fev 262015
 
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OMPC_LoucasPraCasar

Infelizmente o cinema nacional ainda é muito marginalizado. Ainda parece aquele menino com medo de crescer, com medo de colocar os olhos na rua e apanhar dos meninos maiores, talvez até com medo de ser ridicularizado perante a grande maioria. Porém não tem idéia do potencial que tem e certamente já possui a coluna completamente formada para que possa andar ereto entre os grandes.

O grande nicho e poder bélico nacional vem das comédias e dos romances, ou ainda das “comédias românticas” (como preferir). Uma pena que em “Loucas Pra Casar” a ideia é mal divulgada. O filme encabeçado por Ingrid Guimarães possui roteiro e vida própria, e mostra que temos potencial para muito mais. Apesar de alguns clichês e ideias chupadas de outros filmes, vale a compra da ideia e da imaginação da disputa de três mulheres por um mesmo homem, e que estão lutando pela felicidade de um casamento. A obra anda a passos largos sem ser cansativo, ultrapassando os demais fracos nacionais do mesmo estilo.

Mas a inovação é o grande golpe e que faz o filme bom. Uma iniciativa de suprir o riso fácil pelo pensamento crítico e não de simplesmente chover no molhado, com piadas prontas. É um pouco mais do que simplesmente rir. É interpretar e, até julgar o filme. A obra. Um crescimento e ao mesmo tempo um “desplugue” do óbvio. Ainda que o final seja bastante surpreendente, qualquer outra coisa que disser será um belo spoiler.

Posso ser presunçoso, mas não há como prever se a bilheteria “blockbuster” nacional tem capacidade (ou vontade) de fugir do pronto, do fácil e, se propor a pensar um pouco no cinema novo mundial (inclusive balizado pela escolha de “Birdman” no Oscar, deixando para trás o inovador porém linear “Boyhood”. Mas ainda volto a insistir que foi mal divulgado e vendido como outro qualquer, com a velha fórmula do velho cinema brasileiro marginalizando seu próprio cinema. Feita pelos próprios brasileiros. Capazes. Mas ainda incrédulos do próprio potencial.

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fev 242015
 
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TMPC_Fury2014

O ator Brad Pitt literalmente veste (a camiseta) o uniforme em “Corações de Ferro” com a demonstração de que pode fazer muito mais do que simplesmente filmes para um público sem cérebro, e que a idade supostamente avançada em nada impede uma excelente figura de ação em um guerreiro (ou um troglodita). A história nos traz basicamente uma tropa militar, que durante a Segunda Guerra Mundial, montado em um antigo tanque de guerra (Fury, que dá nome ao filme), que deve de cumprir missões atravessando o território alemão dominado pelos nazistas de Hitler.

Os ideais são pacíficos, porém a história é extremamente violenta e realista. Os sentimentos de compaixão e perda durante as batalhas são significadas a cada momento buscando explicar muitas vezes o inexplicável: amizades são feitas lentamente e terminadas com uma velocidade tão grande quanto o disparo de um fuzil. Razão e emoção não podem ser confundidos, com a pena de serem eternizadas com profundas marcas que jamais serão esquecidas.

Porém esta é a “marca” principal do filme: a união entre os ocupantes do carro bélico que juntos fazem dele o verdadeiro “tanque” que pode transpor barreiras e invadir sem temer. Uma equipe forte, que de repente recebe o jovem Norman: o paradoxo perfeito entre a estupidez da guerra, os sentimentos da juventude, a desumanização do personagem soldado e a extrema vontade de viver, ainda que em missões visivelmente suicidas. Porém o senso de conjunto e o trabalho em equipe é o sustento da equipe. E do filme.

Viva em conjunto, ou morra sozinho.

O filme ainda conta com um elenco de primeira linha e já acostumado com filmes de guerrilha e ação (Shia LaBeouf, em Indiana Jones / John Bernthal, de Walking Dead), o que traz um suporte sem ser exagerado a produção, o que ajuda bastante.

Um belo filme de guerra. Para ser visto com o coração.

