abr 202020
 
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Nessas férias forçadas em casa ou isolamento social (necessário) como muitos pregam, acabamos tentando que buscar aquilo que nos agrada e que nos faça momentaneamente felizes: seja realizando pequenos desejos pessoais dando atenção aos demais entes na casa, ou ainda ajustando alguns ponteiros que ficam para outra hora no correr dos dias em que normalmente não se consegue agir. O cinema/filme acaba sendo uma saída bastante democrática, cultural e inteligível. Alguns deles especialmente me chamaram a atenção. E “Swallow” foi um deles.

Na trama, Hunter (Haley Bennett) é uma jovem recém casada e que ainda se sente perdida dentro de sua nova vida. Vinda de origem humilde e visivelmente desconfortável dentro da imensa nova casa, acaba encontrando na necessidade de engolir objetos estranhos e buscando nisso um perigoso alívio. Cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos, ela acaba tendo que enfrentar sua nova família opressora e também seus próprios medos e agruras.

Filme inicialmente classificado como terror, acaba por não se traduzir a isso mas sim a um sufocante drama psicológico onde tentamos de forma involuntária ajudar a protagonista a entender sua obsessão. Não é fácil de assistir cenas tão fortes que acabam por incomodar o espectador, principalmente por contrastarem tanto com os cenários límpidos e exuberantes. Aos poucos vamos notando que as mudanças que Hunter tenta fazer em seu ambiente, não resultam em sua mudança de vida e seus hábitos ainda persistem. Tecnicamente as mudanças de cenário vão acontecendo gradualmente e mudando de cor a cada momento em que a vida de Hunter também vai se extinguindo perante sua falta de capacidade, onde ainda não entendemos a que leva a personagem aos estranhos fatos e movimentos. Aos observadores mais atentos não apenas o cenário, mas a postura da atriz, suas vestimentas, forma de falar e agir vão também sofrendo essa transformação.

A libertação (se realmente é possível) acaba se fazendo quando os monstros são confrontados fora de seu habitat natural, bem como um animal descoberto tendo de ir em busca de uma sobrevivência, porém ainda com o grande peso da vida em suas costas. O filme é muito mais que uma simples observação de um cotidiano de sofrimentos internos, mas também a sensibilidade da obra em conseguir fazer entender a cada momento da película as nuances, sem que a tragédia ou o grotesco se façam perceber, mudando o contexto do que realmente se quer mostrar ali.

Bem como a vida é, “Swallow” faz com que em algum momento consigamos nos identificar. Seja na angústia de não conseguir sair de determinada situação visto que somente atitudes não são suficientes para dobrar a mente e fazer com que sua visão de mundo e percepção mude, seja ainda na tentativa de tratar diferentemente tudo ao nosso redor fazendo com que o mundo seja mais confortável ao nosso desespero. A ânsia de “devorar” pequenos objetos (ou engolir pequenos “sapos”) diariamente pode fazer com que a vida se torne amarga, mas em algum momento o “gosto” vai ser diferente, ou perder-se completamente.

Não é um filme fácil de engolir. Literalmente.

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