fev 112016
 
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Cinezone MoviePoster - Joy

Coisa boa é entrar em uma sala de cinema, torcer pela personagem principal e sair com um sorriso nos lábios e a certeza de ter visto um trabalho bem feito e bem produzido. Essa certamente também será sua impressão ao assistir “Joy: O Nome do Sucesso“, um dos candidatos a prêmio na entrega do Oscar este ano.

Uma história nada fácil de ser contada: a vida e a ascensão de Joy Mangano, filha de imigrantes italianos nos Estados Unidos, que construiu seu reinado abaixo de muita briga e muito trabalho. No Brasil fatalmente ficaria conhecida como uma espécie de “Walter Mercado” (sim, ele está no IMDb!) ou do não menos famoso “zero onze 1406” que varava madrugadas apresentando as facas Guinsu ou as meias Vivarina. Pois mais uma vez David O. Russell consegue tirar leite de pedra e trazer um filme de tirar o fôlego.

Apesar de muitos fatos colocados no filme não serem reais (a meia-irmã Peggy nunca existiu na vida real) e personagens terem suas histórias de vida modificadas (o ex-marido Tony Miranne nunca foi cantor, e sim graduado em negócios), nada perde o encanto e a história linear interpretada bravamente por Jennifer Lawrence faz acontecer. Com ousadia, o diretor busca novamente sua consagrada fórmula de sucesso provada em “O Lado Bom da Vida” para mais uma vez fazer com que o público em vários momentos possa se reconhecer, não apenas pelos personagens mas também pelas situações e pelos percalços da vida. O elenco também conta novamente com Bradley Cooper e Robert De Niro que já atuaram juntos em outras obras.

Além da boa história, um bom roteiro enxuto contando o necessário em duas horas de filme fazendo o público acompanhar as neuroses da família da protagonista sem se perder nos flasbacks que buscam explicar muitas atitudes tomadas mais adiante. A trilha sonora bem escolhida também é um deleite pois além de situar uma época conseguem ser inseridas nos momentos corretos sem ser piegas. Há críticos que desdenhem a boa história aqui contada nesta biografia que mistura comédia e drama em boas doses e coloquem como algo que poderia ter sido melhor elaborada. Talvez sim. Mas não perde em momento algum o brilho da produção em geral e ao que se destina.

Não se impressione se ao final da sessão ficar com vontade de comprar o esfregão oferecido por Jennifer Lawrence, de quão boa surpresa é “Joy“. E um palpite: cedo ou tarde o filme estará sendo apresentado em cursos de administração e/ou marketing como exemplos de coragem e empreendedorismo.

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fev 062016
 
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Cinezone Poster - Os Oito Odiados

A cada lançamento de filmes de Quentin Tarantino há uma expectativa enorme sobre o que o criativo diretor de “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” vai aprontar desta vez. As ideias batidas e já repetidas do cinema são repaginadas e vitaminadas, como uma calça velha e surrada se customizasse se transformasse em um artigo de luxo na última moda. Mas a ansiosa espera acabou e muitos saíram frustrados ao assistirem “Os Oito Odiados”. Já outros glorificaram mais uma vez a mão de quem consegue fazer mais do mesmo virar espetáculo.

A história nos apresenta John Ruth “Hangman”, um famoso caçador de recompensas, escoltando a fugitiva Daisy Domergue para a cidade de Red Rock, onde receberá seu prêmio por entregar a renegada a justiça. Pelo meio do caminho encontram estranhas figuras como o ex-militar Marquis Warren e o novo delegado na cidade Chris Mannix. Em meio ao caminho uma forte tempestade os atinge, fazendo com que tenham que parar em uma estalagem. Lá encontram algumas figuras esquisitas e extremamente suspeitas com quem terão que passar provavelmente algumas noites até que o tempo estabilize.

