jul 262017
 
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Antes era difícil falar. Difícil de encontrar uma linguagem nas telas onde se conseguisse exprimir um sentimento ou uma sensação, e para tanto os diretores e roteiristas usavam de subterfúgios e metáforas tentando exemplificar as vezes o inexplicável. E sem dúvida Terrence Malick é um mestre na arte de fazer entender o incompreensível e confundir ainda mais o que as vezes é inexplicável. Porém em “De Canção em Canção” ele passa por muito do que os novos e antigos diretores tem passado: a difícil arte de falar fácil.

Em meio a cena musical de Austin, no Texas, dois casais partem para o desconhecido tentando encontrar a si mesmos – os compositores Faye e BV, e um magnata da música (Michael Fassbender) com uma garçonete – mas nem sempre o escuro pode ser confortável como se imagina. Perdidos em suas próprias vidas, acabam usando outras como muletas para chegarem onde seus corações mandam (ou exigem).

“De Canção em Canção” engana muito logo na primeira impressão pois trás um poster que lembra em muito filmes como “The Wonders” e “Sing Street, ou ainda a capa de um disco do U2. Mas esqueça qualquer tipo de referência a estes ícones mais agitados, pois a história é bem outra: apesar do filme ter uma trilha sonora deveras interessante e bem produzida combinando com o trabalho de primeira linha com a direção de arte, e ainda a câmera solta aliada a uma excelente trabalho de fotografia não compensam as duas horas de roteiro longo e arrastado onde até algumas cenas importantes chegam a chorar na tela de tão lamuriosas.

Uma expectativa que ficou muito aquém do esperado foi a de Ryan Gosling (hoje o queridinho de Hollywood) – quem tem variado entre bons trabalhos (La la Land) e alguns tropeços sem motivo (Dois Caras Legais) – que parece ter a mesma cara em todas as cenas, não conseguindo em momento algum entrar no filme. Apesar do elenco oscarizado de Natalie Portman, Rooney Mara, Cate Blanchett, dentre outros também importantes, a coisa continua no mesmo ritmo por ininterruptas e longas duas horas de duração. O que pode diferenciar e talvez chame mais atenção do que as próprias estrelas cinematográficas, são as presenças (quase) insólitas de Iggy Pop, Red Hot Chili Peppers, Patti Smith e uma aparição sem motivo de Val Kilmer. É quase como assistir a um filma da Marvel, só pra procurar o Stan Lee em alguma cena. Uma pena.

Malick fica tão modesto em seus detalhes que realmente não são percebidos. Não há como. Menos ousadia na próxima vez, Malick. Menos. Bem menos. Minhas sinceras desculpas aos adoradores de filmes arrastados e contemplativos, mas esse passou dos limites…

jan 312017
 
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Diante tantas correrias, sangue, socos e bombas que o cinema americano atual nos proporciona, “La La Land” de Damien Chazelle vai na contramão de tudo e quase contra todos, mostrando que cinema de qualidade ainda se faz com bons atores e atrizes comprometidos com o espirito de uma boa produção, roteiro e amor a sétima arte.

Depois da pedrada de “Whiplash” em 2015, Damien nos mostra a simplicidade que pode se ter no gênero um tanto quanto esquecido e “escanteado”, mas que normalmente quando aparece faz muita graça (“Moulin Rouge“, “Chicago“, “Mamma Mia“, etc) e que ao mesmo tempo pode ser empolgante, dramático, engraçado e ainda ter um enlaces no final de literalmente tirar o chapéu. O filme “La La Land” acaba desfranzindo também muitos rostos de menos aficionados no gênero, que normalmente esperam uma obra pesada e cheia de cantorias. Não! A “cidade das estrelas” é contada com muito gosto, como se mostra na cena inicial: com um plano sequência em “travelings” comuns a magia acaba por se fazer em um dos lugares mais monótonos para os dias de hoje – um trânsito caótico. A produção também é um deleite a parte e feita com carinho, onde as roupas dos personagens vão tomando cor de acordo com cada estação apresentada durante o longa.

Obviamente Ryan Gosling e Emma Stone estão muito longe de serem comparados a Gene Kelly e Debbie Reynolds (Cantando na Chuva), ou ainda com John Travolta e Olivia Newton-John (Grease), porém há de se elogiar o empenho de ambos em trazer vida própria aos personagens. Gosling por exemplo, teve de aprender a tocar piano em tempo recorde (e de forma excelente) para não usar dublês, uma vez que iria contracenar com o músico John Legend, enquanto que para Stone dançar nunca foi atributo para seu corpo diminuto e franzino. Outra presença ilustre é a de Tom Everett Scott, que fazia o líder da banda The Wonders, no filme de mesmo nome.

Ainda o filme nos faz reviver diversos outros clássicos em pequenas gotas e em doses homeopáticas, trazendo de volta uma mágica especial mas não excepcional. “La la Land”, apelido carinhoso da cidade de Los Angeles, nos faz sonhar novamente, e em determinados momentos consegue com tanta força que pode tanto nos prender na cadeira quanto nos tirar no chão em voos e saltos longínquos: exatamente como a vida deve ser.

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