maio 312016
 
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Cinezone Poster - Ponto Zero

“Pode falar tudo que quiser aqui, né? – Sim. Só não pode mentira e palavrão… – Então eu queria falar do espaço, sim e de uma espaçonave. – E não é chato? Aquilo tudo escuro, cheio de pontos brilhantes no céu, e o pior: infinito?” E com uma gigantesca metáfora “Ponto Zero” se apresenta ao seu público: uma obra causticante e ao mesmo tempo cheia de nuances líricas, uma história simples e didática, sendo ao mesmo tempo contundente e lépida ao ponto de deixar o espectador mais desinteressado no mínimo com um bom número de interrogações.

O protagonista é o menino Ênio, um pré-adolescente que como todos os outros começa a descobrir dentro e fora de casa que a viva não é tão simples como parece, e que o refúgio do lar pode não ser o melhor abrigo, nem mesmo a rua pode vir a ser tão perigosa. A relação com os pais é distante e ao mesmo tempo claustrofóbica: de longe ele assiste um casamento em ruínas onde sem querer acaba sendo um pivô sem ação prática, onde se bate sem querer e se quebra sem notar. As coisas que vão acontecendo ao seu redor vão sempre tomando proporções gigantescas e metamórficas as vezes chegando nem sempre a um final esperado.

A construção de “Ponto Zero” é de primeiríssima linha tanto no técnico quanto no lúdico. O diretor José Pedro Goulart não inova tecnicamente, mas traz de volta o cinema clássico e cult onde o pensar é mais importante do que agir, onde o interpretar o que foi dito é uma difícil missão pois as variáveis são infindáveis. A psicanálise é seu maior triunfo, com um trabalho de imersão dos personagens (que não sabem que estão imersos). O experimentalismo também está presente na obra uma vez que os atores recebiam seus scripts apenas momentos antes das cenas serem gravadas.

Todo gravado em Porto Alegre chega a lembrar o início de Jorge Furtado, onde a crítica social era profunda (“Ilha das Flores” e “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda” – também de Goulart), tendo passagens pela Avenida Farrapos, Voluntários da Pátria, dentre outras que trazem o pulsante Bairro Floresta no coração. Goulart nos aponta uma capital de altos e baixos, uma cidade que pode ser de sexo ou de poesia, do sebo nas canelas ou do simples caminhar a esmo. Capital da educação privilegiada nas escolas e da ignorância provinciana no trânsito caótico. Literalmente colocam a capital de todos os gaúchos “de ponta-cabeça”.

Um filme com um “Ponto Zero” no nosso cinema gaúcho. Uma vontade de fazer cinema e mostrar como se faz, para que gosta e para quem quer gostar de um cinema realmente bem feito, com amor e dedicação trabalhada no âmago das artes que a tela deve trazer.

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maio 232016
 
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Cinezone - Amores Urbanos

Os filmes nacionais de tiragem de curta bilheteria e de pouco recurso financeiro na grande maioria das vezes tem uma depreciação automática do público. Não que seja ruim, não! “Amores Urbanos” apenas acaba não se fazendo bom o suficiente para ultrapassar o limite do razoável para o comum.

A história nos apresenta três vidas em constante conflito com sua própria geração. No âmbito profissional, familiar e sexual o trio se completa e se ajuda em todas as questões de difíceis decisões exclusivas da faixa dos trinta anos onde se encontram. Ainda que com personagens interessantes, Micaela (mais conhecida como a veterana da MTV), Diego e Julia acabam sendo rasos em todas as profundidades, uma vez que sua riqueza não é explorada a contento.

amoresurbanos middle

A peculiaridade da visão feminina da diretora Vera Egito prevalece em todos os âmbitos trazendo sempre um único reflexo a ser enxergado, e acaba sendo bastante enfática neste ponto quando em uma das discussões sobre o pênis, é colocada a situação atual dos personagens (e de toda sociedade) culpada pelo patriarcalismo imposto pelo passado. E obviamente se desvencilhando em obras como esta.

Com um baixo orçamento e um mix de atores faz a experiência e o amadorismo andarem juntos, “Amores Urbanos” é único na inovação mas peca na construção. Faz uma ideia de filoginia dar certo, junto com bons profissionais de roteiro e fotografia e tendo de bom pano de fundo uma até simpática São Paulo. A presença da cantora Ana Cañas como atriz dá certo e a trilha sonora é destaque. Porém a preocupação como interagir com o público ou subtender melhor os atos e fatos dos personagens e/ou atores é deixada de lado fazendo justamente cair na vala comum dos demais brasileiros. Há esperança, sim.