abr 212018
 
Author Rating / Nota do Autor:

Quando leio na sinopse do filme: “série original Netflix”, ainda faço cara feia. Apesar de o canal de streaming já ter produzido boas séries e com relativo sucesso de público como “House Of Cards” e “Orange Is The New Black“, a impressão é de que sempre falta algo para completar a película. Já na linha de documentários não há questionamentos. Mas neste caso específico, o filme “Órbita 9” não escapa destes incompletos e quase competentes, ainda que traga questões importantes e presentes hoje para nosso futuro como ética, biomedicina e clonagem humana.

Helena (Clara Lago) está confinada em uma nave espacial aguardando a chegada de uma missão de sobrevivência em outro possível planeta colonizável, desde que nasceu. Ela ainda não sabe, mas faz parte de um teste científico. Tudo muda em sua vida quando a ventilação de seu ambiente deve ser consertada por um engenheiro visitante de outra estação: surge uma atração inevitável. Mas essa repentina paixão pode colocar em risco o experimento e redefinir o destino das pesquisas. E até da humanidade.

A ideia é extremamente vantajosa e de uma ótima premissa para diversos assuntos e temas, infelizmente mal aproveitados. A quantidade de lacunas e pontas soltas em todo o filme (do início a fim) chegam a desanimar já nas primeiras cenas onde a atriz principal se apresenta ao público como uma mulher de vinte anos sem experiências “terrenas”: apenas informações dadas por vídeo pelos seus pais biológicos e por uma voz robótica fazem sua vida interna. Em um espaço reduzido e com informações limitadas, a personagem é esperta demais para o nosso mundo fazendo com que caia a cortina de um ser em cativeiro completo.

Mais adiante entra em sua vida o engenheiro Alex Kubic (clara alusão ao criador de “2001: Uma Odisseia no Espaço“), onde em questão de horas se apaixonam e trazem a tona um sentimento de ambos os lados talvez nunca percebidos. O que também acaba causando estranheza ao público uma vez que toda a “nave” está vigiada e somente aqueles momentos é imperceptível aos sensores. Dentre outros tantos detalhes que vão ficando para trás, que a obra acaba ficando chata e fora do âmbito que poderia. Personagens mais trabalhados e uma direção de atores ausente acabam fazendo uma grande diferença.

Também a questão de ética é bastante presente no filme: uma vez que se fala em existência da humanidade, o foco fica extremamente paralisado em seus protagonistas como se fossem os únicos que importassem para o restante do universo. No final esta individualidade acaba sendo o calcanhar de Aquiles de toda a produção. Pois se a sua órbita é a de número nove, somente o destino dela redefine a de todas as outras?

Ao menos agora já sabemos que a Espanha/Colômbia sabem fazr filmes de ficção.

Se pudéssemos o combinar com o drama já produzido, seria espetacular.

dez 072017
 
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O melhor seriado dos últimos tempos: e que você certamente ainda não viu.

Em meio a tantos seriados de zumbis, super-heróis e teorias mirabolantes surge “This Is Us“, já a algum tempo chegado no Brasil pelo serviço televisão por assinatura, arrebata corações por onde passa com a fórmula mais simples e mais eficiente até hoje: um bom roteiro.

Tudo gira em torno da família Pearson onde três irmãos nascidos no mesmo dia compartilham as emoções e inseguranças que todos nós também vivemos como o medo de rejeição, ser aceito em sociedade (e pela própria família), dúvidas sobre a vida infantil e adulta, dentre temas como racismo, obesidade mórbida, conquistas, triunfos e desilusões amorosas. Sendo um relato das vidas de Jack e Rebecca que esperam trigêmeos, as vidas acabam se desenrolando ao longo dos dezoito episódios da primeira temporada. Kevin é um belo ator de televisão que está cansado de fazer papéis superficiais, Kate é uma mulher obesa que vive uma eterna luta para perder peso e Randall reencontra seu pai biológico que o abandonou quando ele era apenas um bebê recém-nascido.