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fev 192015
 
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Ir ao cinema guiado pela curiosidade e também pelo estrondoso sucesso nas livrarias do “Cinquenta Tons de Cinza” não é nenhum demérito. Mas não somente por isso, também pela repercussão extremamente contraditória: um sucesso de bilheteria e um fracasso retumbante pela crítica especializada. Dificilmente adaptações de livros para cinema ficam boas, e este é mais um exemplo de como NÃO fazer.
Como se já não bastasse a temática ser batida, nos cinemas ela consegue arrebentar com qualquer definição de masoquismo, sadismo, bondage, fisting, ou qualquer outra prática sexual diferente do usual. Uma jovem de vinte e poucos anos, virgem e com cara de insossa tem que fazer uma entrevista para a faculdade com o Sr. Grey, um grande figurão dos negócios de também menos de trinta anos. As perguntas feitas durante esse pouco tempo lembram trabalhos de segundo grau, ainda que pouco importem para a relevância do contexto. Aí já pode-se deduzir a bomba que está por vir…

Os atores escolhidos são completamente assépticos, e sem emotividade como bonecos de cera: sem expressão, sem estarem conectado um com o outro, e nem ao menos demonstram empatia entre eles (quem dirá com o público). Os diálogos são vazios e por vezes desconexos tanto com o roteiro, quanto com a realidade: muitas coisas simplesmente acontecem sem ter motivo, ou ainda surgem de lugares em que nunca estiveram: em um dos encontros do Sr. Grey e de Anastasia Steele ela pergunta a ele sobre fazer amor. Ele responde que não faz amor, apenas “fode” e “com força”. Seria cômico, se não fosse tão trágico.

Há ainda quem possa fazer um pequeno paralelo ao não menos fraco “Crepúsculo“. Porém a coisa é tão mal feita, tão mal encenada, e tão cheia de furos e mal contada, que quase transformam Edward e Bella em clássicos modernos (argh!).

E assim o tudo vai se arrastando em pouco mais de desnecessárias duas horas de filme. As tão esperadas cenas de sexo e sado-masoquismo que permeiam a obra de E.L. James no seu contexto original são tão enfadonhas que não são capazes de chamar a atenção de um pré-adolescente: certamente seria mais fácil se excitar com catálogos de lingerie em uma revista do Avon

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fev 192015
 
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A informática e os computadores pessoais nos dias de hoje devem muito a Alan Turing. Parte de sua história foi contada no intrigante filme “O Jogo da Imitação”, onde conta desde sua entrada nas forças britânicas até a descoberta de seu suposto suicídio em 1954.

Conforme o filme, o matemático Turing era extremamente anti-social, cheio de manias e de uma inteligência fora do comum para números e problemas de lógica. Baseado nisso, fora chamado para integrar uma equipe de uma força especial da Inglaterra especialista em quebras de código e que estava com a responsabilidade de desvendar o grande mistério da máquina de criptografia “Enigma”, inventada pelo exército alemão para enviar mensagens secretas entre suas tropas sem serem descobertos. Porém a maior guerra que o gênio enfrentaria não seria contra os alemães, e sim dentro de seu próprio país: o “crime” de ser homossexual.

O foco da produção foi contar uma história o mais verossímil possível, utilizando-se de locações de época e bastante
realistas, dentro de ambientes sem influências externas (o que facilitaria bastante o trabalho do direto inciante Morten Tyldum podendo controlar a luz), baseado em fatos históricos e não menos trazendo a reação tanto dos militares quanto daqueles que participaram diretamente dos fatos. Outro fato de relevância na obra é a presença do elenco de apoio como Keira Knightley (que faz uma insossa ajudante que se destaca em apenas alguns breves momentos sendo literalmente a coadjuvante, no sentido literal da palavra), Charles Dance (de Game Of Thrones), Mark Strong (o Dr. Nash, de “Antes de Dormir”), que deixam o excelente Benedict Cumberbatch a vontade para interpretar o complexo personagem cheio de trejeitos e com um constante deficit de atenção.

O ator Benedict Cumberbatch é a estrela desta produção, inclusive recebendo a indicação de seu primeiro Oscar pelo papel do matemático. Dramático na medida certa, eloquente e firme, sem em momento algum deixando escapar uma fagulha do personagem. Ainda que interpretando um homossexual assumido, não afeta em nada a importância do filme nem se torna o motivo principal, ainda que o filme traga uma carga bastante pesada do preconceito e da ignorância quanto ao assunto na época.

Alguns críticos podem colocar algumas situações como clichês, ou ainda falar do sotaque exagerado, ou ainda das piadas fora de hora. Porém em nada tira a importância da obra para o mundo atual, nem mesmo o brilhantismo do conjunto como cinema.

