maio 272015
 
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Wayward Pines

Em meio a uma quantidade enorme de seriados que aparecem e desaparecem sem muita cerimônia, alguns se destacam pela espera e pela ansiosidade que geram ao longo de sua produção. E justamente aí a nova “Wayward Pines” ganha fôlego com uma boa divulgação e balizada por um nome em especial: M. Night Shyamalan.

Somos em um primeiro momento apresentados ao agente federal Ethan Burke (Matt Dillon), que ainda atordoado pela sequência de eventos recentes, tem a missão de localizar dois colegas. Mesmo sem ter certeza de onde está, ele acaba chegando na cidade de Wayward Pines, uma pequena e estranha comunidade de Idaho onde nem tudo faz muito sentido e a cada pergunta feita, menos respostas aparecem. Ethan acorda em um hospital após um grave acidente de carro, e descobre ter perdido seus documentos, celular e a pasta que continha arquivos importantes para a continuação da investigação. Ele desconfia que algo estranho e fora de seu controle está acontecendo ali. Suas tentativas de ligar para sua esposa e seu filho são frustradas e ninguém parece acreditar que ele seja quem diz ser. Para sua agonia, ao tentar sair da cidade descobre que ela está cercada não só por colinas e cercas, mas também por uma estranha força que o faz andar em círculos.

A primeira impressão é de uma série inusitada e que vem para mais confundir e intrigar do que realmente resolver alguma situação. De acordo com o andamento do capítulo de abertura mais e mais informações são colocadas a disposição do espectador para que se consiga fazer alguma suposição ou tentar entender a lógica na vida do agente Burke. Facilmente comparada com produções anteriores “Wayward Pines” tem maneiras diferentes e cenários próprios para mais do mesmo, e ainda tem a força de expandir seu universo para onde entender pois nada existe de definitivo no roteiro: a impressão passada é justamente a de conduzir a trama como uma tele-novela onde a cada movimento da audiência a direção poderá mudar.

O elenco é uma atração a parte e que faz com que tudo se torne mais interessante. Além do protagonista Dillon, temos a bela Carla Gugino (Watchmen) e Toby Jones que invariavelmente está em papéis estranhos. De quebra temos a sempre interessante Juliette Lewis (de quem sou suspeito em falar e fã irrestrito desde “Assassinos por Natureza”), também Terrence Howard (que vem se destacando recentemente pela série Empire) e talvez o grande destaque inicial da temporada vem como a misteriosa enfermeira: a oscarizada Melissa Leo (O Vencedor).

Ainda que tenhamos muitos elementos de séries como “Persons Unknow”, “Under The Dome”, e das aclamadas “Lost” e “Twin Peaks”, temos muito do que conhecer desta obra para a TV de Shyamalan. Ao que tudo indica o diretor famoso pelo eterno “O Sexto Sentido”, filme que revolucionou e espantou a muitos pela forma de apresentar suas armas ludibriando o espectador nos detalhes, nos fará bater muita cabeça antes de qualquer revelação. A mão do indiano ainda não chegou a mostrar para o que veio. Porém, como todo seriado, precisa de audiência para se manter em permanente produção pois já muitas boas obras saíram injustamente do circuito pela questão financeira. Aguardemos fielmente o andamento em Wayward Pines. Que promete.

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maio 192015
 
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Cinezone Poster Mad Max

 

Épico! Não há uma palavra melhor para definir o novo filme da franquia “Mad Max”. Épico! Uma experiência além da expectativa e que faz com que o espectador grude na cadeira do início ao fim, com um nó na garganta e poeira carcomendo os olhos. Com setenta anos, George Miller dá uma aula de cinema de ação e sci-fi para os novos e supre com toda vontade a nostalgia pós apocalíptica cyberpunk, que agonizava nos mais aflitos em rever o couro e o ferro rasgando as entranhas.

A história nos coloca no cenário de um imenso deserto onde a gasolina e a água são ingredientes raros e ao mesmo tempo de pura combustão. A vida é apenas um fator de sorte e luta para Max Rockatansky (Tom Hardy). Em lugares ermos existem sociedades, e dentre elas está a liderada por Immortan Joe, espécie de líder violento e carismático que rege a água e o destino de todos dentro de um fervor religioso entre a vida e a morte. Nesta sociedade há o alto clero que decide quem vive e quem morre, enquanto a baixa casta é composta por um povo miserável e sedento onde as mulheres saudáveis são subjugadas e vivem aprisionadas com a única função da reprodução. Os homens que são caçados por essa horda servem para o abastecimento de sangue e órgãos para o exército local quando necessário. Mas um desequilíbrio é colocado em prática quando Furious (Charlize Theron) resolve raptar as mulheres mais novas, juntamente com um tanque de combustíveis.

