mar 282017
 
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Procurando pelo nome do diretor M.Night Shyamalan pode-se encontrar as mais diversas opiniões sobre suas obras e seus pontos de vista: desde o sonhador profano, romântico inveterado, estúpido excêntrico até o ridículo sem noção. Mas uma coisa não dá pra negar: ele é genial! E com “Fragmentado” ele volta as telas de forma triunfal e exageradamente atualizado, dentro de muitos conceitos novos de cinema que não costumava utilizar.

Kevin é um homem visivelmente atormentado e, que incrivelmente, possui 23 personalidades distintas (sim, eu disse vinte e três!) e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Uma de suas personalidades, sem deixar rastros, sequestra três garotas que encontra em um estacionamento. Dentro do cativeiro, elas devem conhecer e entender as diferentes máscaras/rostos deste desconhecido terror, e precisam encontrar algum meio de escapar com vida do estranho cativeiro onde estão.

O ator James McAvoy está sensacional e consegue transitar em todas as personalidades sem deixar um fio da figura anterior, indo de uma criança de nove anos até uma distinta senhora. Porém o roteiro é firme e consegue explorar todos os contextos que levaram o personagem a chegar neste estado físico/emocional. Juntamente com a presença da psicóloga Sra. Fletcher (Betty Buckley), as linhas de realidade e ficção acabam se parametrizando e dando um pouco mais de veracidade aos fatos. Outra ilustre presença é a de Anya Taylor-Joy (do excelente “A Bruxa”), que interpreta uma das jovens sequestradas e (obviamente) toma a frente de situações em que um pouco mais de perseverança é necessária. A tensão é uma constante em todo o filme, dando créditos a fotografia e iluminação, também com méritos a edição de som que trabalha cada ruído de forma minuciosa.

Sim. É o retorno de um dos grandes cineastas que estava apagado frente a outros projetos e obras menos ambiciosas, mas que tem sua marca e estilo próprios. Há quem o tache de infantil e com estereótipos ridiculamente absurdos em sua composições, e que ainda tenha a veia do cinema fantástico. Pois é justamente assim ele consegue atingir o objetivo de com toda sutileza entrar em assuntos como a influência direta dos pais na vida de suas crianças, na esquizofrenia que é a própria sociedade, na animalesca fome de vida que os seres humanos mais usurpados de vida possuem. Talvez se Shyamalan fosse mais direto e reto, pudesse atingir os críticos mais debochados e recalcados de vez. Mas aí é justamente aí que mora a sua personalidade mais sombria, inconfundível e memorável.

mar 212017
 
Author Rating / Nota do Autor:

Estamos acostumados a transpor tudo o que vemos e sentimos ao nosso universo particular, mas nem sempre isso é possível devido a ambientação, locais, personagens, cultura e até mesmo gírias. No caso de “A Qualquer Custo” (título brasileiro que não diz muito no contexto da obra em sua essência) é possível enxergarmos cada um de nós em seus detalhes, locações, modos de ser, de falar e expressar. E de certa forma é aí que, para os mais atentos, mais uma das meras histórias de perseguição entre mocinho e bandido se transforma quase em um faroeste caboclo.

Dois irmãos, um ex-presidiário (Ben Foster) e um pai divorciado (Chris Pine) com dois filhos, perderam a fazenda da
família em West Texas e decidem assaltar bancos imaginando isso como uma chance de redenção e de se restabelecerem financeiramente. Sua forma de agir e de conseguir o dinheiro chama a atenção de um delegado (Jeff Bridges) daquela jurisdição que se interessa pelo caso e parte, juntamente com seu parceiro, na busca pela dupla.