 

 

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fev 102015
 
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O que esperar de um seriado?

Boas cenas de ação? Bons diálogos? Um roteiro envolvente? Trama bem feita? Personagens cativantes? Um final de perder o fôlego? Assista a Fargo.

Tendo como ponto de partida o premiado filme de 1996, a história se passa em uma pacata cidade onde nada acontece e onde os ânimos fervem. Porém nada acontece. Mesmo. A neve toma conta, e a cidade tão branca quanto a palidez de seus próprios personagens. Mas basta um estranho aparecer com uma simples fagulha, e fazer o caldeirão ferver.

O assassino de aluguel, frio e calmo Lorne Malvo (Billy Bob Thornton) chega a cidade sem um motivo aparente e com uma gama de mortes em suas costas. De forma completamente casual, encontra Lester Nygaard (Matin Freeman) nos corredores de um hospital. Lester trabalha como corretor de seguros: é o verdadeiro “nada”, o legítimo zero à esquerda que sinceramente não sabe o motivo pelo qual está no mundo, mal casado e humilhado frequentemente por vizinho e colegas. Que relação pode existir entre os dois?

Os irmãos Joel e Ethan Coen, como de costume em seus filmes, criaram uma das melhores séries que apareceram nos últimos tempos. Das dezenas de estréias que tivemos no último ano, Fargo destaca-se pela força no roteiro e nos diálogos estranhamente geniais, isso sem falar no humor negro com timming perfeito e as nuances de uma cidade do interior americano, com uma polícia local despreparada (e desinteressada) por fatos mais chocantes.

O elenco ainda conta com a novata Allison Tolman interpretando uma policial que tem faro legítimo, mas que incrivelmente está sempre certa nas horas erradas.

Já renovada para a segunda temporada, a série será enxertada de personagens e atores novos, afinal a new season terá uma história diferente como se fosse um prequel da primeira. Já confirmados estão Keir O’Donnel, Ted Danson, Patrick Wilson, Kirsten Dunst, Jesse Plemons, dentre outros.

Podemos ter certeza de um bom espetáculo para a próxima temporada prevista para o segundo semestre de 2015.

 

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fev 102015
 
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TMPC_Unbroken

 

 

Talvez por algum motivo especial, em uma determinada época, vários filmes com o mesmo tema são lançados parecendo até coisa combinada. Neste caso o mote da vez são as histórias verídicas sobre guerras e suas sempre danosas consequências.

No caso de “Invencível” (Unbroken) a regra de se contar uma história bastante linear e nos padrões de outras já contadas, parece temerária e as vezes até medrosa. A então diretora Angelina Jolie simplesmente seguiu a regra e os pontos básicos para não errar. Porém, também não acerta.

O filme nos apresenta a história de Louis Zamperini, filho de imigrantes italianos nos Estados Unidos, que desde cedo parece ter um destino fácil aos estrangeiros da época: álcool, cigarros e uma pré-disposição para confusão. Porém em uma guinada do destino, descobre que pode correr muito rápido e ajudado pelo irmão chega a incorporar a equipe de atletas da escola, e até disputar uma olimpíada. Porém a guerra chega e o sofrimento começa, sem ter cor, raça, crença ou piedade para qualquer um.

O que uma grande história podia trazer, “Invencível” traz. Porém não empolga em momento algum. Histórias paralelas rasas e que se limitam tão somente a contar sem se aprofundar e, em vezes se tornando até mesmo clichês sem necessidade. O ator Jack O´Connel (um ilustre desconhecido) não acrescenta em nada o personagem e chega em determinados momentos a se tornar sem expressão. As cargas emotivas poderiam ser o grande trunfo uma vez que batalhas são sempre fortes nas telas. Mas existem muitos pecados no filme, inclusive com erros de continuidade inadmissíveis (náufragos em um bote, em meio ao oceano por mais de quarenta dias com a barba perfeitamente feita, por exemplo). Realmente não é de admirar ter sido preterido pela premiação no Globo de Ouro.

É valido assistir pelos fatos históricos paralelos e também pela história de vida do atleta que, debaixo de sofrimento e maus tratos nunca esmoreceu. Também pela curiosidade de Zamperini ter assistido ao filme já finalizado somente no dia fatídico de sua morte, acamado e debilitado, no laptop da própria diretora Jolie.