Ao invés de termos mais um seriado apelativo com atitudes nonsense e repreensíveis (ou demasiadamente apelativas) cheias de castelos e de paisagens mirabolantes, encontramos o cotidiano convencional. Desde o primeiro momento a sutileza das relações familiares e as dificuldades que possuem em interagir com o mundo dito “normal”. Porém mesmo sendo “normal” ainda assim existe dificuldade de relacionamentos e interações. De forma comovente o seriado é conduzido de forma simples e, como se fosse apenas uma nova crônica do mundo atual, traz perspectivas bem convencionais porém nada esperadas a cada episódio: bem como é a vida.

Transmitido no Brasil pela FOX, “This Is Us” é daqueles seriados onde quem tem tendências fortes a se emocionar frente a telinha, tem um prato cheio. Ou melhor, transbordando.

Um dos melhores que já vi nos últimos anos (até agora).

E não. Infelizmente não está no Netflix.

set 172017
 
Author Rating / Nota do Autor:

Sempre tive um certo receio de aceitar o Netflix como uma de minhas fontes bases de catálogos de filme. Sempre usei as salas de cinema como grandes templos de adoração, usando os torrents como segunda plataforma para assistir filmes mais recentes. De tanta insistência me rendi ao streaming. Sempre que eu dizia que assisti a um filme novo vinha a pergunta: “tem no Netflix?”. E invariavelmente o assunto parava por aí. A plataforma streaming nos trás grandes obras a preços irrisórios. Mas é preciso garimpar para encontrar algo que realmente valha mais do que duas horas (com exceção dos seriados, que são a grande vedete). Por recomendação assisti “Onde está segunda?“.

Ano de 2072 em um país futurista onde famílias só podem ter um filho. Sete irmãs gêmeas tem de se dividir entre os dias da semana para poderem conviver tranquilamente e em segredo. Depois de um dia de trabalho, Segunda não volta para casa, o que faz com que as outras seis tenham de buscar seu paradeiro e arriscando o disfarce de anos.

A ideia do filme é muito boa e um bom roteiro faria uma grande diferença. Mas não é oque acontece: as duas horas que seguem são rodeadas de clichês e sem muito esforço há como saber cada detalhe do que acontecerá até o final. A cada cinco minutos certamente eu conseguiria escrever os próximos cinco sem medo de errar.

O elenco é de dar inveja a grandes produções. Noomi Rapace no papel das sete irmãs faz um esforço descomunal para interpretar um personagem multifacetado e fica bastante claro onde se sente melhor conseguindo atuações mais vantajosas próximas da Lisbeth Salander de “Os Homens que não amavam as mulheres” (excelente na versão original sueca). As presenças dos monstros Willem Dafoe e Glenn Close não chegam a impressionar justamente pela escrita mal conduzida em seus scripts.

A direção fica abalada junto com seus clichês e a coisa parece engrenar sempre para o mais do mesmo. Conforme comentado, a ideia é muito boa, mas colocada em mãos erradas acaba por estragar a obra completa.

Netflix tem disso: as vezes se acerta na escolha, as vezes um erro crasso pode te jogar no desânimo da procura de uma nova emoção. Mas a vantagem da plataforma ainda é que se pode procurar um remédio para a próxima tentativa, mas jamais remediar o tempo perdido.

fev 102017
 
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Fé. Dizem que a fé move montanhas. A nova produção para a Netflix chamada “The OA” é uma complicada e vasta trama que exige um pouco de conhecimento, imaginação, e principalmente acreditar no que seus olhos vêem (ou não).

A história nos apresenta Prairier Johnson (Brit Marling) que reaparece após sete anos desaparecida – com a capacidade de ver depois de anos de cegueira e uma incrível história. Tão incrível que ela só compartilha com um pequeno grupo de que ela cria, sendo a maioria adolescentes e mais uma professora. Nem mesmo seus pais, que passaram os anos procurando desesperadamente por ela, sabem da verdade. Ela é perseguida e desacreditada pelos holofotes, mas reclusa em seus próprios devaneios e desventuras cósmicas.

Há tempos não temos uma séria tão expansiva e trincada, com possibilidades e teorias quase infinitas sobre os acontecimentos ao longo de cada um dos oito episódios. A série mistura literatura e misticismo, ciência e premonições, juntamente com detalhes soltos sobre os personagens que vão sendo apresentados: cada detalhe é importante para construção do ambiente. Conforme a atriz (e também roteirista) comenta: “você precisa ter uma narrativa que seja suficientemente robusta para sobreviver a toda essa expectativa”.

