O Abutre (2014)

 Blogger, Crime, Daniel Arrieche, Drama, Filmes  Comentários desativados em O Abutre (2014)
dez 312014
 
Author Rating / Nota do Autor:

TMPC Nightcrawler

 

Jornalismo sensacionalista e a guerra entre as emissoras. Os noticiários com os casos mais sangrentos e em busca da audiência a qualquer preço. O sangue escorre do olho da vítima caindo diretamente no tapete da sala. Pode-se sentir na garganta a aflição do motorista preso nas ferragens ou ainda a bala que atravessa o peito do inocente. A faca estalando no peito e rasgando a carne. As reportagens são feitas com o imediatismo que o cotidiano exige e muitas vezes com entradas dos repórteres ao vivo do local dos acontecimentos. O realismo a flor da pele para manter o espectador grudado no noticiário. Mas até onde o ser humano é capaz de ir para conquistar seus objetivos? Esse é uma das muitas perguntas feitas em “O Abutre”.

No início de tudo Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) é um biscate que vive entre um emprego e outro sem paradeiro fixo e nenhum tostão no bolso e vivendo de pequenos delitos. Porém ele tem um trunfo que com o tempo poderá ser uma arma letal em suas conquistas: o discurso. Sua capacidade de convencimento e de vender a si mesmo é tão grande que cedo ou tarde alcançará seu objetivo. Em uma de suas andanças na madrugada presencia um grave acidente e por curiosidade pára: um cinegrafista registra tudo e no dia seguinte as imagens inéditas estão rodando nas emissoras. Louis vê ali um nicho em que pode se dar bem. E dali parte na sua saga.

Os questionamentos apontados em “O Abutre” permeiam a ética profissional e também qual a contribuição de quem adquire os diretos de exibição dessas imagens, para o crescimento deste mercado negro. Tratado pelo diretor como um submundo o filme conta a história do sociopata e as que vantagens pode tirar da desgraça alheia. O sofrimento do próximo é o que mais interessa não só a ambos, mas também a uma massa ávida e estereotipada pelo próprio meio de comunicação.

Tido como um cidadão que paga seus impostos e trabalhando arduamente ele vai galgando seu espaço e tirando de seu caminho aqueles que o importunam. A qualquer preço.

Certamente a obra será referência nas escolas de comunicação do mundo inteiro pela ética e até pelo dia a dia dos profissionais da área, não só o interpretado por Gyllenhaal mas também pelo papel de Rene Russo a quem interessa a audiência e também sua própria sobrevivência. A cena do embate entre a bela e a fera é digno de um bom roteiro, fazendo com que o espectador fique assustado e preso a cadeira: o jogo de gato e rato travado entre fornecedor e receptor é digno de ser lembrado também daqui há alguns anos como um dos grandes do cinema.

Uma direção segura, firme e uma fotografia “noir” que reflete bem a personalidade de Louis Bloom. Um roteiro consistente e que deixa a dúvida do desfecho até o final. Um filme que desmascara herói ou bandido. Ética ou sobrevivência? Até que ponto chegamos?

 

LInk para o IMDb

A Família Bélier (2014)

 Blogger, Comédia, Daniel Arrieche, Filmes  Comentários desativados em A Família Bélier (2014)
dez 302014
 
Author Rating / Nota do Autor:

TMPC_FamillieBellier (2)

 

A comédia como estilo de filme as vezes pode pregar suas peças. Podemos nos defrontar as telas e sair da sala sem dar ao menos um sorriso, ou ainda ter câimbras no maxilar de tanto gargalhar (normalmente quando o nonsense aparece). Porém o mais surpreendente é ir das graças as lágrimas em um filme tão completo como “A Família Bélier“. Filme que acaba nos provando mais uma vez que os franceses são mestres indiscutíveis não só na técnica, mas também na sensibilidade de tratar temas bem complicados com uma simplicidade artística comovente.

