set 222015
 
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Cinezone Poster Maze 2

 

A sequência “Maze Runner: Prova de Fogo” entra nos cinemas com uma grande expectativa, relacionada a manter o pique do primeiro filme e busca nos pormenores ser mais correria do que ciência, mais ação do que conhecimento, mais brincar com o público do que propriamente faze-lo pensar. Felizmente não chega a ultrapassar o primogênito que dá nome a trilogia, mas sim empolga muito fazendo valer o ingresso daqueles que procuram uma mera diversão com os amigos em um cinzento dia de chuva…

Após a saída do labirinto, Thomas e seus amigos sobreviventes caem nas malhas daqueles que supostamente os querem ajudar: mas neste mundo agreste em que se encontram ninguém quer dar alguma coisa sem ter nada em troca. A terra foi devastada pelo sol e pelos demais agentes que a natureza revolta trouxe consigo. Em meio a essa nova realidade, povos nômades e criaturas aterrorizantes fazem o cenário cada vez mais caótico, onde os sempre rebeldes deverão ser mais fortes do que imaginam e tentar atravessar ilesos e juntos mais essa aventura.

O roteiro deste segundo filme sinceramente é o que menos importa (pelo menos é o que parece), uma vez que temos muito corre-corre, muita ação a qualquer preço, e poucas vezes o público se vê obrigado a pensar: é sentar e assistir a mais aquela trilogia juvenil sem muita pretensão. Méritos sim ao diretor que conseguir tirar água de pedra, que com um roteiro pobre consegue enaltecer as cenas de ação fazendo ainda com que as reviravoltas mais esperadas aconteçam. Em raros os momentos teremos o prazer de sermos surpreendidos.

Mas nem tudo está perdido pois a continuação está recheada de novos atores que acabam por dar novo um fôlego na trama: o sempre bom Giancarlo Esposito (o Gus de Breaking Bad), Aidam Gillen (Game of Thrones), Lili Taylor, e o britânico com veia de comediante afetado Alan Tudyk (do excelente “Morte No Funeral”). Tambéma trilha sonora é competente garantindo a tensão nas horas certas e conseguindo nivelar a película ainda com o anterior.

Ainda há a inserção de “zumbis” com a tentativa de fidelizar um pouco mais o público adolescente. Talvez tenha até conseguido. Mas não emplaca com quem quer um pouco mais de “cinema”, propriamente dito.

 

 

Título Original: The Scorch Trials

Direção: Wes Ball

set 172015
 
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Cinezone - Ricki And The Flash Poster

Falar de Meryl Streep é quase como chover no molhado, ou ainda enxugar gelo: uma vez em cena a oscarizada atriz sempre arrebenta corações e faz de seu papel quase um ingresso a ser pago a parte. E no caso de “Ricki and The Flash” vale muito!

A rockeira Ricki há muitos anos resolveu deixar marido, família e uma vida cômoda no lar para se aventurar e fazer o que gosta: cantar, tocar sua guitarra e sair pela estrada rodando com sua banda “The Flash”. Porém após o telefonema de seu ex-marido, decide retornar onde tudo começou, pois sua filha Julie está passando por uma grande crise de depressiva pelo término do recente casamento. Sombras do passado ressurgem e a então ovelha negra da família tem que se posicionar. Nem que seja à sua maneira…

Dificilmente vemos sincronias tão grandes e ajustes tão simétricos quanto este filme de Jonathan Demme (mais conhecido pelo vencedor da estatueta de melhor ator com Tom Hanks em “Philadelphia” e pelo clássico “O Silêncio dos Inocentes“) . A roteirista do momento Diablo Cody coloca mais uma vez em pauta uma de suas experiências de vida para dar vida aos personagens. Também em outra oportunidade já fora premiada como roteirista por “Juno“, onde revela sua veia escrita no cenário hollywoodiano.