O roteiro do filme passa quase despercebido e mostra que não se torna tão importante no momento em que a direção de arte, fotografia, som e a ação podem fazer o papel deste. Em Mad Max tudo foi meticulosamente cuidado, sem deixar pontas desamarradas em momento algum. Tecnicamente perfeito, consegue montar uma obra com cortes rápidos proporcionais e tão cuidadosos quanto angulações de câmera fazendo com que os grandes planos usados não se tornem cansativos. A trilha sonora acompanha orquestrada a cada rodada de pneu e rajada de fogo saindo das guitarras: temos a impressão de que uma banda de rock segue as trupes desenfreadas em sintonia com cada gesto e tomada juntamente com gigantescas caixas de som no volume máximo. Tudo é tão perfeito, que até o “flare” (efeito do sol na lente da câmera que causa certas manchas de luz circulares) está no lugar certo e na hora certa.

Em meio a ao turbilhão sangue e areia, sensíveis olhares são notados quanto a relação sexualidade/força e a tentativa de equiparação de hierarquia e lugar onde ambos se equivalem: ainda que não seja aceito em um primeiro momento pelo lado masculino, a fragilização do ser e a masculinização pelo rudimentar feminino. Em diversas vezes estes papéis são invertidos mostrando a importância do papel da mulher não só na sociedade moderna, justamente por estarem (supostamente) em um mundo que já não existe. Muitas vezes a falta de aceitação desta verdade faz com que a força e a violência sejam usadas contra os menos providos.

Não pode-se esperar um reboot ou alguma continuação dos outros três filmes estrelados por Mel Gibson (que inclusive esteve na premiére em Cannes), e sim uma nova aventura do flagelo do deserto. Algumas referências (como a perda da família e o velho Interceptor V8) são feitas aos anteriores, para que o público que não conhece a saga não fique completamente perdido. Ainda falta o carisma do personagem encarnado por Hardy, que ainda que fale menos de cem palavras em duas horas, consegue carregar o peso de uma antiga trilogia nas costas sem problema algum.

Com este exemplar, qualquer videoteca estará bem servida.
Caso exista uma sequência, será muito bem vinda.

Ps. Dê preferência para a exibição 3D ou ainda se possível, ao IMAX para uma experiência completa.

 

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maio 142015
 
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Cinezone WhiteGod poster

 

Filme sensação em Cannes e concorrente ao Oscar pela Hungria, “Deus Branco” não chega a ser uma obra prima cinematográfica, porém assusta e espanta pela coragem como foi feito. A história nos apresenta Lili: uma menina de treze anos que com os pais separados tem de ficar algum tempo com o pai em virtude de uma longa viagem da mãe a trabalho. Ela tem como companheiro fiel o cão Hagen, um labrador mestiço. Entre idas e vindas no relacionamento conturbado no apartamento onde então está convivendo, seu pai em um ataque de fúria resolve livrar-se do cachorro, deixando-o as margens de uma rodovia de Budapeste jogado a própria sorte. Tem início uma saga de dor e sofrimento para todos os lados, e as vidas são contadas paralelamente até o fantástico desfecho.

O filme é uma referência a obra de 1982, onde um cão branco é treinado para atacar e matar pessoas negras. Nesta obra do diretor húngaro Kornél Mundruczó (que também faz uma ponta), as idéias não param somente nas simples e meras comparações, pois acabam se traduzindo em vias de pensamento muito mais complexas do que a relação de afeto entre uma menina e seu “melhor amigo”. O animal que percebe tudo a sua volta e parece entender a evolução de uma sociedade e a adaptabilidade que deve sofrer para entender e suportar o peso da hipocrisia, xenofobia e o esmagamento sistemático de minorias: ser atacado simplesmente por ser inocente.

O homem é figurado como o “deus branco” que designa quem vive ou morre, quem pode ser “aproveitado” ou não pela sociedade. Isso fica claro na abertura do filme, quando em um abatedouro o de o pai de Lili abre um animal inteiro para inspeção.

Uma vez que a menina toca um instrumento de sopro, é possível fazer uma analogia ao conto medieval alemão do “Flautista de Hamelin”, que podia enfeitiçar animais e crianças com sua flauta mágica.

Conto ou realismo fantástico, fato é que “Deus Branco” (White God) é um filme para ser visto e revisto.

 

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maio 142015
 
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Cinezone Chappie Poster

 

Os filmes de Neill Bloomkamp são sempre muito parecidos: normalmente Johanesburg (ou semelhante) com cidades cinzentas, situações atuais com interferências futuristas, personagens masculinos como referencial, sociedades divididas em castas e pela situação econômica. Com “Chappie” não é muito diferente.

Os robôs (livremente inspirados no personagem Briareos, do mangá Appleseed) são os policiais de 2016 colocados nas ruas para interagirem com os humanos e promover a paz e segurança. Seu criador Deon (Dev Patel) sonha e trabalha firmemente em um projeto para trazer “consciência” as máquinas, que além de julgamento terão também sensações e emoções adquiridas com o convívio social diário (como um recém nascido aprendendo gradativamente). Em contra-ponto temos o personagem de Hugh Jackman (inexpressivo) que insiste em uma máquina mais mortífera e efetiva comandada “manualmente”: ele está disposto a derrubar o projeto de Chappie a qualquer preço.