O mesmo diretor do ácido “Os Infiéis” em 2012 também é capaz de se mostrar sutil e objetivo em 2014 quando nos apresenta a família de surdo-mudos Bélier, que convive em um vilarejo onde produz e vende queijos para sobreviver. A adolescente Paula (Louane Emera) faz o contra-ponto, pois estuda, trabalha junto com os demais e ainda serve de intérprete de sinais quando uma situação mais complexa surge. Mal sabia ela que possuía o dom da voz e de cantar tão bem que acaba impressionando o professor de música da escola: ele sugere se inscreva em um concurso para a escola de música Radio France de Paris. Ironias do destino à parte, como demonstrar a sua família que possui algum talento?

A história trata de forma leve e suave o que seria para muitos um empecilho, vem a demonstrar que a ausência de voz (ou sons) não é nenhum motivo para que até as tarefas aparentemente mais difíceis sejam cumpridas com a maior vontade e desapego. O ato de “falar” em público ou expor seus sentimentos não são colocados como uma dificuldade, e sim como apenas mais um caminho para que exista uma libertação do preconceito daqueles ditos “perfeitos”. Deficiente é quele que não aceita a maneira de ser do outro. Só o convívio íntimo e diário faz com que barreiras sejam ultrapassadas. Mas ao mesmo tempo que ante tanta liberdade de ser ou estar, a obra coloca em cheque essa tal liberdade quando da ameaça iminente da filha ir para outra cidade se coloca como uma realidade inesperada. Seria este o momento de voar?

Para a atriz Louane Emera não foi nenhum fardo interpretar uma personagem que descobre o talento de cantar sendo que foi uma das atrações do “The Voice” francês em 2012. Porém não há como tirar o mérito da personagem principal, uma vez que acaba por carregar praticamente todo o apelo emocional do filme, sempre como elo de ligação para todas as passagens do roteiro. Quase como um reality de sua própria vida, a cantora/atriz também esboça com qualidade as passagens da adolescência para a vida adulta, os colegas na escola, o primeiro namorado, e a propensa saída de casa alçando vôos mais e mais altos fazendo quase uma metáfora de sua própria metáfora.

Empolgante, cômico e emocionante. Um filme para toda a família.

 

 

Link para o IMDb

Êxodo: Deuses e Reis (2014)

 Ação, Aventura, Blogger, Daniel Arrieche, Drama  Comentários desativados em Êxodo: Deuses e Reis (2014)
dez 242014
 
Author Rating / Nota do Autor:

TMPCExodus

 

 

Existia uma enorme expectativa em assistir a epopeia do líder bíblico Moisés dirigido pelas mãos do diretor Ridley Scott em “Êxodo: Deuses e Reis”, estrelado pelo inglês Christian Bale. Porém não há como falar do profeta sem citar “Os Dez Mandamentos” de 1956. É automático vir a mente a imagem de Charlton Heston abrindo o Mar Vermelho em uma cena eternizada pela sua grandiosidade e também com a mão genial de Cecil B. DeMille à direção. Porém as comparações não ficaram apenas na arte e no cinema em si, mas também no plano histórico o que contribuiu para polêmicas entre religiosos, historiadores e os próprios espectadores ávidos por um bom filme.

O ideal é tentar entrar nas salas de cinema esquivando-se das referências bíblicas e imaginando um novo personagem: dono de si e longe daquele plebeu que levantava seu cajado, este Moisés corre, luta, briga e usa sua espada até a última cena. Um Moisés com conhecimentos bélicos e táticos, advindos de toda estadia ao lado do seu até então irmão Ramsés. Ainda que a atuação de Bale seja extremamente esforçada é difícil engoli-lo como egípcio ou ainda africano. Um dos grandes erros da escolha do elenco e da produção foi não preocupar-se com a origem de cada ator sendo que os principais são de origem inglesa, americana ou ainda australiana: pele clara e olhos verdes/azuis contrastando completamente com as origens do povo daquela região castigada pelo sol, e pelo clima quente e árido. Ressalvas ao sempre competente Ben Kingsley que se encaixa como uma luva ao ancião Nun e, também a John Turturro que trabalha de uma forma enxuta para fazer Seti quase irreconhecível como o grande Faraó.