Mas as coincidências nem sempre são por acaso: Maryl Streep e Mammie Gummer que representam mãe e filha respectivamente, também são mãe e filha na vida real, o que acabou facilitando e muito as atuações transformando determinadas cenas, trazendo uma verossimilhança quase irreparável. Outro fato que acaba se tornando relevante é de que Mammie já passara por situação idêntica com seu casamento: uma separação tumultuada e nos mesmos moldes do filmado. Neste momento a metalinguagem se vê como quase obrigatória e necessária.

O filme na medida em que vai acontecendo, também vai ampliando a dimensão sem ser piegas ou cansativo dando cada vez mais emotividade e verdade aos atos (fatos). As atitudes de Ricki e o movimento de ir atrás de seus  objetivos e principalmente sua felicidade, sem olhar para trás e de ser feliz sem pedir licença se justificam a cada momento mais fortes. Meryl Streep consegue fazer uma Ricki ser simples e singular: o suficiente para ser a mãe ausente e talvez arrependida em determinados momentos, porém de cabeça erguida por ter feito as escolhas erradas. E talvez as mais certas.

“Ricki and The Flash” é um daqueles filmes sinceros e emocionantes. O final é quase apoteótico. Tanto quanto sua protagonista que dá nome a obra.

 

 

Título Original: “Ricki and The Flash”

Direção: Jonathan Demme

set 092015
 
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Cinezone - Que horas ela volta

Há quem diga que destruir uma obra é muito mais fácil do que falar bem dela. No caso de “Que horas ela volta?” é quase impossível não assistir perplexo a grandiosidade de como se faz cinema. A diretora Anna Muylaert ensina aos novos o que a bagagem pesada trazida nas costas pode mostrar.

O filme nos traz os contrapontos e os paradoxos que podem habitar uma única casa, uma vez composta por duas quase famílias tão distantes (e ao mesmo tempo tão próximas). Val (Regina Casé) é a empregada doméstica da família há anos: retirante nordestina veio para a cidade grande e aqui ficou, sendo acolhida desde sua chegada até hoje. Porém a vinda de sua filha, que prestará vestibular nos próximos dias, colocará em cheque algumas convicções, posturas e desejos de todas as partes.

Já fã de Anna Muylaert desde “Durval Discos“, não era difícil de prever grandes planos e panorâmicas contrapondo semi-closes e câmeras paradas (uma arte no momento em que se consegue ordenar e dar sentido a cada movimento). Mas o grande trunfo da diretora são o uso de cores e objetos nos cenários (juntamente com um excelente direção de arte) que o tempo inteiro falam por si. Cada detalhe é importante no momento em que cada personagem que vai sendo agregado, e a trama tem seu papel e história própria. A vida da casa vai seguindo seu rumo deixando o tempo inteiro a dúvida para qual caminho seguir, e o melhor: consegue fazer com que o espectador enxergue seus próprios dilemas.

Ainda que não exista nenhuma grande produção (ou locação), Muylaert consegue traçar claramente a visualização de uma silenciosa guerra de classes (e as vezes remetendo até nosso escravagismo) que é colocada em tensão e numa legítima ebulição, quando os mundos colidem e os princípios de mãe e filha são desafiados. Não apenas as relações sanguíneas são experimentadas, mas também a cada movimento de peças no tabuleiro, o desconforto dos dominantes é sentido pelo espectador como quem assiste ansiosamente o desfecho de uma partida de xadrez.

Não necessariamente uma partida necessita ter um vencedor. Um rei deposto ou uma rainha enclausurada nem sempre definem um campeão, mas muitas vezes a condução do jogo pode ser mais importante e vital, tendo em mente que a evolução dos primeiros lances trarão o triunfo tão desejado. Em “Que horas ela volta?” A lição é aprendida lentamente como o perdedor que observa perplexo o tabuleiro desarrumado querendo mais e mais até aprender…

Não será exagero nenhum se “Que horas ela volta?” for o brasileiro concorrente ao Oscar. E de quebra, ter Regina Casé como candidata a melhor atriz. Sim. Não só de “ixquenta” se faz uma grande profissional.

Título Original: “Que horas ela volta?”

Direção: Anna Muylaert