Sem sombra de dúvida, a essência de tarantinesca está presente em todos os momentos da obra mas de uma maneira diferente da usual. A transformação estranha aos olhos dos menos ávidos traz uma introspecção que as vezes chega a ser chata devido aos personagens e locais detalhados a exaustão. A abertura é digna de um grande filme de faroeste com a trilha perfeita do ícone Ennio Morricone, mas que acaba desmanchando a expectativa já na primeira hora de filme por se mostrar extremamente longa e com diálogos que poderiam ser encurtados em quase pela metade: uma das características do diretor sempre foi a descrição firme dos personagens para que o perfil psicológico fosse traçado automaticamente pelo espectador, mas este trabalho acaba por ser exagerado e até complexo chegando a confundir. Fato que acaba por deixar até irrelevante a originalíssima ideia de gravar todo o filme com um equipamento da Panavision (apenas quatro em uso hoje no mundo) que torna tudo mais “de época”.

Mas apesar do tom arrastado como é conduzido “Os Oito Odiados”, alguns elementos dão picos de interesse ao público, como alfinetadas na xenofobia americana resistente até hoje e cada vez mais revitalizada por Donald Trump em sua candidatura a eleição nos EUA: as comparações entre mexicanos e cachorros. E não para por aí. O tratamento dado a prisioneira interpretada por Jennifer Jason Leigh é digno de toda misoginia presente em nossa sociedade (ainda), ou ainda o racismo exacerbado sobre o personagem de Samuel L. Jackson que mesmo tendo servido a sua pátria mãe tem de carregar uma carta de Abraham Lincoln como se fosse uma carta de alforria para ser respeitado pelos então confederados.

Parte interessante da metade do filme para o final, onde o público reconhece o que pagou para ver, vem banhado em sangue e diálogos ríspidos em um clima de detetive, como usado no filme “Os Sete Suspeitos“. Em alguns momentos lembrando até Agatha Christie ou ainda o contorcionismo roteirizado do excelente “Deathtrap“, de 1982 (traduzido no Brasil como “Armadilha Mortal”).

De todo, “Os Oito Odiados” não chega a decepcionar um olho pouco mais clínico, mas infelizmente entedia os menos avisados. Sendo o oitavo filme de Tarantino, podemos esperar mais um bom filme nos próximos anos e um “gran finale” como despedida no décimo filme. Segundo o diretor, após dez filmes encerrará sua brilhante carreira. Só nos resta aguardar.

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fev 052016
 
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Cinezone Poster - The Danish Girl

Quem assiste a “A Garota Dinamarquesa” sem saber do contexto, imagina que pela capa o filme seja mais uma daquelas comédias românticas onde a protagonista se apaixona pelo melhor amigo. Mas comete o grande erro de julgar o livro pela capa. A história de Lili Elbe foi um choque para a sociedade européia nos meados de 1830 onde a sexualidade era desencorajada e muito mais pudica, para não dizer hipócrita e até proibitiva em certos ambientes. A simples citação da palavra “sexo”, ou ainda qualquer pintura ou quadro referente ao mesmo poderia escandalizar.

O filme de Tom Hoper é uma obra bem feita e com uma essência em que os fatos vão lentamente sendo apresentados e com uma sequência em que o espectador fique confortável ao assistir uma história baseada em fatos reais. A ambientação simples e sem muita ênfase em grandes planos faz com que os pormenores sejam valorizados, fazendo com que, quando uma sequência um pouco mais longa seja colocada em prática seja apreciada de maneira total e privilegiada.

Mas o grande espetáculo do filme está nas atuações. Quando Eddie Redmayne foi escalado para interpretar o inglês Stephen Hawking a grande ideia era encontrar alguém com uma grande semelhança física (trocadilho infame) e que suprisse a primeira necessidade de “A Teoria de Tudo” – Eddie surpreendeu tanto que acabou levando a estatueta dourada. Mas quando se imaginava que este seria seu único e derradeiro papel, ele surpreende novamente e faz um introspectivo Einer Wegener, onde ao mesmo tempo a dor e o descobrimento são tão constantes e intensos no personagem que fazem o público respirar ofegante. Os demais papéis também tão bem encaixados como os de Alicia Vikander (a esposa compreensiva) e Mathias Schoenaerts (o legítimo canastrão) completam o quadro.

Depois de assistir “A Garota Dinamarquesa”, o quase certo prêmio de melhor ator será mais uma vez colocado em xeque. Se a escolha dependesse de minha opinião, Eddie Redmayne levaria o Oscar novamente este ano, afundando mais uma vez o navio de DiCaprio.

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