Personagens a parte, uma grande perda é Joel Edgerton que tem uma atuação insegura e longe de um Ramsés que seja raivoso, triste ou em pânico, também bem diferente dos personagens fortes já vistos em “Guerreiro” ou ainda mais recentemente como o marido traído de “O Grande Gatsby”. Fora o desperdício de atuações apagadas e quase incógnitas (escondidas) de Sigourney Weaver (Alien) e de Aaron Paul (Breaking Bad).

Mas as tentativas e a visão de Ridley Scott quanto ao episódio da saída dos hebreus rumo a terra prometida tem seus grandes méritos na produção suntuosa (e cara): os cenários são bastante realistas e grandiosos trazendo praticamente tudo em tamanho real tanto nas minas de escravidão quanto nos gigantes de pedra erguidos em meio a areia do deserto. As cenas iniciais de ataques e lutas corporais são bem definidas e com uma coreografia típicas de “Gladiador”. Nos bastidores comenta-se que os papéis dos últimos épicos bíblicos foram invertidos e que Russell Crowe deveria interpretar Moisés, enquanto Bale faria Noé. Porém por questões contratuais e de compromissos paralelos ambos tiveram que adiar suas apresentações frente as produtoras e encaixando-se conforme acertos comerciais (certamente seriam melhor aproveitados e encaixados).

O filme em um todo cumpre seu propósito de contar a história, apresentar fatos e tentar encontrar explicações mais
científicas para os fenômenos naturais apresentados no Velho Testamento, como as sete pragas lançadas por Deus ou ainda a abertura do Mar Vermelho. Uma história mais palpável e talvez mais verossímil aos olhos atuais. Mas não há como contentar a todos: desavenças e embates entre religiosos e céticos infelizmente permeiam a sétima arte.

Ainda há uma última frase dita pelo diretor em uma de suas polêmicas entrevistas sobre “Êxodo: Deuses e Reis”: “A maior invenção do diabo, foi a própria religião”. O filme? É crer pra ver.

 

 

Link para o IMDb

Boa Sorte (2014)

 Blogger, Daniel Arrieche, Drama, Filmes  Comentários desativados em Boa Sorte (2014)
dez 162014
 
Author Rating / Nota do Autor:

TMPC_BoaSorte

 

O cinema nacional deu uma guinada radical desde sua própria reinvenção após “Carlota Joaquina” tirando de vez a pornochanchada de seu caminho e investindo obras de mais responsabilidade e contexto social. Em “Central do Brasil” veio com força arrebatando todos os prêmios e vislumbrando Walter Salles Jr. como nosso ponto de partida, e de quebra alçando (merecidamente) Fernanda Montenegro aos status de estrela internacional concorrendo inclusive a estatueta do Oscar, e injustamente preterida pela insonsa Gwyneth Paltrow. Logo após as comédias foram o ponto de referência, continuando até hoje tendo seu público cativo e liderando bilheterias. O drama/ficção ficou com a parte mais séria e didática trazendo personagens fortes e uma temática complexa visto a quantidade de temas que possuímos em nosso país. Porém no filme de Carolina Jabor ainda temos o resquício do nú pelo nú como objeto de atenção e o apelo principal de “Boa Sorte” é a atriz Deborah Secco.