Pra quem gosta de um simples faroeste, é um bom filme. Para quem gosta de ler nas entrelinhas, é um excelente filme. Tudo se passa em uma região devastada economicamente do país. A direção de David Mackenzie faz questão de demonstrar o tempo inteiro o isolamento dos povoados a cada curva de estrada empoeirada, enquanto persegue de perto os anti-heróis. Estes que buscam uma justiça criminosa para conseguir retirar dos bancos, aquilo que lhes foi tirado em dívidas: a dignidade de suas famílias. Os roubos acontecem rápidos, com notas e valores pequenos: não para não serem rastreados, mas para reaverem tudo aquilo quase da mesma forma que foram usurpados. A relação entre eles também é complexa. Um Chris Pine quase irreconhecível, visto filmes onde faz personagens mais “bonzinhos”. E um excelente Ben Foster, onde por fim acabamos por apostar quase todas as fichas em um destino inesperado.

Mas o que fez “A Qualquer Custo” sair do ostracismo foi o roteiro eloquente e principalmente os diálogos ácidos e politicamente e incorretos. A caricatura do personagem de Bridges, um texano bronco (tanto quanto o nome de sua camionete) faz piadas racistas ao seu comparsa e traz sempre o sarcasmo regional, da supremacia branca e rude que tudo pode na “terra das oportunidades”. Ainda assim, quase no fim de sua vida profissional, nota-se que é mais importante compreender os motivos para que se possa determinar por si só os fins.

A expressão “hell or high water” não possui um contexto literal para o português, algo como “custe o que custar” ou ainda “sob qualquer sacrifício”, e também consta em algumas cláusulas de contrato bancário a fim de quitar dívidas. O que acaba por muito definir as intenções e desejos dentro, e muito também, fora das telas.

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mar 142017
 

Logan” é tudo aquilo que você imaginava e queria ver. E mais um pouco. Pode parecer exagero dizer que o último filme de Hugh Jackman como Wolverine é o melhor filme da Marvel, ou ainda dos X-Men, mas fica bem próximo dessa constatação.

O ano é 2024. A linhagem mutante está em visível decadência e descrédito, sendo lembrados apenas como lendas. Porém uma empresa está tratando de “criar” novas crianças com poderes especiais e transformando-as em assassinas. A arma X-23, e uma das únicas sobreviventes dos experimentos. O velho Logan, a pedidos de Charles Xavier, deve protege-la a qualquer custo sem uma explicação lógica para tanto. Wolverine trabalha como motorista e possuí um crônico problema com o álcool, que visivelmente o debilitou a ponto de desejar a própria morte, do que viver deploravelmente visto quem já fora um dia.

Diferente de outras obras da Marvel este é construído do início ao fim com toda cautela para não parecer apenas mais um filme de super-heróis. Desde a fotografia amarelada e desértica onde estão Logan e Xavier, até as passagens de dia e noite travadas pelos protagonistas enquanto jornadas, faz toda diferença. Diferente também está Logan: extremamente sanguinolento, quase caquético e cheio de problemas físicos e emocionais, ele se arrasta para conseguir cumprir suas lidas e ainda proteger o senil Charles Xavier, que já fora considerado um dos mais poderosos mutantes, e hoje luta justamente contra sua mente instável, por vezes incontrolável e extremamente perigosa.

No entanto o que mais faz valer são as visões construídas entre todos os personagens, inclusive com a boa notícia da atriz mirim Dafne Keen (Laura), motivo central dos embates entre mocinhos e bandidos, e que faz o mais pesado contraponto com os protagonistas. As relações criadas a partir de estranhos em determinantes passagens fazem talvez a mágica aparecer nos roteiros da Marvel: a questão familiar é vital para todas as direções, dentro e fora da tela. Cada um dos personagens é intenso, profundo o suficiente para conseguir um gancho para a próxima história e ainda assim transmitir uma emoção ao espectador. Falhas? Não há como evitar uma pancadaria sem muto sentido ou um desvio para a ação: mas isso o diretor James Mangold soube dosar também de forma sutil.

Se realmente Hugh Jackmann não vai mais interpretar o carcajú Wolverine não se sabe ao certo. Mas se realmente isto acontecer, já foi fechado com chave de ouro a história do mais carismático e querido dos mutantes.

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