jan 062015
 
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TMPC_Boyhood

 

Alguns filmes realmente te deixam com uma estranha sensação de que alguma coisa ficou faltando, ou ainda de que a compreensão poderia ter ido além do conhecimento que temos. Pois foi assim que me senti assistindo a “Boyhood“: meio sem saber exatamente o que dizer ou ainda sem ter uma opinião formada (mesmo que modesta).

Indiscutível que a maneira que o filme foi feito já pode ser considerado um desafio e tanto, e por assim dizer um marco. A produção levou praticamente 12 anos para ser concluída, pois acompanhou a vida de um menino dos sete anos até a adolescência dos dezoito. Imaginar manter uma equipe completa por todo esse tempo e estimulada, com contratos de locação, pagamentos, atores com outros compromissos dispostos a entrarem no jogo do diretor Richard Linklater também seria muito difícil. Mais ainda no caso do ator Ellar Coltrane que já na sua infância tem uma câmera à suas costas com o também compromisso de manter esta ordem por todos estes anos. Um trabalho hercúleo e de paciência a serem medidos. Pois ele conseguiu.

O enredo todo se dá mostrando a vida de um garoto e tudo o que o cerca desde família, pai e mãe separados, amigos, relacionamentos, escola e diversas situações do seu cotidiano. A ideia de fazer uma espécie de “streaming” é excelente. Mas e daí? Pois foi justamente aí que a ficha caiu… Nossa vida é feita de lembranças e de traumas onde temos a capacidade e a organização suficientes para filtrar o que entra em nossas vidas, de acordo com o ambiente em que vivemos, as experiências, etc etc etc. E eventualmente olhamos para trás para buscar alguma explicação para o que temos hoje, ou ainda para admirar uma boa lembrança: mas isso nunca vem com tantos detalhes como em “Boyhood”. Linklater consegue descrever aquilo que achamos normal e cotidiano de uma forma tão simples que acabamos por encontrar uma obra banal, mas que na verdade é quase um espelho de nossas próprias vidas. Talvez ele tenha conseguido o que tentamos pelo menos uma vez na vida ter feito, justamente olha para trás: e neste caso com riqueza de detalhes tão grande que poderá passar as vezes imperceptível. O filme ainda trás questões de difícil abordagem como bullying nas escolas, a puberdade (e a chatice dos pais nessa época), o padrasto alcoolista, e que no entanto são colocadas de forma natural. O extravaso nem sempre é o caminho mais óbvio para a expressão mais simples.

Outro detalhe bastante interessante de “Boyhood” é a maneira como a passagem de tempo é feita, não tendo legendas ou cortes bruscos: os detalhes próximos a Mason (Coltrane) nos situam no tempo. A irmã cantando Britney Spears (Oop´s! I did It Again!), as crianças atrás dos livros de Harry Potter, as mudanças de carro do pai passando do Maverick e Mustang até a van, os atentados de 11/09, a eleição de Barack Obama, até os aplicativos que facilitam a vida de hoje, etc. Detalhes importantes mas que são demonstrado pelo diretor com ênfase porém sem parecerem forçados ou colocados propositadamente.

Enfim, quando enfrentar uma situação onde terá que escrever sobre sua própria vida, ou ainda tentar lembrar de fatos que lhe fizeram chegar aonde está hoje (e porque está) não será nada difícil perto desta nova maneira de fazer cinema. Literalmente temos a sétima arte em sua essência de conseguir mostrar a vida como ela é, e não apenas as coisas como estão…

Um excelente filme, com suas ressalvas para o simples demais se transformar em quase monotonia.
Ainda que seja um filme muito bom e com uma iniciativa bárbara, acredito serem um pouco exageradas as críticas especializadas colocando a obra como a mais influente dos últimos tempos, ou ainda como atemporal.

 

 

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