A atriz tem o seu ápice como artista, e se sobressai como Judite: uma portadora de HIV, (inclusive emagrecendo 14 quilos para o papel) viciada em drogas, barbitúricos e que não tem nenhuma expectativa de vida, mas ainda assim aguarda na clínica de reabilitação seu fim iminente. A clínica é paga pela avó, que a mantém também com outras ilegalidades. Lá encontra o adolescente João, que foi internado pelos pais para livrar-se da compulsão pelo consumo de Frontal (remédio) com Fanta Laranja. O relacionamento se desenvolve em um misto de carinho, amor fraterno, paixão e sexo casual. Não para João, que se apaixona por aquela que seria eternamente sua musa.

Mas o filme não é só isso, possuindo seus altos e baixos: a fotografia do lugar expõe o abandono das clínicas e o descaso dos profissionais com a manutenção do lugar. Também usa a indiferença dos pais em relação a seus filhos usando a clínica como depósitos híbridos, simplesmente encontrando uma solução para seus problemas afastando-se deles. A poesia e a loucura, e que se estimulados positivamente são arte: na imensidão dos pensamentos absortos encontramos o mais puro nirvana.

Porém nem tudo são flores: muitas vezes todos os atributos citados acima só podem ser percebidos com a sensibilidade do espectador, talvez pela falta de experiência com longas da diretora, que consegue extrair pouco dos personagens principais (ainda que Deborah Secco se esforce ao máximo). Também a falta de direção nos coadjuvantes acabam por deixar a obra caricata e sem veracidade. A trama poderia ser muito mais aprofundada, tanto no roteiro escrito por Jorge Furtado e seu filho Pedro, quanto no desenvolvimento dos personagens: quem são, como pensam, para onde vão, porque estão ali e qual a real de cada um deles…

No mais não passa de uma história (bem) contada, com um final esperado e sem surpresas.
Porém há futuro para o cinema nacional.
Bastante promissor.

 

 

Link para o IMDB

Homens, Mulheres e Filhos (2014)

 Blogger, Comédia, Daniel Arrieche, Drama, Filmes  Comentários desativados em Homens, Mulheres e Filhos (2014)
dez 092014
 
Author Rating / Nota do Autor:

TMPC_HomensMulheres

 

As relações interpessoais e suas consequências sempre foram a especialidade de Jason Reitman desde seus primeiros filmes, inclusive no novo “Homens, Mulheres e Filhos” onde a abordagem principal é a Internet e como são estas mesmas relações frente a situações fora do mundo virtual. A grande rede é mostrada como ferramenta de controle, como aliado na divulgação pessoal, tanto para construir relacionamentos amorosos quanto para destruí-los, e também como ponto de fuga da própria realidade em várias histórias que se intercalam, mostrando também a fragilidade do ser humano quanto ao uso das novas mídias.

O filme traz como ponto de partida as reflexões de Carl Sagan sobre um “Pálido Ponto Azul”, fazendo referência a uma foto da Terra enviada da sonda espacial Voyager, onde mostra nosso pequeno planeta e a imensidão de coisas que acontecem nele: tão grande é a nossa soberba que não conseguimos enxergar o quão pequenos somos em torno de todo o universo em que vivemos. Esta é a premissa para que todas as histórias se desenvolvam até o limite do sustentável, e cada uma tem seu desfecho (nem sempre o esperado pelo público). As temáticas de solidão além tela, bullying, anorexia (e suas consequências), virgindade, aborto, pressão dos pais para que os filhos sigam determinados caminhos (basados em seus sucessos e frustrações. Todos esses assuntos tão atuais fazem uma bela colcha de retalhos, que se encaixa muito bem tanto com a escolha dos atores (que acaba mesclando atores já tarimbados com os novos talentos), quanto nas trilhas sonoras (onde até o silêncio se encaixa) nas horas mais tensas.

O filme de Reitman ainda traz também uma narração em “off” de Emma Thompson realçando cada história e tentando sempre traçar um paralelo com o universo de Sagan. O que não é nenhum pouco pequeno. Uma obra cativante, e em certos momentos com cargas emotivas muito grandes e sensíveis, sem ser clichê ou piegas.

 

 

Link para o IMDb