jun 162017
 
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Ultimamente os filmes argentinos nos apresentam boas histórias, roteiros, atuações e demais técnicas cinematográficas com bastante conhecimento e interesse na arte que o cinema apresenta. A busca impiedosa por uma produção firme e bem feita não falha em “Neve Negra“, uma produção extremamente tensa e focada nas discussões familiares e segredos que podem guardar. Ainda que com a presença do monstro Ricardo Darin, consegue decolar nas telas somente nos momentos finais, e ainda assim deixa o público esperando um pouco mais. Como de costume. Não que esperar um pouco mais seja ruim, mas a sensação de vazio deprecia o todo.

Salvador (Darin) é culpado desde a adolescência por matar seu irmão em uma caçada pela neve, e vive quase como um ermitão. Quase no meio do nada. Muitos anos depois, sem ter contato com praticamente ninguém, seu irmão Marcos (Leonardo Sbaraglia) aparece juntamente com a esposa grávida, tentando convencer o isolado bronco a vender as terras que possuem, deixadas por uma herança de seu pai. Pois justamente neste cenário rude e branco de neve, as marcas reaparecem deixando transparecer as feridas – e os rostos maquiados pelo tempo.

O pretexto de uma boa história e um roteiro bem afinado sempre renderam bons filmes e, ainda que fossem pobres de produção ficavam marcados pela sua perspicácia escrita. “Neve Negra” é exatamente o contrário: abre a expectativa de reviravoltas, e acaba se tornando interessante justamente pela técnica apurada. Gravar na neve não é nada fácil, uma vez que a cor branca em grande quantidade traz uma dificuldade incrível para as objetivas. Porém o destaque se faz justamente nas tomadas aéreas e que acabam por traduzir muitas vezes a imensidão do vazio dos personagens.

Todo o embate por uma trama fica bastante claro antes do filme ter o seu final revelado por completo. Ainda que a direção de atores, continuidade e a fotografia trabalhem bem e em sincronia com o andamento, mágicas acontecem para que as pontas se unam. Um bom início, uma boa trama em um inverno mal aquecido…

 

dez 292015
 
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A indústria americana de cinema tem seus méritos e deméritos. Sem dúvida é a maior do mundo, e justamente por isso fazer remake de sucessos unânimes acaba por desdenhar um bom desempenho. Quando em cartaz “Olhos da Justiça“, fica impossível não fazer comparações ao original e já clássico “O Segredo dos Seus Olhos“, argentino vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro.

A sinopse é praticamente a mesma: um caso de estupro e assassinato que corrói os envolvidos há anos e que em busca de uma solução que cesse a dor, é reaberto e se tem uma caça ao suposto criminoso. No original, as investigações partem de um orgão público, enquanto nesta versão um dos braços do FBI é o início da trama. O pano de fundo usado pelos americanos são os ataques de 11 de setembro e a incansável busca pela segurança nacional sempre atrás de terroristas e focos onde muçulmanos se encontram. Chiwetel Ejiofor é o investigador que traz o caso a tona para a promotoria que ainda incrédula, ajuda Jess (Julia Roberts) a encontrar o assassino de sua filha.

Não. O filme não é ruim. Porém visto que foi adaptado de uma obra prima multipremiada de Jose Campanella, fica difícil comentar sem comparar. Por vezes o diretor Billy Ray (que também é um dos roteiristas de “Jogos Vorazes”) acaba se perdendo em muitos flashbacks tentando fazer com que o público tenha certa dificuldade em entender o que realmente acontece entre uma cena de lembrança e outra. Outro ponto interessante é a escolha dos atores formando um elenco de primeira linha, mas que não engrena de jeito nenhum. Não existe sintonia entre Chiwetel e Nicole Kidman (coisa que entre Darín e Soledad Villamil chegava a pegar fogo na tela) – diga-se de passagem uma Nicole apática e sem sensualidade. A impressão é que a direção de arte teve mesmo esta intenção, pois colocar qualquer mulher vestida com roupas íntimas “beje” é no mínimo pra desanimar qualquer cidadão. Ressalvas para a “Pretty Woman” Julia Roberts que encarna muito bem o sofrimento da personagem, emocionando nas primeiras cenas: a falta de maquiagem ressalta também o que pode fazer uma boa produção feminina.

O desenrolar da trama se dá continuamente sem muitos sobressaltos, mas atende ao público que se destina. Aquele que não assistiu a versão original, terá um bom filme pela frente. Ainda assim, dê preferência pelo cinema argentino: neste caso, a primeira vez a gente nunca esquece.

 

 

Título Original: “Secret in Their Eyes”

Direção: Billy Ray

Relatos Selvagens (2014)

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nov 042014
 
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O cinema portenho sempre foi de bons filmes e de bons atores que nos trazem boa música, cenas fortes e inteligentes, diretores lúcidos e perspicazes e que, de vez em quando nos trazem obras imperdíveis como “Relatos Selvagens”. Seis histórias muito bem contadas e que chegam a beirar o absurdo, usando um humor negro de derrubar os queixos mais cerrados e que criam diversas atmosferas gerando risos e espantos ao público a cada um dos episódios. Os personagens perdem o controle das situações e acabam tomando as decisões mais efetivas para resolve-las, mas nem sempre as melhores saídas são as mais óbvias. O diretor sabe exatamente a medida da maldade e do riso, e consegue fazer o público entender que a obra também é uma tremenda crítica social que visa ironizar os serviços terceirizados que não funcionam até a morosidade e falta de eloquência do serviço público, que acabam sempre levando os protagonistas aos limites da razão. O filme vem com uma assinatura valiosa atrás das câmeras de Pedro Almodovar que produz o trabalho (que parece se redimir de sua comédia patética “Amantes Passageiros“, e que acabou sendo escolhido como o concorrente do país ao próximo ano a um dos grandes prêmios do cinema) – e quando se fala em premiação do Oscar, não há como não lembrar / citar o já bárbaro “O Segredo dos Teus Olhos” (que também traz Ricardo Darín alavancando o elenco principal). Que busquemos cada vez mais inspiração nos “hermanos”.

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