set 092015
 
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Cinezone - Que horas ela volta

Há quem diga que destruir uma obra é muito mais fácil do que falar bem dela. No caso de “Que horas ela volta?” é quase impossível não assistir perplexo a grandiosidade de como se faz cinema. A diretora Anna Muylaert ensina aos novos o que a bagagem pesada trazida nas costas pode mostrar.

O filme nos traz os contrapontos e os paradoxos que podem habitar uma única casa, uma vez composta por duas quase famílias tão distantes (e ao mesmo tempo tão próximas). Val (Regina Casé) é a empregada doméstica da família há anos: retirante nordestina veio para a cidade grande e aqui ficou, sendo acolhida desde sua chegada até hoje. Porém a vinda de sua filha, que prestará vestibular nos próximos dias, colocará em cheque algumas convicções, posturas e desejos de todas as partes.

Já fã de Anna Muylaert desde “Durval Discos“, não era difícil de prever grandes planos e panorâmicas contrapondo semi-closes e câmeras paradas (uma arte no momento em que se consegue ordenar e dar sentido a cada movimento). Mas o grande trunfo da diretora são o uso de cores e objetos nos cenários (juntamente com um excelente direção de arte) que o tempo inteiro falam por si. Cada detalhe é importante no momento em que cada personagem que vai sendo agregado, e a trama tem seu papel e história própria. A vida da casa vai seguindo seu rumo deixando o tempo inteiro a dúvida para qual caminho seguir, e o melhor: consegue fazer com que o espectador enxergue seus próprios dilemas.

Ainda que não exista nenhuma grande produção (ou locação), Muylaert consegue traçar claramente a visualização de uma silenciosa guerra de classes (e as vezes remetendo até nosso escravagismo) que é colocada em tensão e numa legítima ebulição, quando os mundos colidem e os princípios de mãe e filha são desafiados. Não apenas as relações sanguíneas são experimentadas, mas também a cada movimento de peças no tabuleiro, o desconforto dos dominantes é sentido pelo espectador como quem assiste ansiosamente o desfecho de uma partida de xadrez.

Não necessariamente uma partida necessita ter um vencedor. Um rei deposto ou uma rainha enclausurada nem sempre definem um campeão, mas muitas vezes a condução do jogo pode ser mais importante e vital, tendo em mente que a evolução dos primeiros lances trarão o triunfo tão desejado. Em “Que horas ela volta?” A lição é aprendida lentamente como o perdedor que observa perplexo o tabuleiro desarrumado querendo mais e mais até aprender…

Não será exagero nenhum se “Que horas ela volta?” for o brasileiro concorrente ao Oscar. E de quebra, ter Regina Casé como candidata a melhor atriz. Sim. Não só de “ixquenta” se faz uma grande profissional.

Título Original: “Que horas ela volta?”

Direção: Anna Muylaert

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