set 052016
 
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Cinezone Poster - AqUARIUS

Sinceramente? Depois de assistir o último minuto de filme comentei: “Eu quero ser Kleber Mendonça Filho“. Sim. Eu quero ser esse cara quando crescer. “Aquarius” simplesmente coloca o cinema nacional novamente em um dos patamares mais altos possíveis. Depois do incompreendido “O Som ao Redor” (e que eu mesmo tive dúvidas) o crítico pernambucano simplesmente faz um espetáculo para poucos diretores e para todos os espectadores.

A historia contada gira em torno de Clara (Sônia Braga), que vive sozinha num apartamento à beira-mar do antigo prédio chamado “Aquarius”. Ela já tem uma vida estabilizada e agora está sofrendo nas mãos de uma construtora que planeja destruir o edifício onde ela mora para construir um mais moderno. E para isso a construtora não terá escrúpulos.

Podemos definir “Aquarius” como a própria metáfora brasileira. Com um solavanco atrás de outro, sopapo atrás de sopapo, Mendonça vai empilhando desaforos bem contados da nossa história passando pelos ancestrais e negros oprimidos de ontem e nos trazendo até o nosso ainda machista cenário tupiniquim sem ser piegas e nem agressivo. As são idéias colocadas sutilmente com enquadramentos de Kubrick aos diálogos de Woody Allen, de câmeras latentes de Coppola a os enfoques distorcidos de William Friedkin, passando também por Malick e Walter Salles Jr. Sem falar no roteiro justinho como uma luva.

Cinezone Middle Aquarius

E Sonia Braga? O que dizer dessa megera indomada? Parece ter absorvido e incorporado os dramas e amores incompreendidos da personagem, fazendo uma Clara lúcida e vigorosa sempre altiva e guerreira também enfrentando o mal de dentro para fora (como deve ser). Julgada por ser a dama da lotação e a rainha da chanchada ou ovacionada por ser a mulher aranha de Hector Babenco e William Hurt ela sobrevoa com seu véu sobre as praias de Recife, onipotente.

Por definição, Aquário é a era de fraternidade baseada na razão onde será possível solucionar os problemas sociais com grandes oportunidades para o desenvolvimento intelectual e espiritual e com o conhecimento acima da razão e percepções diretas do coração. E Kleber Mendonça consegue construir uma obra onde simplesmente todos estes conceitos conseguem ser engolidos, transformados e regurgitados em uma sensacional aula de como se faz cinema. De verdade.

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abr 292015
 

CasaGrande_poster_cartaz

Uma câmera estática. Na Jacuzzi um homem descansa aos fundos de sua mansão. Enquanto isso os créditos vão passando e alimentando o necessário de informações. Logo após o homem sai da piscina e vai se recolhendo e desligando cada luz da casa até que tudo fique em silêncio. Este é o início de “Casa Grande“, que começa de uma forma diferente e cheia de expectativa, mas que acaba esbarrando em novos erros velhos.

A obra traz um cinema sem clichês e que tenta ser melhor do que realmente é, escapando do cinema nacional mais clássico onde a câmera rápida com os diálogos ríspidos e putaria se acomodam. Mas apenas tenta.

Não adianta somente a tentativa de ser um filme com críticas sociais (diálogos perdidos tentam contextualizar as cotas raciais, mostrar as diferenças entre classes e/ou ainda envolver personagens que não se encaixam nas cenas). Existe complexidade nas cenas e o espectador consegue ficar grudado nos momentos, que não conseguem ser angustiantes ou cômicos ao menos. A ideia de mostrar a nova sociedade formada pós crise governamental declarada é original e tem um “que” de perspicaz. Mas não arranca, não decola. Nos pudores de um roteiro simplista que não sabe exatamente onde vai, nem o que quer, perdemos uma história que poderia ser complexa e melhor tramada.

Um cinema diferente por exemplo no ótimo “O Lobo Atrás da Porta” onde apesar do final não ser exatamente o que se espera, é real e crú, como a vida muitas vezes (ou quase sempre) o é. Ou ainda do inesperado “O Som ao Redor” que tem controversas opiniões e faz com que a crítica ao menos se movimente ante o social.

Em “Casa Grande” vale a tentativa da inovação. E paramos por aí.

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