Neste ponto, com um misto de inveja e ganância, o projeto de Deon chama atenção de traficantes que querem usar sua força e inteligência supostamente biônica para praticar delitos. Em meio a confusão, acabam por dar vida ao brinquedo.

Podemos chamar “Chappie” de um novo Frankenstein, pois ganha vida a partir de outros consagrados: trabalha com a premissa de “O Exterminador do Futuro“, onde as frases prontas e sentimento adquirido são desejáveis; incluí-se aí “Blade Runner” onde um simbionte é capaz de caçar seus semelhantes (ainda que de forma não declarada); ou ainda em “E.T.” onde a criatura e seus próximos se afeiçoam a ponto de criarem uma relação pai/mãe; e ainda podemos passar por “Transcendence” onde a o conhecimento e a percepção são virtudes a serem alcançadas pela máquina; e porque não, Pinóquio? A trilha sonora bem feita lembra em muito Robocop, que não é de se admirar uma vez que o narrador do filme de 1987 é o mesmo nas cenas iniciais.

Curiosidades: não é a primeira vez que o eterno Wolverine contracena com robôs, pois em “Gigantes de Aço” faz um papel semelhante, porém como protagonista. Outro fato que até então parecia irrelevante é que o casal de bandidos “Mama” e “Ninja” , são os nomes reais da dupla “Die Antwoord“, muito conhecida na cena musical sul-africana.

Mas de tudo, ainda falta muito do apelo emocional usado em “Distrito 9“, sendo a segregação racial o grande mote a ser explorado, ainda que Bloomkamp tente faze-lo em uma cena com um coquetel molotov jogado as costas do protagonista. Também não chega a ter a ação bem medida que existe em “Elysium“. Ou falta, ou é exagerada. No final ainda existe a deixa para uma sequência que pode mais parecer uma comédia do que qualquer outro gênero usado até então.

 

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maio 072015
 
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abelhas cinezone poster1

Pra quem pensa em ir ao cinema e assistir as comédias escrachadas do “Porta dos Fundos” que fizeram o sucesso no Youtube, pode desistir. Em “Entre Abelhas” temos muito mais do que piadas prontas e de simples cunho midiático: temos a ciência do amadurecimento de uma turma que hoje tem um caminho longo a trilhar. E de respeito.

Tudo começa em uma despedida de casado, onde Bruno comemora o término de seu casamento. Ele trabalha em uma produtora de vídeos e acaba de voltar para a casa da mãe (Irene Ravache), com caixas cheias de lembranças do relacionamento e de incertezas quanto ao futuro próximo. Porém o inusitado acontece: ele não consegue enxergar determinadas pessoas. Sim. As pessoas começam a ficar invisíveis (ou desaparecerem) e este número vai aumentando gradativamente até um ponto de quase desespero, onde procura ajuda para tentar entender que de errado acontece.

O mundo do personagem interpretado seriamente por Fábio Porchat é semelhante ao de muitos do nosso cotidiano e que vivem do mínimo de apego ao intimismo de se colocarem no lugar de outras pessoas (coisa rara nos dias de hoje) dando preferência em muitas vezes ao supérfluo, sem saber o que realmente importa e consequentemente sem querer, fazendo com que isso tome conta dos olhos menos atentos. Em um mundo onde vivemos cercados de tablets e celulares fantásticos podemos esquecer de que um mero “bom dia” ou “com licença” pode abrir portas e caminhos: nem tanto para si ou para seu umbigo, mas sim para com quem as vezes nem se importa tanto com ele. A problematização de muitas questões sociais e de cunho pessoal são deixados muitas vezes de lado justamente como uma fuga de realidade, que as vezes pode se tornar muito perigoso.

Sem perceber, somos cansados de ser apenas mais um na multidão e resolvemos ser ninguém. Inclusive para nós mesmos.

O filme trás ainda algumas tentativas para o público conseguir entender o que se passa com o protagonista, que trazendo um dados concretos sobre o desaparecimento inexplicável de abelhas africanas cultivadas nos Estados Unidos, consiga situar o espectador no mundo/ambiente/terreno em que pisa. Dados concretos dão conta de que pragas e uso de pesticidas estão entre as principais causas desse fenômeno.

Aqui temos a ideia de que a tragicomédia proposta pelo diretor Ian SBF não se restringe apenas a risadas perdidas, mas sim a uma profundidade bem mais complexa do que piadas sexistas vistas até hoje na Internet ou em programas de televisão dominicais. Estar “Entre Abelhas” é uma questão nem sempre de opção, mas também de sensibilidade e percepção e as vezes, até de querer. Ou não.

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