na medida certa vão sendo desvendados pouco a pouco. Desde os olhares entre os atores, a posição de determinados objetos e até as cores são parte fundamental deste quebra-cabeças quase onírico. Outro ponto alto são as metáforas oferecidas praticamente em todos os diálogos. E em todo esse tempo de filme, as cenas se passam basicamente dentro do quarto do casal: uma habilidade sensacional para manter um público interessado é necessária, e há êxito em cada tomada.

Também a parte técnica funciona muito bem: com uma fotografia sólida e homogênea marcando passagens de tempo e delimitando situações, com uma trilha sonora básica e essencial, com uma sonoplastia impecável, e ainda com uma direção de elenco que faz com que os coadjuvantes dancem um belo “ballet” dosados com sabedoria.

Um filme intrigante e muito bem feito. Elogiável tanto tecnicamente quanto atuado com vontade de uma produção intocável. Talvez não venha a agradar todos os públicos por parecer moroso em determinado tempo, o que não tira o brilho do complexo montado para os amantes do cinema.

Título Original: “By The Sea

Direção: Angelina Jolie Pitt

fev 192015
 
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Ir ao cinema guiado pela curiosidade e também pelo estrondoso sucesso nas livrarias do “Cinquenta Tons de Cinza” não é nenhum demérito. Mas não somente por isso, também pela repercussão extremamente contraditória: um sucesso de bilheteria e um fracasso retumbante pela crítica especializada. Dificilmente adaptações de livros para cinema ficam boas, e este é mais um exemplo de como NÃO fazer.
Como se já não bastasse a temática ser batida, nos cinemas ela consegue arrebentar com qualquer definição de masoquismo, sadismo, bondage, fisting, ou qualquer outra prática sexual diferente do usual. Uma jovem de vinte e poucos anos, virgem e com cara de insossa tem que fazer uma entrevista para a faculdade com o Sr. Grey, um grande figurão dos negócios de também menos de trinta anos. As perguntas feitas durante esse pouco tempo lembram trabalhos de segundo grau, ainda que pouco importem para a relevância do contexto. Aí já pode-se deduzir a bomba que está por vir…

Os atores escolhidos são completamente assépticos, e sem emotividade como bonecos de cera: sem expressão, sem estarem conectado um com o outro, e nem ao menos demonstram empatia entre eles (quem dirá com o público). Os diálogos são vazios e por vezes desconexos tanto com o roteiro, quanto com a realidade: muitas coisas simplesmente acontecem sem ter motivo, ou ainda surgem de lugares em que nunca estiveram: em um dos encontros do Sr. Grey e de Anastasia Steele ela pergunta a ele sobre fazer amor. Ele responde que não faz amor, apenas “fode” e “com força”. Seria cômico, se não fosse tão trágico.

Há ainda quem possa fazer um pequeno paralelo ao não menos fraco “Crepúsculo“. Porém a coisa é tão mal feita, tão mal encenada, e tão cheia de furos e mal contada, que quase transformam Edward e Bella em clássicos modernos (argh!).

E assim o tudo vai se arrastando em pouco mais de desnecessárias duas horas de filme. As tão esperadas cenas de sexo e sado-masoquismo que permeiam a obra de E.L. James no seu contexto original são tão enfadonhas que não são capazes de chamar a atenção de um pré-adolescente: certamente seria mais fácil se excitar com catálogos de lingerie em uma revista do Avon

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