jan 062016
 
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Cinezone Poster - Revenant

Tenso. É uma das muitas palavras que podem definir a nova obra de Iñarritu. O aclamado diretor entra definitivamente no hall dos grandes de Hollywood. Talvez pelo fato de não ser americano, ou ainda, pelo fato de ser um latino fazendo sucesso na terra dos gringos, ele teve de se superar ainda mais. O Oscar de Birdman (2014) parece não ter sido o suficiente para que sua técnica apurada e visão diferenciada fossem reconhecidas. Em “O Regresso” se existia alguma dúvida de sua unanimidade, já não existe mais.

As cenas iniciais de “O Regresso” são grandiosas em todos os sentido com grandes planos muito abertos, e com sequências de tirar o fôlego. A câmera vai se movimentando ora como se fosse um animal de caça que acompanha seu dono, ora como se fosse uma águia que observa atentamente suas presas, ou ainda como uma subjetiva nos olhos do primeiro protagonista. A cena de luta e guerrilha travada no início já diz que tudo o que segue terá a mesma linha de cuidado e dedicação. A fotografia é um deleite a parte.

Quanto ao elenco: definitivamente se não for o melhor papel de Leonardo DiCaprio, com toda certeza é o maior. Há quem fique esperando o prêmio ao ator ser negado pela quinta vez para poder critica-lo, mas não há como ficar imune a toda emoção e sofrimento, luta pela sobrevivência e sede de vingança carregados. Tom Hardy também faz um papel próprio e parecendo ser escolhido para ele (ainda que se saiba que o ator escolhido inicialmente seria Sean Penn – que já trabalhou com o diretor em “21 Gramas“), grotesco e com escrúpulos apenas para si mesmo.

Tema abordado seguidamente nas obras do diretor é a condição humana. As alfinetadas frente a sociedade que não aceita o diferente são constantes: “eles não te enxergam pelo que você é, ou o que você faz: apenas olham para a cor da sua pele e te definem.” A segregação racial como forma definitiva de abordagem desde os tempos mais remotos da sociedade como ela é. Ou sempre foi.

Comentar mais alguma coisa a partir daqui seria entregar mais detalhes desta grande produção, que merece ser observada com todo o cuidado e respeito pelo trabalho que merece. Uma grande obra, com grandes atores e super-produção que movimenta o espectador explorando sentimentos e emoções quase primitivas que afloram a cada minuto.

Memorável. Épico. Simplesmente: Cinema, com “C” maiúsculo!

 

 

Título Original: The Revenant

Direção: Alejandro Gonzáles Iñarritu

 

abr 142015
 
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The-Humbling-Poster

 

Falar de Al Pacino é como chover no molhado. Um ator que, durante toda sua carreira interpreta a si mesmo e ainda assim consegue se salientar ante os grandes sem perder a suposta majestade, definitivamente tem seus louros merecidos. Há algum tempo nosso inesquecível “Scarface” não mostrava as unhas.

Em “O Último Ato” o ator Simon Axler está em franca decadência de público e crítica, quando resolve em um ato desesperado e de pouca (talvez muita) lucidez cair do palco em sua última peça. Após frequentes sessões de terapia via Skype, seu psiquiatra resolve interna-lo em uma clínica para reabilitação onde tem uma estada entre malucos e mal resolvidos. Logo após acaba retornando para casa e lá é recebido por sua jovem afilhada (Greta Gerwig): fã incondicional e lésbica assumida. A partir deste momento o ator começa a rever seus conceitos.

O retorno as telonas lembra em muito o recente “Birdman“, porém sem o fantástico de Iñárritu, onde a confusão ente imaginação e realidade é frequente. Neste caso o público na maior parte do tempo sabe onde pisa e consegue discernir os momentos mágicos frutos da mente, daqueles reais. Pacino ainda consegue fazer um mix de todos seus papéis memoráveis em um só, trazendo forte presença de trejeitos que o fazem lembrar sempre e em alguns momentos buscando até (sacrilégio) Woody Allen a lembrança.

