jul 112022
 
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Apenas o fato de citar o nome de David Cronenberg já traz calafrios e a certeza de que algo escatológico vem a seguir. Em “Crimes do Futuro” o diretor não foge a regra e ainda traz uma voraz crítica social misturado com arte e poesia.

Na sinopse, um braço governamental investiga uma espécie de evolução do ser enquanto humano. A ingestão de plásticos e outros objetos faz hoje com que novos órgãos sejam criados pelo próprio ser, e um grupo de artistas performáticos liderados do Saul (Viggo Mortensen) trabalha de forma árdua em busca de novos conceitos estéticos e de um padrão de acesso as prováveis novas utilidades.

Cronenberg consegue mais uma vez criar repulsa neste horror disfarçado de drama, junto com os também criativos gregos que nitidamente tem vários dedos na película (visto filmes tão repulsivos, chocantes e quão realistas). Em um futuro distópico, mas não tão distante de nossa realidade, a população está escassa e faminta por novidades que a façam “progredir”. Mas infelizmente juntamente com as novidades, as mazelas da inveja e cobiça vem também inseridas no contexto.

Outra crítica bastante relevante é um soco no estômago, quando retratadas as cirurgias estéticas como novas formas de prazer e de ostentação. O inicio de uma nova fase traz prazer com o uso do bisturi, e a dor acaba sendo uma constante naqueles que buscam um novo auto-entendimento.

Autópsias, cortes, modificações corporais, nudez e assassinatos são usados como lugar comum em “Crimes do Futuro”. Crimes agora em uma dimensão que até agora não havia sido imaginada. A não ser, por Cronenberg, é claro…

jul 042022
 
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As paisagens bucólicas e verdes campos que fazem compor o quadro inicial do novo filme da produtora “A24” são apenas um pequeno delírio frente ao redemoinho que está prestes a começar. Com a irlandesa Jessie Buckley encabeçando a trama, “Men” é mais uma daquelas obras que te prendem do início ao fim, e a aflição de acabar com o sofrimento e agonia diário das perdas e decepções. Mas é sabido que nem sempre é possível.

Já na primeira cena vemos um corpo caindo e o olhar de Harper, acompanhando tudo com aflição e com um clima típico de tragédia. Seu então marido está morto devido a uma violenta e traumática queda. Daí para adiante vemos nossa protagonista chegando a uma distante casa no interior da Inglaterra, onde tentará curar as feridas abertas e se libertar do sentimento de culpa e do luto da recente viuvez inesperada. Mas nada é fácil. Muito pelo contrário. Algo (ou alguém) a observa.

Nesse incessante clima de tensão, o diretor Alex Garland nos coloca em constante situação de alerta. O rosto angelical e aparentemente inocente da estrela Jessie nos faz acreditar em tudo que vê ou em tudo que acontece. Mas até onde temos uma verdade absoluta? Não tente entender o contexto, mas sim um todo em torno da situação caótica em que se encontra sua mente em busca de paz. Mas o tormento não cessa fácil e começa a tomar contornos quase diabólicos.

A obra flerta o tempo inteiro com elementos pagãos e culturas antigas, e acaba colocando em dúvida a fé da personagem principal. Sabendo vir de uma cultura ocidental e já civilizada em nossos padrões atuais, ela é exposta a situações onde a violência e a selvageria em conluio com a natureza, são vistas e aceitas como lugar comum. A violência física contra a mulher, a necessidade de submissão do feminino e a conotação sexual em que é exposta como objeto, faz com que pareça que a idade média não saiu daquele povoado em que se encontra. Porém a realidade dos fatos nos mostra que essa premissa de estar em outra época/dimensão não é possível, uma vez que a comunicação é feita pelo “wi-fi” da casa alugada e ali já passaram comboios de ferro que literalmente ecoam o tempo inteiro.

Peça importante e sensacional neste jogo é observar as atuações do ator coadjuvante Rory Kinnear (do excelente Penny Dreadful). Até então, apenas o senhorio da casa alugada e que tenta ser agradável fazendo piadas sem graça o tempo inteiro. Porém o sensacional é observar que TODOS os personagens masculinos (que dá nome ao filme) são interpretados por ele: desde o anfitrião, passando pelo policial, padre, barmen, etc etc. O ator é multifacetado e acaba sendo uma analogia podre, porém, complexa passando do homem animalesco ao refinado, do menos religioso ao líder paroquial e, todos acabam sendo reflexo daquele mesmo homem que ela vira despencar.

Visões e analogias diversas são possíveis dentro de um contexto de imaginação e aceitação do homem pelo homem. Não por acaso existe uma macieira na entrada da casa, e Harper desavisada morde o fruto proibido. A perseguição do blasfemador pelo anjo caído, a busca pela fé no grito desesperador gutural, o renascimento do homem a cada vida o transformando de eras em eras em um ser diferente. Ou não?

É mais um daqueles filmes que a cada vez que se assiste, encontra-se algo novo ou uma visão bastante deturpada da primeira. Porém a agonia e perplexidade são talvez, as únicas certezas em todas as instâncias…