Na dúvida entre tantos filmes de guerra este início de ano, a sugestão é “Uma Longa Viagem” (The Railway Man) com Colin Firth e Nicole Kidman em que apresentam uma história extremamente semelhante (quase igual) e com um roteiro fraco, porém com atuações valem o interesse.

 

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fev 052015
 
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TMPC_Birdman

O diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu já é conhecido por seus roteiros fantásticos e também por normalmente inovar a cada obra. Inicialmente conhecido por “Amores Brutos” (onde também despontou Gael Garcia Bernal), mostra conhecimento de técnicas e de atores, e ainda como não raro misturar o cinema fantástico. Agora vem nos brindar com o inquieto Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), um filme de difícil concepção e de entendimento múltiplo: neste caso, para bons entendedores meias palavras não bastam.

A história nos apresenta Rigggan, um decadente ator de meia-idade que há mais de vinte anos atrás ficou conhecido por interpretar Birdman, um anti-herói contestado por pais e críticos porém idolatrado por crianças e grande parte da população. Mas ficou atrelado a esta imagem e não há maneira de se livrar desta “roupa”. Em uma peça de teatro escrita e dirigida por ele, vê a chance de reconquistar seu respeito e também sua família.

Os melhores (e mais conhecidos) papéis de Michael Keaton foram feitos atrás de máscaras: em “Beetlejuice” (com a tosca tradução em português: “Os Fantasmas Se Divertem”) e no Batman de Tim Burton. Ninguém melhor que Keaton para encarar quase uma comédia de sua própria vida, de seus próprios fracassos e porque não dizer sua própria canastrice. Aqui ele está em casa, em uma atuação difícil e completa porém extremamente familiar, vide algumas “coincidências” impostas pelo próprio roteiro de Iñárritu: o último filme de Riggan interpretando o homem-pássaro foi em 92, mesmo ano de seu último filme como o homem-morcego. Mas as coincidências não param por aí: Edward Norton e Emma Stone também participaram de outros filmes de heróis como “O Incrível Hulk” e “O Espetacular Homem-Aranha“, respectivamente. E as referências continuam até o último momento lembrando muito e propositadamente Hitchcock, Godard, Kubrick (spoiler: cena de perspectiva que lembra muito “O Iluminado” inclusive usando uma réplica perfeita do tapete usado no filme) dentre outros. Spoiler: em um determinado momento Riggan cita George Clooney, comentando que se os dois estivessem em um avião, a capa do jornal seria a morte de Clooney, e não a de Riggan. Mais uma vez “casualmente” o ator George Clooney foi o Batman em duas sequências após a saída de Keaton do papel.

Mas o mérito do filme não é apenas a metalinguagem ou as referências. Não pára por aí. Do início ao fim em algum momento o espectador tende a se identificar, seja com as atitudes do protagonista em relação a sua profissão de altos e baixos, seja com a família desestruturada, problemas com álcool e discussões acirradas sobre drogas, ou ainda o próprio futuro de cada um.

A fórmula dos planos sequência usados pelo diretor não é novidade alguma, visto que já foram usadas e exploradas outras vezes nos também consagrados “Festim Diabólico“, “Arca Russa” e mais recentemente no suspense uruguaio “La Casa Muda“. Mas o grande trunfo foi o chamado “realismo mágico” usado muito para misturar a realidade a ficção, não só da história em si, ou dos personagens mas também uma crítica severa a forma de se fazer cinema e ao próprios críticos da sétima arte, que se sentem deuses capazes de afundar ou erguer uma obra sem ao menos terem passado por uma oficina de teatro ou ainda um set de filmagens (slap!). Ou ainda a crítica muito direta aos filmes de “ação” e “aventura” que apenas mostram pancadaria sem nexo algum, ou ainda corridas de carro sufocantes onde os protagonistas não sabem nem ao menos o que a palavra “protagonista” significa. A falta de imaginação ou bom senso na criação de filmes mais intensos e/ou inteligentes.

Em relação premiação do Oscar, em que concorre em nove categorias (edição de som está fantástica) este ano, será difícil bater Boyhood pela inovação (gravar 12 anos com os mesmos personagens), porém onde Boyhood se esquece da técnica, o “Birdman” de Iñárritu exagera. Dando show.

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