Um novo filme pode trazer um novo pulmão para o ator que consegue circular sem problemas entre o drama e a comédia com uma incrível rapidez que pouco se vê fazendo, com que o público se identifique em diversos momentos (a impagável parada na clínica veterinária). A versatilidade é indiscutível dando mérito também ao diretor que, entre câmeras distantes e primeiro plano consegue fazer bem a tradução da obra do escritor Philip Roth. Em certos momentos “O Último Ato” pode parecer cansativo, massante e por vezes até sonolento porém sempre grandioso, como o sempre Al Pacino.

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mar 242015
 
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OMPC_AcimaDasNuvens

 

A arte de interpretar a si mesmo no cinema ou no teatro não é novidade nenhuma, visto “Birdman” como vencedor do último Oscar. Ainda que a ideia temática esteja muito longe do filme de Iñárritu, o francês “Acima das Nuvens” de Oliver Assayas, não foge ao contexto do famoso jogo de espelhos.

A sempre impecável Juliette Binoche que interpreta Maria no filme, é uma famosa atriz de teatro que há vinte anos fizera uma peça onde uma jovem ambiciosa tem um relacionamento de amor e ódio com uma mulher rica e de muito mais idade que ela. Antes interpretando a jovem, Maria é convidada novamente para atuar na mesma peça, porém no viés do papel que hoje lhe cabe, de uma mulher de mais de quarenta anos. Para isso leva consigo a assistente Valentine (Kristen Stewart) com quem conta profissionalmente e também como ombro amigo.

Os diálogos entre Binoche e Stewart balizam toda obra, muitas vezes ou quase sempre confundindo a realidade com o teatral. A cada momento os textos são repassados entre as duas com a sutileza de não se ter a certeza do que realmente estão tratando: se da vida real, onde amigas (talvez amantes) e profissionais buscam aprimoramento, ou ainda como personagens da própria peça ensaiando suas vidas.

Ainda existe a contrapartida de Chloë Grace Moretz, personagem que vem do cinema hollywoodiano trazendo todo uma bagagem de escândalos, drogas e amantes juntamente com uma gama de paparazzis. O papel chega a ser ironicamente comparado com “Lindsay Lohan” por sua tenra idade e já notada no negativamente no cenário. Existe aí uma crítica sutil aos interesses da mídia quanto ao que é realmente interessante quando se vende: a arte da interpretação ou a ostentação do escândalo bizarro e da vida pessoal? Tire suas próprias conclusões.

 

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fev 262015
 
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OMPC_LoucasPraCasar

Infelizmente o cinema nacional ainda é muito marginalizado. Ainda parece aquele menino com medo de crescer, com medo de colocar os olhos na rua e apanhar dos meninos maiores, talvez até com medo de ser ridicularizado perante a grande maioria. Porém não tem idéia do potencial que tem e certamente já possui a coluna completamente formada para que possa andar ereto entre os grandes.

O grande nicho e poder bélico nacional vem das comédias e dos romances, ou ainda das “comédias românticas” (como preferir). Uma pena que em “Loucas Pra Casar” a ideia é mal divulgada. O filme encabeçado por Ingrid Guimarães possui roteiro e vida própria, e mostra que temos potencial para muito mais. Apesar de alguns clichês e ideias chupadas de outros filmes, vale a compra da ideia e da imaginação da disputa de três mulheres por um mesmo homem, e que estão lutando pela felicidade de um casamento. A obra anda a passos largos sem ser cansativo, ultrapassando os demais fracos nacionais do mesmo estilo.

Mas a inovação é o grande golpe e que faz o filme bom. Uma iniciativa de suprir o riso fácil pelo pensamento crítico e não de simplesmente chover no molhado, com piadas prontas. É um pouco mais do que simplesmente rir. É interpretar e, até julgar o filme. A obra. Um crescimento e ao mesmo tempo um “desplugue” do óbvio. Ainda que o final seja bastante surpreendente, qualquer outra coisa que disser será um belo spoiler.

Posso ser presunçoso, mas não há como prever se a bilheteria “blockbuster” nacional tem capacidade (ou vontade) de fugir do pronto, do fácil e, se propor a pensar um pouco no cinema novo mundial (inclusive balizado pela escolha de “Birdman” no Oscar, deixando para trás o inovador porém linear “Boyhood”. Mas ainda volto a insistir que foi mal divulgado e vendido como outro qualquer, com a velha fórmula do velho cinema brasileiro marginalizando seu próprio cinema. Feita pelos próprios brasileiros. Capazes. Mas ainda incrédulos do próprio potencial.

