abr 072015
 
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TheFall_OMPC

 

Quando se sabe do lançamento de uma série policial, a primeira ideia que temos é: “mais uma de detetives e serial killer como as outras… mais um CSI (Miami/Nova York/Cyber), mais um Criminal Minds, Law & Order, Cold Case, apenas mais uma série tão longa e pouco interessante quanto as outras. Mas às vezes surge uma luz no final do túnel. Desta vez ela veio com “The Fall”.

Um tanto quanto diferente dos demais seriados, a trama se passa em Belfast na Irlanda do Norte onde a detetive Stella Gibson é a responsável por caçar um assassino metódico. O vilão é um pai de família acima de qualquer suspeita: (interpretado por um Jamie Dornan muito distante do apático Sr. Grey de “Cinquenta Tons de Cinza”) casado e pai de dois filhos, trabalha durante a noite onde pode encobrir seus assassinatos e modo operante. Durante a caçada, eventos paralelos vão acontecendo com um limiar muito pequeno tanto para a polícia quanto para o maníaco, e a tendência é que as linhas se cruzem com o andar da carruagem, acirrando ainda mais a luta entre o “gato e o rato”.

Os seriados produzidos pela BBC geralmente são bem produzidos e costumam primar pela qualidade, e em “The Fall” não é diferente. O gélido ambiente do norte irlandês vem a calhar com a frieza dos assuntos e com a meticulosidade nas intenções. Como em uma das falas da detetive Gibson: – o diabo está nos detalhes. A detetive é um elogio, sendo que a intérprete é a ótima Gillian Anderson. Já conhecida em seriados do tipo por “Arquivo-X” e mais recentemente como a psiquiatra do canibal em “Hannibal“, ela é uma estrela a parte que revigora o personagem da mulher de ferro: impenetrável, imponente e sem piedade, ao mesmo tempo tendo a fragilidade suficiente para separar o correto do justo, e o certo do coerente.

Ainda há, utilizando a figura de Gillian Anderson, um cuidado na personificação da mulher tanto em situações de risco, quanto na necessidade de valorização do ser como potencial e vivo, capaz de enfrentar riscos e assumir posições de frente e comando. Porém ao mesmo tempo que não deixa de ser o sexo frágil na condução de assuntos mais pertinentes a feminilidade (demonstrados em diversos aspectos como pintura das unhas, poder de sedução usado a seu favor, violência sendo combatida com inteligência e meios legais, ou ainda os pequenos detalhes de roupas e cabelos, que não escapam a direção nem aos continuistas).

Há quem diga que a mini-série da Rede Globo “Dupla Identidade” é uma cópia descarada da obra de Allan Cubitt. Se for, a fonte de inspiração é excelente, porém é uma pena o acervo ser tão pequeno vista a riqueza de criatividade de um país como o Brasil. Hoje, salvo raras exceções como Luther (que está sendo “americanizada” para 2016), The Killing (adaptação da dinamarquesa “Forbrydelsen” – e que felizmente parou na terceira temporada) e a espetacular “True Detective”, dificilmente encontramos uma série tão bem produzida e conduzida. Já está prevista a terceira temporada para 2016.

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mar 312015
 
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OMPC_Hannibal Poster

Quando da estréia de “Silêncio dos Inocentes” em 1991, o filme nos apresentou um dos psicopatas mais intrigantes do cinema: Hannibal Lecter. Com uma história egressa de violência e traumas psicológicos o médico psiquiatra inicialmente foi muito bem interpretado por Anthony Hopkins que criara um personagem extremamente inteligente e manipulador, com um âmago metódico e capaz das mais controversas tramas para alcançar seus objetivos (ou fazer com que não sejam alcançados por ninguém além dele mesmo). Tamanho foi a aceitação do assassino pelo público, que mais três filmes (Hannibal, Dragão Vermelho e Hannibal Rising) foram criados e adaptados em cima do carisma pelo mórbido, além de “Manhunter”, criação esquecida de 1986 que trazia Brian Cox como protagonista.
Anunciada a criação de uma série intitulada “Hannibal”, fãs e cinéfilos logo torceram o rosto pois tocar em um personagem tão icônico seria extremamente perigoso, e ainda mais sendo criado especialmente para a televisão ao invés da telona. E o pior: quem fará o monstro? Quem poderia ter um perfil que não transbordasse a ponto de ridicularizar, e também não ficasse tão apagado com o risco de ser denegrido por uma crítica feroz e fatalmente esquecido por fãs? A escolha então feita pelo ator Mads Mikkelsen, já conhecido por bons filmes como “Cassino Royale” e “A Caça”, trouxe em sua bagagem uma nova roupagem para o doutor. E não decepcionou.