A história se apresenta bastante emocionante e cheia de nuances de que será mais um dos expoentes midiáticos como tantas outras, chegando a comparações com “Stranger Things” (também sucesso do Netflix). Mas nem tudo que reluz é ouro: a trama possui falhas e deixa várias pontas e laços abertos ao longo dos primeiros episódios até que a engrenagem lunática se faça justa e equilibrada, fazendo com que tudo possa ser desacreditado. A partir do quarto episódio o roteiro toma novo fôlego e vai até o final crepitante e incrédulo até o fantástico e inesperado desfecho. É de arrepiar.

Ainda não existe a certeza de uma segunda temporada segundo os produtores, pois a quantidade de informações sugeridas e novas teorias que surgem a cada momento nas redes sociais fazem com que a demora para movimentar este “gigante” seja bastante longa e densa, tanto quanto a vida da própria protagonista, podendo levar muito mais tempo do que se imagina. Assim como é dito por um dos personagens marcantes e mágicos na série: existir é sobreviver às escolhas injustas.

Faz-se jus ao próprio “The OA”, que nasce grande. E com grandes responsabilidades.

 

Link para o IMDb

jul 162015
 
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Sense8 Cinezone  Poster

 

Os irmãos Wachowski ficaram conhecidos pela trilogia Matrix, de 1999 e que revolucionou a maneira de fazer cinema, uma vez que inovaram tecnologias, referências e tendências sobre a sétima arte. Há quem diga que ali existiu um marco de como se fazia, e como fazer: o que não discordo apesar de achar um pouco de exagero, uma vez que já tivemos diversos pontos de virada e desdobres significativos na era moderna como as transposições de Welles, os vértices de Kubrick, dentre outros expoentes. Pois Andy e Lana (antes Larry) entraram de cabeça no ambicioso “Sense8”, produção exclusiva para o Netflix.

O seriado conta a complexa história de oito pessoas de distintas partes do mundo que, sem razão ou motivo aparente começam a se relacionar umas com as outras psiquicamente, e por consequência ter as mesmas experiências e qualidades conseguindo em conjunto chegar aos objetivos. Porém há uma organização misteriosa que pretende usa-los para o benefício de uma minoria.

Já dito em outras oportunidades, teria o domínio do cinema moderno e das grandes fortunas em película aquele que conseguisse estreitar a janela entre um lançamento nas telonas até a chegada as demais plataformas: canais por assinatura e hoje o estouro do “streaming”, ou ainda de melhor forma diretamente em todas as plataformas. A forma de lançar episódios para download (um por semana) foi quebrada pela plataforma Netflix mudando um pouco a maneira de assistir, podendo faze-lo (com tempo e paciência) de uma só vez. Mas talvez essa tenha sido uma das salvações da série.

Um projeto bastante ambicioso, uma vez que se passa em mais de oito países diferentes com uma logística monstruosa e um orçamento bastante alto, e também uma premissa de seres sensitivos que pode fazer tentáculos para qualquer parte da trama. O ambiente criado desde o início da série deixa os autores livres para criarem da forma que quiserem e manipular os rumos de acordo com a audiência inclusive, tendo um feedback praticamente imediato. E ainda com um espaço de tempo bastante primoroso para trabalhar uma suposta segunda temporada (já renovada).

Porém existem exageros considerados pelos espectadores bastante importantes como o seriado sendo quase uma biografia e pensamentos de Lana Wachowski, a co-criadora que coloca sua visão muito pessoal e intimista fazendo pesadas cenas de homossexualismo (as vezes desnecessárias), uma vez que em quase nada faria a diferença para os personagens. Lana é uma ativista e coloca muito de sua visão sem saber se o público está realmente interessado em suas premissas deixando o roteiro pesado e a trama vagarosa.

Por outro lado, desde a abertura o seriado se compromete com a qualidade das cenas, com não deixar nenhuma ponta desamarrada e com perspicácia suficiente para sair de situações complicadas. A ideia agora é deixar fluir e ver as surpresas que Sense8 nos apresenta daqui em diante.

Título Original: “Sense8”

Direção:  J. Michael Straczynski, Andy Wachowski, Lana Wachowski