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fev 052015
 
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TMPC_Birdman

O diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu já é conhecido por seus roteiros fantásticos e também por normalmente inovar a cada obra. Inicialmente conhecido por “Amores Brutos” (onde também despontou Gael Garcia Bernal), mostra conhecimento de técnicas e de atores, e ainda como não raro misturar o cinema fantástico. Agora vem nos brindar com o inquieto Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), um filme de difícil concepção e de entendimento múltiplo: neste caso, para bons entendedores meias palavras não bastam.

A história nos apresenta Rigggan, um decadente ator de meia-idade que há mais de vinte anos atrás ficou conhecido por interpretar Birdman, um anti-herói contestado por pais e críticos porém idolatrado por crianças e grande parte da população. Mas ficou atrelado a esta imagem e não há maneira de se livrar desta “roupa”. Em uma peça de teatro escrita e dirigida por ele, vê a chance de reconquistar seu respeito e também sua família.

Os melhores (e mais conhecidos) papéis de Michael Keaton foram feitos atrás de máscaras: em “Beetlejuice” (com a tosca tradução em português: “Os Fantasmas Se Divertem”) e no Batman de Tim Burton. Ninguém melhor que Keaton para encarar quase uma comédia de sua própria vida, de seus próprios fracassos e porque não dizer sua própria canastrice. Aqui ele está em casa, em uma atuação difícil e completa porém extremamente familiar, vide algumas “coincidências” impostas pelo próprio roteiro de Iñárritu: o último filme de Riggan interpretando o homem-pássaro foi em 92, mesmo ano de seu último filme como o homem-morcego. Mas as coincidências não param por aí: Edward Norton e Emma Stone também participaram de outros filmes de heróis como “O Incrível Hulk” e “O Espetacular Homem-Aranha“, respectivamente. E as referências continuam até o último momento lembrando muito e propositadamente Hitchcock, Godard, Kubrick (spoiler: cena de perspectiva que lembra muito “O Iluminado” inclusive usando uma réplica perfeita do tapete usado no filme) dentre outros. Spoiler: em um determinado momento Riggan cita George Clooney, comentando que se os dois estivessem em um avião, a capa do jornal seria a morte de Clooney, e não a de Riggan. Mais uma vez “casualmente” o ator George Clooney foi o Batman em duas sequências após a saída de Keaton do papel.

Mas o mérito do filme não é apenas a metalinguagem ou as referências. Não pára por aí. Do início ao fim em algum momento o espectador tende a se identificar, seja com as atitudes do protagonista em relação a sua profissão de altos e baixos, seja com a família desestruturada, problemas com álcool e discussões acirradas sobre drogas, ou ainda o próprio futuro de cada um.

A fórmula dos planos sequência usados pelo diretor não é novidade alguma, visto que já foram usadas e exploradas outras vezes nos também consagrados “Festim Diabólico“, “Arca Russa” e mais recentemente no suspense uruguaio “La Casa Muda“. Mas o grande trunfo foi o chamado “realismo mágico” usado muito para misturar a realidade a ficção, não só da história em si, ou dos personagens mas também uma crítica severa a forma de se fazer cinema e ao próprios críticos da sétima arte, que se sentem deuses capazes de afundar ou erguer uma obra sem ao menos terem passado por uma oficina de teatro ou ainda um set de filmagens (slap!). Ou ainda a crítica muito direta aos filmes de “ação” e “aventura” que apenas mostram pancadaria sem nexo algum, ou ainda corridas de carro sufocantes onde os protagonistas não sabem nem ao menos o que a palavra “protagonista” significa. A falta de imaginação ou bom senso na criação de filmes mais intensos e/ou inteligentes.

Em relação premiação do Oscar, em que concorre em nove categorias (edição de som está fantástica) este ano, será difícil bater Boyhood pela inovação (gravar 12 anos com os mesmos personagens), porém onde Boyhood se esquece da técnica, o “Birdman” de Iñárritu exagera. Dando show.

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