O dinamarquês vem com um refinado e alinhado psicopata, que atende em seu consultório propensas pessoas com dúvidas e distúrbios de personalidade, a quem ajuda a sua maneira: potencializando a violência e o instinto assassino de cada um, fazendo com que cumpram mortes e por vezes sejam cúmplices de suas carnificinas para depois obviamente, fazer com que suas vítimas sejam servidas em verdadeiros banquetes a seus convidados. A série ainda traz um elenco escolhido de forma minuciosa como Laurence Fishburne (chefe do FBI), Hugh Dancy (agente especial) e Caroline Dhavernas (psicóloga) e também profissionais capazes de fornecer suporte tecnicamente.

Mas nem tudo são flores e a série inicia arrastada e com uma narrativa confusa, chegando até a ser ameaçada de
cancelamento pela baixa audiência. Porém assim como o psicopata, a trama vai evoluindo e elucidando personagens bastante complexos a ponto de manter-se a dúvida entre o real e o imaginário, fazendo com que o público ficasse curioso pelo desfecho. Mas ainda assim a falta de ação e agilidade das cenas deixou a série arrastada. Para a segunda temporada foi tentado resolver o problema, complicando ainda mais a trajetória dos fatos, porém mantendo as dúvidas pertinentes a qualquer suspense: como, quando, onde e porquê?

Muito ficou para ser resolvido na terceira temporada. Quem sobreviveu as emboscadas de Hannibal Lecter? E ainda assim, alguém ficou ileso ao ponto de não se deixar envolver psicologicamente novamente? Os novos personagens já contratados para a nova temporada farão a diferença?

Ainda não sabemos a trajetória da série frente a guerra pela audiência americana, onde o mais importante é o retorno financeiro e não necessariamente a qualidade das produções. Há indícios que a história continuará bebendo da fonte do escritor Thomas Harris e também seguirá os filmes onde o psicopata já apareceu, consequentemente levando o anti-herói e protagonista ao apogeu, chegando quem sabe a apoteose divina de “silenciar” novamente os inocentes…

 

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jan 272015
 
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TMPC_American Sniper

A maturidade dos temas abordados nos filmes de Clint Eastwood são notáveis, desde que resolveu enveredar definitivamente na carreira de diretor. Não desvalorizando seus feitos como ator (Os Imperdoáveis, Cavaleiro Solitário, Dirty Harry, Alcatraz: Fuga Impossível, dentre outros) mas sua mão firme atrás das câmeras são de muito mais valia tanto para a indústria cinematográfica quanto para quem busca entusiasmado assistir sua próxima obra. Outra marca registrada do diretor é o patriotismo exacerbado. Em “Sniper Americano” vemos um pouco de cada parte disso.

O soldado Chris Kyle (Bradley Cooper) é um exímio atirador, e peça fundamental nas investidas americanas no Iraque. Vindo de uma modesta e tradicional família, Kyle é um jovem que não tem muito futuro como cowboy (seu sonho de menino) e, impulsionado por um ufanismo sem precedentes resolve se alistar para ajudar seu país. A constante presença nas guerras faz com que sua vida familiar não se estabeleça e gradativamente frequentes ataques de paranóia não o deixe ter uma vida social tranquila.

Em alguns momentos da trama nota-se o dedo do diretor (spoiler): em uma das primeiras cenas, o pai dos meninos (Chris e seu irmão menor) discursa a mesa sobre quem são e como sobrevivem dentro daquela casa usando uma metáfora de lobos e cordeiros, fazendo claramente uma analogia as intervenções americanas em outros países se justificar pela soberania da justiça cega e da liberdade incondicional.

O fato de o roteiro ser adaptado de uma literatura biográfica, faz com que o filme em certos momentos seja arrastado e por momentos até sonolento, sendo que muitos outros temas poderiam ser abordados com profundidade (influência dos quadrinhos, questões psiquiátricas, relações familiares e suas consequências, a política americana frente as ações militares, fanatismo religioso, etc, etc) e deixam de ser mais comentados, visto a tentativa de fidelidade ao livro. Outra situação clara que se consegue entender somente nos créditos finais é que o único motivo para a escolha de Cooper como protagonista é a semelhança física com o próprio Kyle. Porém apesar de esforçado não traz carga emotiva ao personagem e nem consegue transmitir muita coisa ao público.

Apesar de ter bilheteria recorde nos Estados Unidos (batendo inclusive Avatar) na estréia, tem causado furor na mídia e entre os pais de crianças e adolescentes e demais associações armamentistas quando falam que o filme exalta um assassino, ou ainda sobre a covardia do atirador (comentário de Michael Moore, documentarista de “Tiros em Columbine“). Contra este avalanche de críticas, produtores de Hollywood comentam que ninguém reclama das altas audiências de seriados como Dexter e Hannibal, ou ainda do anti-herói e traficante de drogas Walter White, de Breaking Bad.

Caso “Sniper Americano” tenha alguma premiação este ano, certamente será técnico (montagem / som / roteiro adaptado) tão e somente, pois nas demais categorias tem concorrentes muito superiores. Sou fã da obra do diretor Clint Eastwood, mas desta vez não convenceu.

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